Antes do abismo: Flip debate literatura e morte

Estadão

05 de julho de 2012 | 12h44

Maria Fernanda Rodrigues

E a Flip começou pelo fim, e começou com o pé direito. Foi muito feliz a ideia do curador Miguel Conde de convidar o goiano André de Leones, o gaúcho Altair Martins e o mineiro Carlos de Brito e Mello para a mesa Escritas da Finitude que, apesar do tema aparentemente pesado, fez a plateia rir umas tantas vezes. Em comum, os três jovens escritores têm o apreço pelo tema da morte, que aparece com frequência em seus livros. A mediação foi feita por João Cezar de Castro Rocha.

“Escrever, e não me matar, é o mais próximo que chego da autoajuda”, disse Leones, que cresceu em Silvânia, cidade de 10 mil habitantes no interior de Goiás que tem e um dos mais altos índices de suicídio do país. “Muitos amigos meus se mataram e no velório de um deles me assombrei pensando: por que não?”. Optou para escrever, mas a morte perpassa toda a sua obra. A confirmação vem pelo título de seus livros: ‘Hoje está um dia morto’, ‘Paz na terra entre os mortos’, ‘Como desaparecer completamente’, e o mais recente, o apocalíptico ‘Dentes Negros’. “Procuro fazer algo de que gosto enquanto não me esfarelo”, disse.

“Somos mortos ambulantes à espera do corpo ideal”, comentou Altair Martins, autor de ‘A parede no escuro’ e ‘Como água’. Aos 6 anos, Altair perdeu o pai, um jóquei morto num acidente de moto. Para ele, vivemos a morte como um leitor e tudo se passa ao redor do morto, não com ele em si. “Lemos a morte nas reações diversas das pessoas”. Completou: “Retrabalhamos os mortos quer seja em texto literário quer seja em torno de uma lembrança. Fez a plateia rir quando contou sobre seu próximo livro, que contará a história de um tradutor que funda um país num minúsculo apartamento de Porto Alegre e passa a conviver com os objetos que ali estão.

Carlos de Brito e Mello foi finalista dos principais prêmios literários de 2010 com seu ‘A passagem tensa dos corpos’. Nele, uma voz visita cidades para registrar as mortes que ocorrem lá. “Eu não queria que a morte fosse um tema, mas que tivesse força operatória, que ela operasse a narrativa”, contou. Para o autor, que lançou antes ‘O cadáver ri de seus despojos’, quando a morte acontece o que se inicia é a narrativa, que permite uma destinação para aquele fato. “Por mais irônico que possa parecer, a morte não compete ao morto. Nós que ficamos é que precisamos fazer alguma coisa, construir nossos mitos de origem e de depois.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.