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Só quem é sabe o que é. Ou eu vi o mundo. E ele começava em Itaquera.

Flavia Guerra

22 de setembro de 2010 | 22h40

Assim, em três meses muita água rola debaixo de uma ponte, seja do Tâmisa seja do Tietê. Desde o último post, a Espanha foi campeã do Mundo, o Corinthians completou 100 anos e Itaquera virou o centro do mundo.
Quer dizer, centro do mundo de quem, no fundo de seu coração suburbano, sempre soube que podia demorar, mas um dia, um dia o mundo ia olhar para aquele descampado meio melancólico meio ‘terra arrasada’, meio colorida de tons nordestinos, italianos, portugueses, japoneses… enfim, aquele pedaço de terra tipicamente paulistano.

Dizer que se é ou se vem da Perifa sempre me rendeu piadas. Por vezes engraçadas. Por vezes preconceituosas. A primeira vez que me apresentei diante da classe de jornalismo da ECA – USP, quando todos deviam dizer seus nomes e de onde vinham, disse:

Venho da Zona Leste.

E ouvi: – Existe vida inteligente na Zelê?

(risos)

É… O tempo passou.. Hoje a Zona Leste, a Zelê, virou Zona Lost.

E as piadas divertidas continuam. Nada de novo.

A novidade mesmo foi chegar em casa outro dia e ouvir do pedreiro, morador de Itaquera há décadas, corinthiano desde sempre, dizer, numa alegria suburbana de dar gosto:

– Flavinha, Itaquera vai ser o Centro do Mundo. Nem que seja por um único dia, em 2014 o mundo todo, todos os jornais do mundo (inclusive ‘o seu’) vão ter de escrever: Fielzão é sede da Copa do Mundo. Já imaginou isso? Eu vou morar do lado e ver tudo isso acontecer.

É… Nem nos meus sonhos suburbanos mais delirantes eu imaginei isso. Que o estádio do Corinthians era um sonho… Que há polêmicas e polêmicas rondando esta ‘realização dos sonhos’… Que a Copa do Mundo vem.. Que a Copa do Mundo vai… Que as controvérsias são muitas… Tudo isso eu sei e imaginei.

Mas eu jamais imaginaria o pedreiro lá de casa, imigrante, ‘esquecido’ e ‘excluído’ na última estação da Linha Vermelha do Metrô… Tendo como vizinhos outros milhares de ‘pretendentes à uma vida inteligente’ sorrir de peito aberto só de pensar em ver ‘Fielzão – Itaquera’ escrito nas capas do Guardian, do New York Times, do Estadão, nas chamadas da CNN, da ABC, da BBC, da RAI…

Confesso que senti uma certa ternura compatriota ao conversar com vários outros ‘zelenses’ sobre o assunto. Seja lá o time do coração, a simplória ideia de que ‘agora sim algo muda porque o povo vai olhar pra gente’ me fez ouvir Gente Humilde tocando ao fundo, em momento de rara pieguice bairrista. Difícil explicar. Só quem é sabe o que é.

Mais de uma década depois, eu gostaria de apresentar o ‘meu pedreiro’ para meu colega da USP e deixar a cargo dele a tarefa de explicar que tipo de vida há na Zelê.

Em tempo, só quem é sabe o que é é o título de um documentário sobre o Corinthians que já estrou online e já bateu records de acesso: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4649305-EI6583,00.html

Mas isso não importa. O que importa mesmo é que, corinthiano, sãopaulino (há sim muitos na ZL), palmeirense, santista, lusinha… A ZL vai ser o Centro do Mundo. Só por um dia. E neste dia, amigos, o meu pedreiro quer “ver o mundo todo fazendo baldiação na Sé para tomar o Corinthians Itaquera e, pela primeira vez na vida, só precisar abrir a janela de casa e deixar o mundo entrar.”

A ver!

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