As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sugar Man, a história que se não existisse, precisaria ser inventada

Flavia Guerra

13 de maio de 2014 | 20h22

searchingforsugarman1.jpg

Searching for Sugar Man é prova de que um documentário pode fazer mais do que contar uma boa história, mas transcender e revelar um grande homem. Oscar de Melhor Documentário 2013, o filme de Malik Bendjelloul narra a saga de Jesus ‘Sixto’ Rodrigues. Nascido em 1942 em Detroit, foi um talentoso e (quase) anônimo cantor e compositor que, como muitos que vivem o “sonho americano”, fez tudo que pôde para ter sucesso, mas, até ser redescoberto em Searching for Sugar Man, viveu muito longe da fama e do reconhecimento que merece.

Descoberto no início dos anos 1970 por dois produtores que já haviam trabalhado com figuras como Steve Wonder, Sixto Rodrigues passou de promessa da música folk (capaz de fazer frente a Bob Dylan) a músico fracassado, com dois discos que acabaram esquecidos.  Mas, enquanto ganhava a vida trabalhando na indústria de demolições da árida Detroit, um país do outro lado do mundo o transformava em mito.

Após fãs sul-africanos terem levado seu álbum ao País, então extremamente conservador, suas canções de protesto se tornaram hinos dos que lutavam contra o apartheid.  O sucesso foi tão grande que Sixto ganhou até fã clube online.  Isso o músico só soube em finais dos anos 1990, quando sua filha descobriu por acaso, enquanto navegava na internet, que seu pai era um ídolo nacional na África.

Mais que a narrativa criativa que Bendjelloul encontrou ao montar o filme quase como se fosse uma ficção, revelando aos poucos cada um dos fatos surreais que permeiam a história de Sixto, o grande prazer deste belo filme se mostra na descoberta da figura fascinante músico. O andar calmo, um pouco tímido, mas firme, de Sixto nos deixa certos de que se trata de um sábio contemporâneo.

Filho de pai mexicano, ele sempre soube que seu biotipo latino não lutaria a seu favor em um país em que era considerado quase um estranho. Sofreu preconceito, sentiu na pele as dificuldades que os pobres encaram em grandes cidades, foi vítima da exploração de mercenários do show business, mas não se corrompeu. Nem mesmo o Oscar mudou seu jeito recluso e pacato de viver. É esta figura extraordinária que faz de Sugar Man um dos grandes filmes da década. Sem contar a trilha sonora deliciosa. A música de Sixto é de fato incrível.

Estes e outros fatos fazem de Sugar Man uma história que se não existisse precisaria ser inventada. E mesmo assim, caso fosse criada por algum roteirista,  seria apontada como ‘exagerada’.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: