Só Quando o Brasil dança
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Só Quando o Brasil dança

Flavia Guerra

09 de outubro de 2009 | 16h38

Londres

Após a clássica parada para correr atrás das passarelas da Fashion Week e do Raindance (o SUNdance inglês, o maior festival de cinema independente da Inglaterra, só podia começar com Rain… Há dias que chove na capital inglesa), voltemos aos temas da moda: Olimpíadas e, claro, Brasil.

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Irlan em uma das cenas mais emblemáticas de Só Quando Eu Dançø

Only When I Dance – Ou Só no sapatinho…

Acabo de voltar da sessão de Only When I Dance (Só Quando eu Danço) no Festival de Cinema Brasileiro do Barbican. O Barbican é um dos centros culturais mais importantes de Londres. Casa de artistas e casa de fato de centenas de londrinos, o centro poderia ser comparado a um Sesc Pompéia com unidades residenciais.

Neste ano, o Barbican escolheu os Urban Tales (os contos urbanos) para contar ao público da cidade o que anda de acontecendo de melhor no cinema nacional.

Hoje, a última noite de um longo mês que contou com mais de 40 produções nacionais em exibição (tanto no Barbican quanto no Cine Fest Brasil, que ocorreu no Riverside Studios), o filme em cartaz mostrava uma realidade muito brasileira, mas a produção e a assinatura tinha nomes ingleses.

A diretora inglesa Beadie Finzi conta em seu filme a história de Irlan e Isabela, dois garotos da periferia do Rio de Janeiro que sonham se tornar bailarinos de companhias internacionais.

O filme, rodado sem nenhum apoio oficial do governo brasileiro, tem um quê de miopia européia sobre a América Latina. Mas talvez para o bem, eu diria. A realidade de Irlan e Isabela é a mesma de muitos meninos brasileiros cujos pais têm de vender o almoço para pagar o jantar. E vender, muitas vezes, a alma para pagar os estudos dos filhos.

Beadie, ontem, em debate com a platéia prioritariamente inglesa ao fim da sessão, contou que no Festival do Rio, onde o filme fez sua première brasileira na semana passada, muitos brasileiros sentiram vergonha em ver o que ela mostrou e disseram: “Por que não fomos nós, brasileiros, a fazer um filme sobre estes dois jovens tão talentosos? Por que nós estamos sempre só mostrando o nosso lado negativo? Por que deixamos nossas crianças passarem por estas dificuldades?”

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Isabela dança em cena de Só Quando eu Danço

Não é bem assim. O cinema nacional tem mostrado caras diversas de um país que, pelo menos a meu ver (ainda que eu também esteja sofrendo de uma certa miopia do exílio agravada por um certo banzo), ainda procura definir sua identidade. Mas, exageros e acessos de Policarpo Quaresma à parte, as observações procedem. Como observou o mediador inglês do debate, temos, ainda, tempo para fazer algo de fato. Disse ele: “Ora, as Olimpíadas estão aí e os brasileiros poderão melhorar muito o Rio. Se quiserem algumas dicas de Londres, temos muito o que conversar. E, sem esquecer, vagas para bailarinos não faltarão (obrigada pela correção, Maria) quando as coreografias da cerimônia de aberturam forem criadas. Irlan e Isabela terão muito o que dançar.”

É… Há muito o que rebolar até 2016… Haja sapatilha de ponta e muita pirueta para redesenhar a coreografia da imagem que o Brasil tem no exterior até lá.

Trailer de Só Quando Eu Danço: http://www.youtube.com/watch?v=fQwiq4SojqA

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