24 Horas retorna: mas precisamos de mais Jack Bauer?
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24 Horas retorna: mas precisamos de mais Jack Bauer?

Clarice Cardoso

26 de março de 2014 | 10h45

Clarice Cardoso

O leitor atento deste blog deve se lembrar de que, há algumas semanas, fiz um post dizendo que uma tendência forte para 2014 eram as minisséries. Caso esse texto tenha passado batido, tudo bem, ele está aqui.

O que é curioso nisso é que elas não são um formato válido apenas para as produções novas: séries que já terminaram também estão se relançando nesse formato.

É o caso de 24 horas, que vai ser relançada em maio com o título 24: Live Another Day. Confesso que não fui das que ficou mais animada com a notícia. Assisti a todos os episódios da série, mas sempre me incomodei um pouco com o jeitão macho-alfa do protagonista. Fora que ele sempre foi mal interpretado no mesmo sentido que o Capitão Nascimento: tem sempre algum desmiolado defendendo a violência de Estado argumentando que na ficção ela dá resultados. Não é nada disso! Que preguiça…

Foi quando apareceu na minha mesa meu colega de redação Renato Vieira para falar sobre o assunto e eu disse: “Mas será que o mundo PRECISA de mais Jack Bauer?” Quisera não ter falado nada. Isso o motivou a retornar de tempos em tempos sempre com algum novo argumento tentando me convencer. Eu digo que é pra ganhar dinheiro em cima de uma franquia de sucesso garantido. Ele diz que mesmo assim esse retorno pode ser bom para a ficção, que ainda há histórias para contar, que a realidade político-social mudou… 

De tanto o Renato falar, resolvi pedir para ele escrever um post para o blog. Assim ele fala diretamente com vocês, leitores, sobre o retorno de Bauer. Essa é a segunda colaboração externa para o Fora de Série, o que me deixa bem feliz (a primeira foi a do Pedro Venceslau, sobre o House of Cards britânico).

Leiam o texto a seguir, que está muito bom (ou eu não publicaria, hehe), e reflitam. Não vou dizer por enquanto se ele me convenceu ou não porque quero ler nos comentários de vocês a resposta: queremos ou não mais Jack?

 

 

 24 Horas: o eterno retorno

Renato Vieira


Quando 24 Horas saiu do ar, em 2010, Jack Bauer já não se encaixava dentro da cultura pop na qual esteve inserido. O (anti-)herói que em oito temporadas enfrentou tudo o que pode acontecer de pior a uma pessoa em nome do “bem comum” se sedimentou, indiretamente, como fruto da era Bush e de sua beligerância, apesar de sua concepção anterior ao 11 de setembro.

A ascensão de Barack Obama ao cargo de presidente no ano anterior pode não ter sido decisiva para o fim da série, mas o contexto de “yes, we can” minou a história que sempre exibiu aos olhos mais atentos um país machucado e disposto a sacrifícios que causavam erosão em suas próprias bases éticas.

Porém, Obama autorizou ataques com drones, implantando bases de aviões não tripulados pelo mundo. Edward Snowden revelou detalhes de espionagem da CIA e da NSA. A Rússia voltou a enfrentar o ocidente, como nos “melhores momentos” da Guerra Fria. Mesmo sem guerra no Iraque ou Osama bin Laden, a tensão internacional está altíssima. E Bauer, adaptável por natureza, voltou a fazer sentido. É dentro desse contexto que o personagem interpretado por Kiefer Sutherland retorna, quatro anos depois de sua última aparição, em 24: Live Another Day.

A série especial segue o mesmo esquema de vinte e quatro horas na vida de Bauer, mas comprimidas em doze episódios. Formato ideal para evitar barrigas que vitimaram algumas temporadas. O que se vê nos teasers liberados pela Fox é um Bauer fugitivo e procurado pela CIA em Londres, onde o ex-secretário de defesa e agora presidente James Heller (William Devane) está presente para negociar a permanência de uma base de drones (opa!).

Chloe O’Brien (Mary Lynn Rajskub), que salvou o personagem principal diversas vezes, agora trabalha com Adrian Cross (Michael Wincott), um hacker que trabalha “pela informação livre” (epa!). E é quase certo que Heller vai travar embates com o primeiro-ministro britânico (Stephen Fry) em nome da segurança.

Pela premissa, 24 Horas continua com a característica que fez dela um dos principais produtos culturais de seu tempo: a capacidade de pegar elementos reais e recombiná-los dentro de uma lógica quase shakespeariana. E Live Another Day tem a vantagem de se passar na terra do bardo inglês.

Ser um espelho da realidade político-militar americana foi a dor e a delícia de 24 Horas. A série foi acusada de reforçar o estereótipo contra muçulmanos e apoiar a tortura. Mas sua força maior sempre esteve no subtexto. Os mocinhos, quase sempre, não voltam para casa e beijam a mulher e as crianças.

Além de Bauer, há outros personagens que tiveram suas vidas esfaceladas em nome de uma liberdade que, também na vida real, se mostrou falsa. Por esses fatores que Jack Bauer deixou de ser anacrônico para voltar ao mesmo aspecto de pertinência que o vitimou, dentro e fora da história. Para o bem e para o mal, sempre haverá lugar para ele.

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