Minhas teses sobre o fim de True Detective
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Minhas teses sobre o fim de True Detective

Clarice Cardoso

08 de março de 2014 | 10h24

 

Clarice Cardoso

Somos obsessivos e True Detective é nosso novo objeto de projeção. Amigos e leitores na última semana têm me enviado teorias e me perguntado como eu acho que a série vai acabar, então resolvi escrever neste espaço, onde todos podemos debater. (Este post prova aos céticos que o binge-watching une as pessoas quando todos param para debater teorias do que viraram a noite assistindo. Que coisa mais fofa.)

Alguns de vocês vão considerar que este texto está cheio de spoilers, por isso o aviso ali em cima. A grande maioria vai dizer que eu enlouqueci e não sei do que estou falando. Tudo bem por mim.

Li outro dia uma tese bem desvairada, mas inventiva, que dizia que os dois detetives são, na verdade, a mesma pessoa. True Detective vira Clube da Luta. Seria curioso, mas não é por aí, vai.

Algumas pessoas têm dito que o ex-sogro de Marty pode estar por trás de tudo. Não concordo totalmente, mas a tese traz uma questão essencial: o comportamento errático da filha dele e a frase recorrente: “A solução estava debaixo do meu nariz, mas eu estava prestando atenção nas pistas erradas”. A menina brincava de estupro com Barbies, fazia desenhos sexuais, teve aquele caso do ménage precoce, etc etc. Algo tão marcante não pode estar ali por acaso. Ou pode? Se ela foi levada ao culto, só alguém muito perto do Marty, acima de qualquer suspeita, a teria colocado naquele mundo. Quem? A mãe? O avô? Talvez até o chefe dele? Ter alguém acima de suspeitas é a regra número um de qualquer romance policial. 

O criador Nic Pizzolatto já disse para esquecermos a teoria de que o criminoso é um dos protagonistas. Ele queria que a gente pensasse isso, e deu a dica de que o criminoso deu as caras já no primeiro episódio (estou me controlando para não ver de novo e procurar alguma pista. Vocês saberão aqui se terei sucesso no esforço hercúleo que isso representa para mim.)

Uma das minhas teses é que não existe Yellow King. Ele é como uma entidade, uma estátua que seja, uma deidade inventada a que todos prestam culto e com quem têm visões depois de algum tipo de cerimônia. Os convertidos (e aí o homem com as cicatrizes seria mais um do rebanho), “só” seguiriam seus “mandamentos”. Mas aí: quem inventou o Yellow King? E quando? Quem segue pregando em seu nome?

O que eu acho que vai acontecer: não penso que os assassinatos precisam de uma solução forte, de um grande momento AHA!. O começo todo é psicológico demais, entra demais nos dramas existenciais dos dois detetives em seus monólogos, e é minha parte favorita. (Troco um monólogo do Cohle para a câmera por qualquer cena de ação ou reviravolta que tenha vindo depois.) Se eu fosse o Pizzolato, diria que o efeito que o criminoso teve na vida dos dois nessas duas décadas, a espiral destrutiva em que os lançou, é mais importante do ponto de vista dramático do que sua identidade, então ele pode ser qualquer um. Estou mais interessada no que aconteceu durante o “sumiço” do Cohle do que na identidade do serial killer.

Meu amigo Alexandre, com quem debato séries desde que Walter White cozinhava drogas de cueca no deserto, já disse que algo assim será um “Losticídio”, mas eu me darei por satisfeita com um fim mais “psicológico” — o que não quer dizer em aberto.

Já temos filmes e séries com grandes reviravoltas e tentativas demais de chocar o espectador. Vou achar um alívio se uma produção tão boa terminar investindo num jeito diferente de contar histórias. (Até porque, se eu quisesse ver algo megalomaníaco e sem roteiro, eu alugaria Transformers.)

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