Protagonista paradoxal é a grande força de Psi
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Protagonista paradoxal é a grande força de Psi

Clarice Cardoso

23 de março de 2014 | 01h58

 

Clarice Cardoso

Estreia neste domingo na HBO uma série em que vale prestar atenção: Psi. Não só porque é uma produção nacional, mas também por isso. Não só porque traz um roteiro interessante, mas também por isso. Não só porque o tema rende uma infinitude de possibilidades, mas também por isso. Não só pela direção inteligente, mas também por isso. Mas também pela força da atuação de Emilio de Mello como protagonista.

Na edição impressa do Caderno 2 deste domingo, está a entrevista que fiz com ele, que tem larga carreira no teatro e empresta toda essa experiência agora para o serido. O texto já está disponível no Portal do Estadão, e pode ser lido aqui. Ali é possível entender como ele se preparou e criou o Carlo Antonini que você conhecerá.

Em resumo, Psi é a história de um psiquiatra, psicólogo e psicanalista dotado de extrema sensibilidade e facilidade para ler o outro. Graças a isso, envolve-se nas histórias das pessoas ao seu redor, mais até do que nas de seus pacientes, e passa a ajudá-las. O que me surpreendeu na exibição da série para a imprensa na semana passada foi a capacidade de Emilio em deixar transparecer as várias facetas desse personagem. Nas palavras dele, Carlo Antonini “quer usar o poder que tem para ajudar, mas se dá conta de que não tem esse poder, não acredita nessa ajuda. É seu lado mais humano, e foi nesse espaço sutil e paradoxal que quis trabalhar”.

É a primeira vez que eu vejo em muito tempo uma produção nacional investindo na densidade dramática que consagrou séries já clássicas na TV. Pense um pouco em títulos como Breaking Bad, Mad Men e Família Soprano. O que todas têm em comum? Protagonistas poderosos, em posições de destaque, mas cheios de falhas. Eles desafiam o espectador porque não permitem uma identificação fácil ou rasteira, propõem dilemas morais, questões de identidade mesmo. Guardadas as devidas proporções, é o que a HBO permitiu que Psi comece a fazer — e, sejamos francos, não há hoje no ar nenhuma série nacional que permita qualquer tipo de avaliação mais aprofundada. Falta audácia. Ou faltava, se Psi cumprir o que promete

Emilio conta uma história curiosa que mostra o quanto adentrou o mundo de Carlo. Nos meses de preparação, levou seus filhos a uma festa de crianças no Rio, e um menino chamou sua atenção. “Ele tinha uma atitude muito esquisita, não se relacionava. Tinha dois anos e pouquinho, e ficava ali, fazendo desenhos. Desenhava círculos perfeitos. Comecei a conversar com o pai dele, que me disse que ele tocava violão perfeitamente, como uma criança de dez anos. Já em São Paulo, falei disso com o Contardo (Calligaris), que concordou que era esquisito, e fiquei com um problema muito grande: como dizer para alguém que eu vinha estudando o autismo (que é abordado no primeiro episódio) e que o filho dele tinha essas características? Quem sou eu pra falar uma coisa dessas?”, relata.

“Acontece que essa criança foi diagnosticada com autismo dois meses atrás. E o que acontece com o autismo é que o diagnóstico é muito difícil. Os pais não reparam nisso e vão notar já aos seis anos. Então eu entrei nessa crise, de olhar aquela criança e falar ‘tem alguma coisa errada aqui’. Trabalhar em Psi me abriu os olhos para esse tipo de coisa. E isso é muito interessante para as pessoas, para como elas se relacionam com o mundo. Então realmente me trouxe esse interesse. Tanto é que hoje estou lendo um livro de psicologia e estou superinteressado nessa literatura. Acho que todo mundo deveria ler pra poder se relacionar com os outros”, conta o ator.

Algo similar aconteceu com Claudia Ohana, que interpreta a parceira de profissão de Carlo. “Desde que fui fazer o teste, já achei a personagem interessante, uma psiquiatra, uma médica. Isso já me animou. Eu acho tenho um lado médica, uma médica sem fronteira nenhuma…”, diverte-se. “Pensei: ‘Caramba, acho que eu estou numa grande coisa, num grande seriado’. Isso foi muito, muito bom, e o meu personagem também era maravilhoso. Eu sou viciada em séries de TV, assisto a muitas, e eu achei que a gente ia fazer um grande trabalho.”

*

Antes de sentar-se para assistir aos dois episódios que serão exibidos na sequência, deixe de lado o senso comum. (Se puder, deixe o tempo todo.) Em primeiro lugar, esqueça aquela piadinha que sempre termina com “terapeutas são todos malucos”. Se for por esse caminho, você perderá justamente toda a densidade de Carlo, que é onde está a beleza do trabalho de Emilio. Conversei com o criador, o psicanalista e escritor Contardo Calligaris, em cuja obra a produção se inspira, e deixo que ele explique melhor a evolução do personagem que nasceu em seus livros.

“Alguém pode assistir ao quinto episódio sem ter visto os anteriores, embora não seja o que a gente deseja. Ele vai perder certamente alguma coisa da evolução do personagem do Carlo, da Valentina (Claudia Ohana), do elenco fixo.” Em outras palavras: vai perder o que Psi promete ter de melhor, que é a atuação dos dois atores. “No fundo, pela própria natureza dos problemas que cada um dos personagens de cada episódio apresenta, a densidade, pelo menos no meu ponto de vista, da problemática de cada personagem faz com que cada episódio seja no fundo um pequeno longa”, afirma Contardo.

Também não se sente no sofá com In Treatment ou Sessão de Terapia na cabeça. Psi não é uma série de divã. “Eu gosto da versão americana e gostei do que vi da nacional, mas aquela é uma série de consultório, uma experiência muito especial que é aquela coisa do paciente de segunda, o paciente de terça”, explica. “Nossa série nunca foi nem pensada como uma série de consultório propriamente. Pra mim o consultório é, às vezes, visto como um outro mundo, separado da cidade, da vida. Meus consultórios sempre foram em lugares elevados, com muitas janelas, com muita vista da cidade, muito em contato com a vida lá fora. Nunca vi meu consultório como um lugar onde as pessoas se fechariam, pelo contrário, sempre foi um lugar aberto”, completa, praticamente descrevendo uma cena que você já verá no piloto. 

Há um elemento extra aqui, que é nossa mórbida curiosidade de nos intrometermos na vida do outro. É certamente parte do que torna as produções com esse tema (de In Treatment a A Outra, ótimo filme de Woody Allen de 1988). Mas, por mais que o lado “patológico” das questões esteja lá, o roteiro vai além disso. “Por que os problemas dos outros são tão interessantes? Que mais há de interessante?”, diverte-se. “Até porque os problemas dos outros são a grande porta de acesso aos nossos”, diz. Como vai ser recebido? Não sei, a minha esperança é que seja libertador para as pessoas. E sobretudo que dê a sensação de que as diferenças que podem parecer extremas são na verdade muito mais próximas.”

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