Tem gente que não bebe…
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Tem gente que não bebe…

Flavia Guerra

04 de dezembro de 2008 | 00h22

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Cartaz no metrô de Londres alerta: “Há coisas que você só faz quando está bêbado.”

Londres e Marrocos

Marrakesh – No Marrocos, a turista acidental jantava em um tradicional restaurante na praça mais famosa da cidade, Jemaa el-Fna, quando ouviu uma informação exclusiva do garçon:

–Aqui servimos álcool. E, depois das dez, também se pode fumar shisha.

A turista, acostumada a ver seus compatriotas ingleses entornar mais de três, quatro, cinco pints em uma noite, não entendeu. E perguntou ao vizinho de mesa, um norueguês acostumado a ver o governo (e somente o governo) ter permissão de controlar a venda de bebidas alcoólicas em seu país, respondeu:

–Isso. Álcool eu já sabia que era proibido em países muçulmanos, mas shisha eu achava que era como no Egito, ou até mesmo em Londres, onde qualquer pub da esquina pode botar uma mesa para seus clientes fumarem.

A amiga inglesa entendeu o boicote alcoólico, mas ficou sem saber qual era a ‘tal da shisha’.

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Horas depois, a jornalista brasileira aqui, escuta:

Você, que mora em Londres, e mora no sul, onde está cheio de gente de tudo quanto é lugar, e vive comprando docinhos árabes lá para os lados do oeste, em Marble Arch, diga aqui parra esta londrina do norte, o que é esta shisha? É haxixe em árabe? Pode fumar haxixe aqui?
–Nada disso, dear. Shisha é só mais uma forma para se dizer narguilé, water pipe, cachimbo de água. Entendeu?

–Entendi mas não compreendi. O que há de mau em fumar um inofensivo cachimbo de água que nada mais tem que um pouco de melaço, tabaco e fruta dentro? Se for assim, em Londres ninguém mais vai poder sair na rua. Todo mundo fuma naquela cidade.

A turista ocasional e londrina acidental retruca:

–Mas já não se pode Esqueceu que é expressamente proibido fumar agora até em pubs, casas noturnas e festas em locais fechados?

O jornalista árabe, que ouvia a conversa no computador ao lado, em plena sala de imprensa do Festival de Cinema de Marrakesh, o maior da África, faz questão de explicar:

–Olha, até dá para fumar haxixe e maconha na shisha. Mas o water pipe foi banido não porque seja droga. Se os chineses usavam para fumar ópio, os árabes em geral só fumam tabaco. A sociedade marroquina chegou à conclusão de que os cafés onde se fumava a shisha em geral atraía traficantes, prostitutas e era ponto de crimes e brigas. Ainda há alguns escondidos, mas são raridade. E a gente sabe o tipo de gente que freqüenta. Moça de família não vai nestes lugares.

As duas fizeram cara de “entendi”. E deixaram a shisha para fumar oficialmente em Londres. E se contentaram em tomar um bom vinho no ‘circuito alternativo’ dos restaurantes e mercados ‘especializados’.

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Londres – De volta à capital mundial da pint, o cartaz no vagão da Nothern Line (a linha norte do metrô londrino), chama atenção.
Enquanto um moço dorme abraçado à sua ‘garrafa de cerveja’ de estimação no ‘banco da praça’ e deixa à mostra suas pernas semi-nuas debaixo de uma frugal saia de bailarina. Para completar, o singelo dizer:

“Há coisas que você só faz quando está bêbado. Perder o caminho de casa não devia ser uma delas.”

Arrematando: Tome conta da sua saúde, das suas posses e da sua felicidade nesta temporada de festas de fim de ano. Planeje antes e chegue seguro em casa.

Assinado: Policia dos Transportes Britânica e Prefeitura (na verdade, espécie de sub-prefeitura) da cidade de Westminster.

Ora, ora, ora. Well, Well, Well.

Ao ver a jornalista tirar fotos com seu celular do cartaz, o cidadão, natural de Cardiff, em Gales, a cerca de quatro horas de Londres, pergunta:

–Tanto cartaz bonito no metrô. Logo ali tem um do Beckham, por que você está mais interessada no cara bêbado de sainha?

Complicou. Cultural Conundrum. Como explicar para o companheiro de vagão que já estava (quase) acostumada a ver meninas caindo de bêbadas pelas calçadas londrinas depois dos embalos de sexta e sábado à noite, mas que campanha para ‘bêbado chegar em casa direitinho depois de cinco, seis, sete.. pints na festa da firma no fim do ano` era mais pitoresco que a Troca da Guarda real.

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O moço, que desde sempre sabe que uma ‘pint’ nada mais é que a unidade métrica equivalente a aproximadamente 568 mL, ou cerca de dois chopes, emendou com uma bela bronca:

–Não sei o que tem demais. Beber é uma tradição britânica. Se a gente não toma, no mínimo, uma pint, não relaxa. E agora vem este prefeito e f…. com ‘nosso esporte nacional’. Com esta crise toda, o que vai sobrar neste país para a gente ser feliz?

A ‘nova amiga’ não soube responder. Lembrou das capas de jornais. Quando não é a crise econômica, a separação da Madonna e do Guy Ritchie, o assassinato do baby P, tudo que a imprensa britânica mais fala é “Será o fim da nossa Happy Hour?”

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Motivos não faltam. Recentemente, o governo britânico decidiu encampar uma “Guerra contra o álcool”. Proibiu a venda de bebidas em lojas de conveniência depois da meia-noite Beber no metrô, que garantia cenas de alta tensão, como bêbados à beira de despencar na linha do trem, também agora é contravenção das mais sérias.

Para completar, as tradicionais promoções foram proibidas. De agora em diante, nada de atrair clientes com as sedutoras:

“Tudo que você conseguir beber por apenas 10 libras.”

” Mulheres bebem de graça”

Oferecer bebida como prêmio para jogos também está fora de questão.

“Não se trata de moralismo. É questão de saúde. O pais gasta cerca de 25 bilhões combatendo e tratando o consumo excessivo de álcool todos os anos. O inglês precisa aprender que não precisa beber até cair toda vez que quer se divertir”, disse a porta-voz do governo.

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Como explicar isso para o ‘amigo do trem’, que bebe muito mais que 21 pints por semana, a cota recomendada pelo Ministério da Saúde.

“21 doses por semana são menos de três pints por dia. Impossível ser feliz assim. Acho que vou comprar um carro e parar de andar de metrô. Assim deixo de ficar p… com estes anúncios idiotas. E já que não dá para dirigir bêbado, compro um carro brasileiro e passo a usar álcool só no carro. Vocês botam álcool no carros no Brasil, né? Que desperdício!”, brincou o passageiro.

E arrematou: “Aposto que vocês são muito menos beberões lá no Brasil, não?”

Salva pelo gongo. “Minha estação chegou. A gente termina esta história depois de curar a ressaca de réveillon.”

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