‘Black Mirror’: a zona cinzenta da tecnologia
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‘Black Mirror’: a zona cinzenta da tecnologia

Clarice Cardoso

06 de março de 2014 | 11h27

Clarice Cardoso

Imaginar um futuro distópico é algo que sempre mexeu com a criatividade dos autores. De Blade Runner a Matrix, de 1984 a Minority Report, são muitos os exemplos de obras instigantes que têm como cenário um futuro em que os avanços tecnológicos dominaram a humanidade, deixando-a refém dos mais diversos aparatos científicos e sistemas de controle. Numa redução simplória, esse é o caso de Black Mirror, mas já chego lá.

Os mais críticos gostam de dizer que esses mundos distópicos se aproximam de nós a cada dia. Que a tecnologia nos rodeia e que ela esfria nossas relações, nos separa, nos torna emocionalmente doentes.

Se alguém pedisse minha opinião sobre isso (não pediram), eu diria que talvez o uso excessivo de tecnologia seja mais um sintoma que uma causa. A tecnologia e as redes sociais se aprimoram porque detectam demandas — não que sejam inocentes. Não são. Mas ninguém vende gelo para esquimó.

Ora, mais do que a causa pela qual as pessoas se tornam mais neuróticas, a tecnologia pode muitas vezes ser um facilitador para que neuroses apareçam, ou seja, ajuda que elas se concretizem. Para citar um filme recente, em Ela, de Spike Jonze, a dificuldade que Theodore tem de se relacionar e criar intimidade com aqueles ao seu redor é anterior à invenção de Samantha. Ela surge como um escape que lhe permite conviver com as consequências de ser quem é. Um band-aid.

Digo tudo isso para falar da série Black Mirror, uma excelente produção britânica criada por Charlie Brooker e sobre a qual mais e mais gente tem comentado recentemente. De certa forma, cheguei atrasada a ela, que é de 2011, e venceu o Emmy Internacional de melhor minissérie em 2012. Por tudo o que a produção tem a oferecer, porém, é um título em que você tem de prestar atenção neste momento. Não se prenda ao fato de ser uma série de alguns anos atrás, dê um jeito de assistir agora. Black Mirror tem o que de melhor existia em Além da Imaginação — até o humor, do qual hoje alguns nem se lembram.

As duas temporadas têm três episódios cada uma, e eles funcionam sozinhas, isoladamente, com elenco, enredo e mesmo gêneros diferentes. Cada capítulo é também quase um piloto: são tantas as possibilidades de reflexão que acometem o espectador no momento dos créditos finais que seria possível desenvolver séries inteiras a partir dali. E é bom que termine assim.

As histórias se passam em realidades que não são a nossa, mas que com ela guardam inúmeras semelhanças. Ponto central da trama, a tecnologia é, aqui, um meio de chegar a questões humanas atemporais,  antiquíssimas. Sutilmente, a série dá essa deixa. Exemplo: uma personagem comenta o olhar evasivo dos vizinhos que, mediados por seus celulares, afastam-se uns dos outros. “Mas não foi sempre assim?”, responde ironicamente sua interlocutora.

Cada tema é provocador a seu modo, e aprofunda-se em camadas que vão além do que a princípio se apresentou. Uma cápsula cerebral grava tudo o que você vive e vê, o que torna a memória orgânica obsoleta. Assim, potencializa a obsessividade de um marido que quer o controle absoluto sobre sua vida e sua esposa. Em outro episódio, o desejo de uma comunidade por vingança une-se à sede por espetáculo numa representação sadística do que é o conceito de justiça. Ou mais: diante de uma mulher em perigo, todos mantém-se passivos atrás de seus celulares, mais preocupados em registrar tudo do que em ajudar.

Exibida no Brasil pelo canal i.Sat à época, Black Mirror foi lançada em DVD e vai ganhar uma terceira temporada com ao menos dois episódios que, esperamos, terão lançamento menos tímido no País. O ator Robert Downey Jr. ofereceu à Warner Bros um projeto para transformar em filme o episódio The Entire History of You (aquele das cápsulas de memória e que, se sair do papel, você verá, alguém vai comparar a Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças).

Por força da profissão, o primeiro episódio da primeira temporada lançou-me na direção da reflexão que tenho todos os dias no trabalho: a relação entre a notícia e as novas mídias digitais. The National Anthem vai certeiro na discussão mais atual do jornalismo contemporâneo e lança críticas e reflexões de que séries como The Newsroomnunca nem sequer se aproximaram. Vou falar especificamente disso no próximo post: ‘Black Mirror’ pensa o jornalismo como ‘Newsroom’ nunca fez

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