Criador comenta final de True Detective (+ veja cena deletada)
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Criador comenta final de True Detective (+ veja cena deletada)

Clarice Cardoso

15 de março de 2014 | 10h03

Clarice Cardoso

Não há soluções que expliquem tudo ou finais definitivos. E isso vale tanto para a vida quanto para True Detective, cujo último episódio será exibido pela HBO no domingo, às 22h.

O fim da série não dá respostas redondinhas, o que para mim é seu maior trunfo, conforme escrevi nesse post em que descrevia minha teoria do que iria acontecer. Na edição impressa do Caderno 2 de domingo, escrevi sobre o episódio final (colocarei aqui o link assim que o material estiver disponível na internet), mas, para o blog, queria dar a versão do idealizador de tudo para as escolhas que fez. (Como a faixa acima alerta, este é um post com muitos, muitos spoilers.)

Em uma longa entrevista que ele deu à Entertainment Weekly, o criador e roteirista Nic Pizzolatto se aprofunda em questões que na tela ficaram só indicadas, e dá belas chaves de interpretação para outras em que todos ficamos pensando, especialmente depois da forte cena final entre Matthew McConaughey e Woody Harrelson.

Na entrevista, Pizzolatto diz que detém os direitos literários dos personagens. “Mesmo que me chutem para fora, não se surpreenda se vir livros com Hart e Cohle por aí.” E deu dicas sobre a segunda temporada: “Basicamente, mulheres duronas, homens ruins, e uma história oculta do serviço de transportes norte-americano. Eu estava bem-encaminhado escrevendo tudo isso, mas os ruídos sobre o final da primeira temporada me atrapalharam.”

Dividi os trechos da entrevista nos temas mais debatidos:

O final de Marty e Rusty

Marty e Rust sempre foram vítimas desse caso, e era cada vez mais admissível que acabassem morrendo no final de tudo. Eles mesmos se preparam para isso, por fim. Assumiram-se mártires. No último episódio, numa rara (e ótima) cena de ação, isso quase acontece, mas Pizzolato escolheu ir por outro caminho e não matá-los. “Nunca vamos passar tempo com eles novamente, e matar personagens na televisão se tornou um atalho fácil para conseguir emoção. Até pensei em matá-los, ou criar algum destino misteriosos para eles (como entrarem no submundo de Errol e se perderem por lá, desaparecer, sem ninguém saber o que foi deles), mas isso seria levar a série toda para o caminho do supernatural. Para mim, seria pueril e teria evitado todas as questões que levantamos. O desafio era não apenas deixá-los vivos, mas mostrar as mudanças verdadeiras por que passaram ao longo da jornada.”

“O desafio era criar um final emocionalmente razoável que fizesse com que a jornada tivesse valido a pena. E senti até que o meu relacionamento com os dois personagens deveria terminar comigo dando a eles a permissão de sair andando rumo a algum tipo de imortalidade fora do programa. Termino com os detetives deixando o palco, e não sabemos que tipo de vida eles terão, mas podemos ter certeza de que os dois estão mais dispostos a aceitar a presença da graça. Porque foi nesse ponto que os dois falharam: nenhum deles conseguia conciliar o conceito de graça com suas racionalidade. Não queria que eles chegassem num ponto de redenção, de conversão, de entendimento e muito menos de resolução. Eles não estão curados, mas, pela primeira vez, você pode conceber que existe um futuro em que eles possam estar curados. Antes, isso nunca foi uma possibilidade para Cohle, e certamente não para Hart.”

Como o diálogo final resume e explica toda a série

True Detective reforça o tempo todo que tudo é uma história. Tudo. Quem você diz ser para si mesmo, o que diz a si mesmo que o mundo é, uma investigação, uma religião, um ponto de vista niilista. São apenas histórias que você conta a si mesmo. Tome cuidado com o que conta a si mesmo.”

“Não é que Rust passe a acreditar em algo no final, ele está falando de uma experiência. O monólogo não trata da reconciliação com pessoas amadas depois que elas morreram. Se prestar atenção ao que ele diz, a frase é: ‘Eu não existia mais. Só havia amor… E então eu acordei’. Essa frase sozinha representa toda a série: ‘E então eu acordei’. O único diálogo verdadeiro que ele tem é: ‘Você está vendo do jeito errado. Para mim, a luz está vencendo’. E isso não parece uma conversa para mim, mas uma perspectiva se abrindo. O homem que um dia disse que não havia luz no fim do túnel agora percebe que pode haver alguma ordem nisso tudo. Acho que não diz outra coisa que não seja: escolha com cuidado as histórias que conta a si mesmo.”

