Sobre Crumb e Shelton

Estadão

08 de agosto de 2010 | 11h23

Fotos Tasso Marcelo/AE

Fotos Tasso Marcelo/AE

A imagem que me ocorreu ao sentir o clima na saída da mesa de Crumb e Shelton na Flip, na noite de ontem, foi a de torcedores deixando do estádio após o time perder de virada. Quando a mesa começou, às 19h, todo mundo ali vibrava de antemão pela dupla, rindo de qualquer tirada, uma claque atenciosa. Na saída, no entanto, todos se olhavam sem acreditar naquele final tão anunciado. A mesa mais esperada desta festa literária, com dois dos maiores nomes dos quadrinhos mundiais, simplesmente não funcionou.

Acho importante aqui abrir um parêntese. É notório que Crumb não gosta de dar entrevistas; já falei isso tantas vezes desde que este blog começou que daqui a pouco me acusarão de plagiar meus posts. Mas vi comentários sobre o que seria descaso dele com a plateia. Discordo. Apesar de toda a “fama de mau” e de abrir a noite descrevendo o desconforto em falar de si próprio, Crumb lançou mão de várias frases de efeito ao longo da interminável uma hora de duração da conversa.

O fato é que ninguém esperava fofuras no discurso dele, mas as falas e o gestual, quase pastelões, foram todos medidos para agradar aqueles que o conhecem de verdade. Descaso? Os comentários cáusticos fazem parte do show que o cartunista sabe oferecer dentro e fora das HQs. Então, até aí, nenhuma surpresa.

O que houve, então? Não acho que seja o caso de escolher um único culpado. Não fluiu, e esse é o ponto, e era meio esperado. Shelton, é fato, estava viajandão, distraidíssimo, mas mandou algumas das melhores perguntas da noite. Após alguns minutos observando atentamente uma imagem do Gênesis do Crumb, por exemplo, estranhou: “Por que seu Adão não tem barba?”. O colega parou e pensou antes de responder: “Acho que ele deveria ter barba só quando fosse mais velho. Ele era novinho em folha nessa época, foi criado já adulto.”

FLIP/ROBERT

Aline, que entrou no terço final da mesa, chamada pelo mediador, Sérgio Dávila, foi acusada por espectadores de falar demais. Na média, todo mundo com quem conversei odiou a entrada dela. Eu, particularmente, acho que deu um fôlego para a conversa seguir até o final. Aliás, acho que ela deveria estar no palco desde o começo, porque tem esse senso de humor afiadíssimo e ajuda a evitar aqueles silêncios constrangedores causados pelo desconforto de Crumb (como dá para ver neste vídeo de um festival literário em Praga).

A mediação também não era trabalho dos mais fáceis – quando o convidado não se estende nas respostas, não dá para fazer milagre. Mas sou da opinião de que o debate teria a ganhar se se falasse menos da vida pessoal, essas coisas que todo mundo sabe e/ou pergunta a eles, e mais das obras deles e dos quadrinhos em geral, do atual boom no mercado de HQs na comparação com o cenário incipiente no qual se destacaram e de como isso afetou as antigas editoras independentes, do peso do roteiro e da imagem numa história.

Dito tudo isso, seguem algumas frases da noite, pra quem não viu e não aguenta mais blablablá. Pularei aquelas que já tinham sido ditas, com outras palavras, na entrevista coletiva de sexta-feira.

FLIP/ROBERT

“Eu não entendo porque as pessoas me colocam nessa situação. Sou uma pessoa entendiante na vida real. Meu trabalho é interessante, mas minha personalidade não é nada demais, vou entendiar todos eles. E todos esses fotógrafos, é muito desconfortável. É extremamente incômodo.” (Crumb)

“Eu gostei da ideia de viajar de graça para um lugar bonito como Paraty.” (Shelton, justificando sua vinda ao Brasil)

“Eu acordei um dia e estava vivendo na França.” (Crumb, sobre a decisão de sair dos EUA, tomada por Aline)

“Não lembro de muita coisa daquele período, estava fumando muito, usando muito LSD, tudo se confunde na minha cabeça.” (Crumb, desconversando sobre a época em que conheceu Shelton)

“Competitivo? Competitivo? Está brincando? Havia tão poucos de nós, uns quatro, talvez, não havia nada por que competir.” (Crumb, sobre se era competitivo o cenário em que começou a fazer HQs)

“Eu fazia uma página semanal dos Freak Brothers, e todos que faziam parte do editorial viviam chapados, enquanto eu dizia, não, não, preciso terminar minha história. Quando saía a publicação, todas as histórias eram completamente ilegíveis, exceto a minha página.” (Shelton)

“Ela (Janis Joplin, que era amiga de Shelton e rejeitava a ideia de passar do folk para o rock) devia ter continuado no folk, eu acho. Estaria viva hoje…” (Crumb)

“Não sou mais tão obcecado por sexo quanto era. Vejo esse trabalho agora e não me identifico com a pessoa que fez isso. Penso: Jesus, que lunático. Ah, me assentei com a idade. Sou um velho acadêmico agora.” (Crumb)

“Acho que as mulheres brasileiras são… tall and tan and young and lovely, the girl from Ipanema goes walking, and when passes each one she passes goes a-a-ah” (Shelton)

“Eles estão publicando meu Gênesis em Israel, vai sair em hebraico. E como é escrito da direita para a esquerda, eles estando colocando na posição inversa todas as ilustrações, para colocar o texto. É louco. E foram os editores que me deram o menor adiantamento entre todos os que me publicaram.” (Crumb)

“Quem você gostaria que interpretasse você num filme?” (Shelton)
“Brad Pitt? Não sei.” (Crumb)
“Eu queria ser interpretado por Clint Eastwood” (Shelton)
“Mel Gibson para mim, então” (Crumb)

“Os Três Patetas são populares aqui? Isso me faz respeitar muito mais o Brasil. Na França, eles são completamente desconhecidos. Eu os mostrei a um amigo lá, e ele me disse: ‘Isso é completamente estúpido’. E eu lá rolando no chão de rir.” (Crumb)

“Estou feliz em estar aqui porque venho sendo ignorada há 40 anos” (Aline)

“As pessoas mandavam cartas cheias de ofensas quando começamos a desenhar juntos. Diziam: ‘Ela pode ser boa na cozinha, mas deixe-a longe do papel’. As pessoas estavam furiosas.” (Aline)

“Não é do seu interesse.” (Aline, sobre se a dinâmica do casal também funciona bem no sexo)

“Meu desenho é tão primitivo que se eu desenhar com o pé ninguém vai perceber.” (Aline)

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