Na abertura, Drummond dividido em dois

Estadão

05 de julho de 2012 | 17h47

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S. Paulo

Duas distintas visões da obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade marcaram a abertura da 10.ª Flip, na quarta-feira, 5, à noite. De um lado, o crítico e romancista Silviano Santiago defendeu que o conjunto dessa obra é organizado por duas linhas de força paralelas e contraditórias, a oposição entre Marx e Proust, ou seja, entre uma poesia social, revolucionária, e os valores tradicionais do clã familiar dos Andrades. Já o poeta e letrista Antonio Cícero concluiu que a fusão de Drummond com a cidade, no poema A Flor e a Náusea, é reveladora de um espírito verdadeiramente moderno, embora preso à sua classe social e seguro de que nem mesmo o sol é capaz de renovar os doentes, como diz.
Nesse poema, Drummond descreve um acontecimento aparentemente banal, o nascimento de uma flor bem feia brotando do asfalto que, a despeito da sua brutalidade, é capaz de comover o poeta, preso a um sentimento de náusea que lhe desperta a cidade. O sentido desse espelhamento, porém, nada tem de elogioso, segundo Cícero. É a náusea que se duplica ao ver-se refletido num ser vivo que nasce e é condenado a viver num mundo inóspito. Esse fato extraordinário, o nascimento de uma beleza inaudita numa paisagem ordinária, foi analisado por Cícero como atrelado ao conceito filosófico expresso no romance A Náusea, de Sartre, em que o filósofo francês fala de um historiador encarregado de produzir a biografia de um nobre do século 18, que se desencanta com a cidade e a sociedade que descreve.
A aversão de Drummond não é, segundo Cícero, muito diferente daquela sentida por Roquentin, o personagem de Sartre, nauseado pela falta de sentido na existência. Drummond teria mesmo pensando em suicídio à época do poema (1945), garante. Ele foi escrito quatro anos antes de Adorno proclamar que era imoral fazer um poema após a explosão da bomba atômica em Hiroshima, a última pá de cal no humanismo.
Silviano Santiago disse mesmo que, ao se instalar na então capital da República, onde Getúlio Vargas usurpa o poder, e testemunhando a propagação da guerra pelo mundo, Drummond questiona não só a oligarquia rural como a organização social e econômica do Ocidente (Nosso Tempo). É o momento da práxis marxista do poeta, do possível diálogo interclassista com o operário. Mas Operário no Mar não é suficiente para quebrar a barreira que separa o intelectual do trabalhador braçal. Daí para ao regresso ao lar, ao clã dos Andrades, foi um passo. Drummond deixa a poesia social para João Cabral de Melo Neto e reencontra os valores “silenciosos e distantes do seu clã”. Perdendo seus familiares, ele teve como alternativa a de construir um mundo utópico alheio a ele, para que depois, ao final da vida, segundo Santiago, “os recuperasse na série intitulada Boitempo”.

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