Por que começar o último episódio com Errol?

“Mantivemos o monstro que é Errol atrás das cortinas e precisávamos conhecê-lo. Sabíamos de alguns aspectos dele e mostramos sua história, ou ao menos demos informações o suficiente para descrevê-lo. No final, queria que o público tivesse um ponto de vista que o fizesse reconhecer esse monstro tanto quanto os heróis de True Detective. Não há monstros que não sejam humanos. Não há heróis que não sejam humanos. O desafio era deixar claro toda uma história e uma mitologia pessoal num período de tempo limitado. Como se tratava do episódio final, me permiti colocar ainda outro ponto de vista, o lado de sombra dos nossos personagens.”

O objetivo final de Errol

“Ele acredita que o assassinato ritualístico reencenado de tempos em tempos o permitirá ascender, no momento de sua morte, na roda cármica da reencarnação. Toda a ideia do tempo como um círculo vem de Nietzsche e da cosmologia quântica, mas é também a roda do carma.” 

O que Childress queria ao chamar a atenção para os crimes

“Childress estava sinalizando para as autoridades sua presença e a presença dos homens que o fizeram. E Cohle e Hart não fizeram justiça absoluta no fim. Cohle diz: não conseguimos pegar todos eles. Mas eles pegaram um grande galho de uma árvore podre. E Hart responde: nós pegamos o nosso. Basicamente, cabe a outras pessoas pegar o resto da árvore.”

*

Uma cena deletada colocada na internet mostra o personagem de Matthew McConaughey, Rust Cohle, terminando com sua namorada de 2002 depois de uma discussão sobre não ter filhos. Não é uma sequência que tenha feito falta na série e acho que, vendo o trabalho todo como foi ao ar, até atrapalharia, criando ruídos na construção do personagem.

De toda forma, é uma curiosidade interessante para os fãs, e deve estar na caixa com toda a temporada. A HBO vem tirando do ar link após link do YouTube. Como beira a ingenuidade achar que algo assim deixará de existir na internet, os vídeos continuam reaparecendo. Achei um mais recente, mas me avisem caso ele pare de funcionar.

*

Outras questões a que Pizzolato não respondeu acima:

A que filme Errol estava assistindo no começo do episódio final?

Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock – o que não é, para mim, a única referência ao diretor. Mais alguém lembrou de Psicose ao ver o pai morto na cama?

Qual a ligação real do reverendo com os crimes?

A série não deixa claro, mas ele sabia o suficiente para guardar a fita VHS da Marie Fontenot no cofre de casa. No mínimo, dá para cravar que ele sabia de tudo e ajudou a acobertar os crimes por anos.

Quem era o Yellow King?

Era uma entidade inventada ou um ancestral da seita patriarcal que respondia por esse nome? Não ficou claro para mim, e não sinto falta dessa resposta. Mas uma figura do Yellow King estava no cenário, dentro do labirinto: 

O que explica o comportamento errático e sexualmente precoce da filha de Marty, se ela não estava envolvida na seita?

Aqui dou uma interpretação totalmente pessoal, uma especulação. Fiquei pensando que ela, como criança, tinha uma sensibilidade aguda para captar a escuridão e o clima pesado que estava a rodeava, mesmo que não entendesse. Acho que ela era como um para-raio para a loucura dos adultos em volta dela, e isso, somado aos visíveis problemas que tinha com o pai, fizeram dela uma (pré-)adolescente problemática.

Era Rust um otimista enrustido?

Pela cena final, muitos dizem que sim. Não sei se é bem assim. É claro que todo o niilismo era parte de seu mecanismo de defesa para sobreviver a todas as perdas que vivenciou. Mas ninguém consegue viver apenas na sombra: se ele fosse alguém totalmente desesperançoso e pessimista, teria se matado anos antes. Chances não faltaram. Errol lhe diz: “Tire sua máscara!” Que equivale a dizer: “Baixe suas defesas”. A solução do crime pode tê-lo colocado em contato com um lado que sempre esteve lá. O jogo de luz e sombra que move todos nós – e, neste caso, a otimista enrustida sou eu.

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