Humor autêntico e pelo avesso

Estadão

07 de agosto de 2010 | 10h38

Ontem joguei aqui algumas frases ditas por Crumb durante a entrevista, e o post foi linkado num blog que chamava para o que seria um “show de grosserias e mau humor” do cartunista. Daí reli e pensei que talvez, fora de contexto, pudesse sim ter essa leitura. Mas não é assim. Crumb é muito menos ranzinza do que parece. Ou melhor, ele reclama mesmo de tudo, mas está longe de ser grosseiro. Ele se sente sufocado com o assédio, é fato, detesta ser fotografado como se fosse galã e reage quase como criança. Ele é, como definiu Aline, “um cara doce”. O que não significa que não seja também um bocado debochado.

Daí resolvi colocar aqui o texto que saiu no Sabático de hoje sobre a entrevista coletiva e os dias dele em Paraty. Acho que ao menos contextualiza um pouco as frases que ele disse na coletiva.

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Humor autêntico e pelo avesso

RAQUEL COZER

 

Tasso Marcelo/AE

Foto: Tasso Marcelo/AE

“Parem, por favor”, disse Robert Crumb, na manhã de ontem, ao se aproximar da sala na qual enfim falaria aos jornalistas em Paraty – algo que até dois dias antes a organização da Flip temia que ele nunca chegasse a fazer. Tentar caretas ou levantar o dedo do meio para os fotógrafos que o cercavam na entrada, na tentativa de evitar registros, havia surtido o efeito inverso (foram as fotos preferidas por todos ali), então o cartunista precisou reclamar. A questão é que Crumb sorri quando está desconfortável, numa espécie de reação reflexa, de modo que os outros demoram a entender quando é hora de deixá-lo em paz.

Hoje, às 19h30, ele participará de uma das mesas mais concorridas desta edição, com o pai dos Freak Brothers, seu amigo Gilbert Shelton – que, como ele, é um dos nomes centrais das HQs underground dos anos 60. Os dois chegaram da França com suas respectivas mulheres, a cartunista Aline e a agente literária Lora Fountain, na terça pela manhã, mas quase não se viu Crumb. Shelton circulou à vontade, sempre de calça jeans com suspensórios, mas o criador do Mr. Natural deu parcos sinais de vida. Anteontem, foi passear de barco e almoçar na ilha do Catimbau com seu mesmo figurino básico de personagem de quadrinhos: calça e camisa social, chapeuzinho à moda antiga e casaco preto. E passou longas horas “meditando” na pousada, nas palavras de Aline.

Como o trabalho mais recente do artista, a versão ilustrada do Gênesis, saiu no Brasil no ano passado, duas editoras trataram de arrumar material para sua passagem pela Flip. A Conrad, que tem quase toda a obra dele por aqui, preparou uma edição de capa dura de Meus Problemas com as Mulheres, que reúne cartuns do título homônimo em inglês e outros feitos de 1964 a 1991. A Desiderata fez nova edição do Kafka de Crumb, biografia com texto de David Zane Mairowitz, publicada em 2006 pela Relume-Dumará. O próximo trabalho inédito está previsto para 2011. A princípio, se chamará Drawn Together, e reunirá histórias feitas em parceria com Aline Crumb – inclusive aquelas que, feitas para a New Yorker, foram publicadas em português pela revista piauí.

Crumb não gosta de dar entrevistas porque jornalistas perguntam sempre as mesmas coisas, é o que ele diz. Não teria nem vindo ao Brasil não fosse uma forcinha “das sras. Shelton e Crumb”, que, dispostas a sair da rotina, o convenceram a pegar o avião. “Vim de classe executiva, foi legal. Estou me divertindo à beça”, disse, irônico, aos repórteres interessados em detalhes. “Se pudesse escolher, iria para um lugar onde fosse anônimo. Sou melhor em observar que em ser observado.” É verdade que Crumb é bom em reparar em pessoas e situações para depois ilustrá-las, mas também é curioso observá-lo. O quadrinista é o ranheta menos ranzinza de que se tem notícia. Reclama de tudo, do governo, da música dos dias de hoje, do assédio do púplico, do barulho (Aline e ele acharam o povo brasileiro, até onde foram dados a conhecê-lo, em Paraty, um tanto “inquieto”), só que cada uma de suas frases de efeito vem acompanhada por uma sacudida de ombros, aquele sorriso por ato reflexo e a famosa franzida na testa para evitar que os óculos lhe escorreguem pelo nariz. Um ator não faria melhor, mas ninguém duvida de que seja autêntico.

Não é sempre que Aline consegue arrastá-lo para fora da vila onde os dois vivem desde os anos 80, no sul da França. No ano passado, por exemplo, ao viajar para a Índia, achou melhor deixar o marido em casa. “Adorei tudo por ali, mas ele teria morrido”, disse ela ao Sabático, na quarta-feira. Ele até sabe se virar sozinho, conta a mulher – depois de 25 anos entre franceses, sabe da língua o suficiente para conseguir comida e sobreviver, “E agora ele está com uma secretária, uma amiga minha, americana. Além do mais, todo mundo na cidade o conhece e o protege.”

Crumb diz ainda não ter se acostumado com a ideia de que quadrinhos hoje são vistos como arte ou literatura. Acha “bizarro” participar de um evento como a Flip e estranha o boom nas vendas de HQs. “Quadrinhos não foram feitos para se levar a sério, me assusta ver isso acontecer”, diz. Mas não reclama, e por isso aceita fazer tudo isso que detesta – viajar, dar entrevista, dar autógrafo vez por outra, quando alguém o pega de surpresa. “É algo economicamente muito viável, e é também por isso que estamos aqui.”

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