Questão de Família ainda pensa que série funciona como novela
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Questão de Família ainda pensa que série funciona como novela

Clarice Cardoso

10 de abril de 2014 | 23h12

Questão de Família

Clarice Cardoso

O anúncio da estreia de uma série nacional sempre nos deixa animados. Tudo bem que foi preciso uma lei que forçasse os canais a ter produções locais para que o empurrão final nesse mercado fosse dado, mas é excelente saber que teremos espaço para mais profissionais, mais atores, mais roteiristas, mais ideias que só funcionam na forma de seriado de televisão.

Ontem foi a vez de Questão de Família, exibida às quartas, às 22h30, no GNT. O protagonista é um juiz da vara de família cuja vida pessoal vai de mal a pior. Para entender melhor os casos de que cuida e dar seus vereditos da forma que acha mais justa, sai à noite disfarçado para investigar ele mesmo as pessoas envolvidas e analisar seus comportamentos. Até que ponto estão dizendo a verdade? O que é mais justo para cada um?

A premissa é ótima, e abre possibilidades infinitas de roteiros e histórias de projeção e identificação de Pedro, o juiz interpretado por Eduardo Moscovis, com todos os que passam por sua vida. É uma pena que a coisa fique aí, apenas: nas possibilidades.

Ao menos pelo que foi possível ver nos dois primeiros episódios, Questão de Família atira para todos os lados na busca de acertar seu tom. As cenas em que Pedro se lembra da infância têm um tom, as do tribunal têm outro, as da vida familiar um terceiro. É óbvio, bom e salutar que um episódio flerte com diversas nuances de uma história, mas é preciso um fio de linguagem mínimo que guie tudo aquilo. Questão de Família não achou o seu – ou, se achou, não deixou isso claro para o telespectador.

Há uma referência televisiva óbvia na vida “dupla” de Pedro: Dexter. Assim como o assassino serial que só mata bandidos depois que os investiga a fundo até ter uma certeza inquestionável da culpa dos criminosos, Pedro se propõe a seguir as pessoas envolvidas nos casos para ver como é seu comportamento fora do Fórum. Para o carro um pouco de longe e observa. Às vezes, usa até um moletom com capuz que lhe cobre a cabeça, lembra muito o Dark Passenger.

Só que isso, que tinha tudo para ser o ponto central dos conflitos da série, recebe um tratamento mediano. É tudo muito rápido e óbvio e, na verdade, Pedro não investiga nada a fundo. Mal ele chega, descobre que a mãe realmente não tem condições de tomar conta dos filhos. Vai embora e o caso está decidido. (No segundo episódio, há uma cena que ele presencia que é de péssimo gosto. Um exagero que, se muito, só numa novela se perdoaria.)

Pense em quantas possibilidades de história isso não pode gerar: e se ele for reconhecido? E se vir um de seus entes queridos envolvidos numa daquelas situações? E se for pego fazendo isso e desmoralizado diante de seus colegas? E se o caso em questão remeter tão fortemente a uma cena que ele protagonizou no passado que isso o impeça de chegar a uma decisão?

 

Em algum momento, é preciso assumir, alguém pensou nisso: em um caso, ele tem de julgar com qual dos pais ficará a guarda dos filhos após o divórcio. A mãe é acusada de beber, apesar de fazer tratamento com psicotrópicos tarja preta. Na hora, Pedro mal reage à informação. Depois é que o vemos já em casa, com a garrafa de cerveja na mão, indo em direção aos seus remédios tarja preta. Ele pensa uns segundos e decide não tomá-los, mas fica só nisso. E os conflitos internos? E a dor inegável por que os dois passam, que os fazem precisar dos remédios e da bebida? É impossível que ele não se identifique com alguém que sente a mesma angústia que ele. Ele se sente como ela? Ele julga que ela é inferior por não resistir, como ele acaba de fazer? Tudo isso fica no campo das conjecturas.

Este é só um exemplo de como a falta de ousadia transforma as séries brasileiras em coisas quadradas, caretas. Cadê a aposta na premissa instigante, no personagem perturbado, que desafia a identificação com o público – cadê nosso Tony Soprano, nosso Walter White? As melhores séries dos últimos anos tinham protagonistas assim, e isso não prejudicou em nada sua aceitação pelo público brasileiro.

Fica a impressão de que, depois de ter nascido uma ideia muito boa, alguém começou a ter pequenos receios, pedir mudanças demais, muitos palpites vieram e o rumo da coisa se perdeu. Isso é uma conjectura muito pessoal, pode não ter sido nada disso. Mas fico aqui pensando: se os ingredientes são bons, porque o bolo solou?

Entro aqui numa questão ainda mais polêmica: o tom novelesco. A série brasileira não pode mais ser encarada como uma novela de curta duração. O roteiro tem que ser diferente, a direção tem que ser diferente, a edição tem que ser diferente. Mais que tudo, a atuação tem que ser diferente. É claro que historicamente as novelas são a grande escola da nossa dramaturgia, mas a série exige algo a mais. Mais profundo, mais instigante.

Por definição, um seriado tem público segmentado, ao contrário de uma novela, e é por isso que pode assumir mais riscos. Há quem diga que é com isso que a audiência brasileira está acostumada. Bobagem. Fosse assim, as boas séries gringas, que absolutamente não seguem esse padrão, não fariam tanto sucesso por aqui.

Você sabe logo de cara que o protagonista é vivido por Eduardo Moscovis e é isso o que vê na tela: Moscovis, e não Pedro. O que ele entrega como ator é exatamente o que faria numa novela. Não digo que isso esteja certo ou errado, pode até ser uma escolha muito bem fundamentada. Mas personagens de séries crescem infinitamente com uma interpretação que lhes dão mais camadas. Um Pedro mais dúbio me cativaria muito mais do que o Pedro que é só mais um galã de novela.

Diante de uma série assim, que entrega tão pouco diante do que promete, prefiro pegar o controle remoto e ver um episódio repetido de Breaking Bad, ou a reestreia de Veep (de que vou falar logo mais).

Nada disso significa que devemos desistir de ver séries nacionais. Aliás, se estiver na dúvida entre qual assistir, sintonize na excelente Psi, aos domingos, na HBO. Emilio de Mello dá um show só seu e o roteiro confia que nós, telespectadores, teremos sim a capacidade de pensar e entender sutilezas.

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