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Seymor Hoffman não dava entrevista, mas conversava com iguais

Flavia Guerra

03 de fevereiro de 2014 | 17h43

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O ator no Festival de Cinema de Marrakesh, na ocasião em que o entrevistei, no final de 2010

Entrevistei Philip Seymor Hoffman em final de 2010, durante o Festival de Cinema de Marrakesh, um dos festivais mais interessantes em que já estive. Apesar de ocorrer no noroeste da África, é capaz de reunir a vanguarda do cinema do Oriente Médio, da Europa, da Índia , da América Latina e ainda consegue trazer diversas estrelas de Hollywood para suas premières.

Sempre gostei muito de cobrir festivais como o de Marrakesh. Por serem de porte médio, o clima é muito mais tranquilo que o de grandes como Cannes, Berlim e Veneza. Os famosos estão menos tensos e menos ocupados em dar entrevistas coletivas para 500 jornalistas ao mesmo tempo. É tudo mais em clima de conversa tranquila à beira da piscina. Há mais tempo para se falar da vida. E não só do último filme e só se fazer perguntas relacionadas ao longa em questão.

Com Seymor Hoffman foi assim. A conversa aconteceu em uma sala do Es Saadi Palace, um dos hoteis mais suntuosos da capital do Marrocos. Contrastando com o luxo do local, ele chegou de jeans e camiseta branca, sentou para conversar com um pequeno grupo de jornalistas em volta de uma mesa e pediu apenas água. O papo foi despojado e leve.

Falou do filme que lançava no festival, seu primeiro como diretor, Vejo Você no Próximo Verão, no qual também atuava. Nele, Hoffman vivia Jack, um motorista de limusines nova-iorquino tímido e recluso, que tenta construir uma relação com uma mulher também de meia idade, tão tímida quanto ele. “É a beleza da construção do cotidiano deles uma das coisas que me atraem nesta história”, disse ele à época. “ Ele encara vários desafios. Até a nadar e cozinhar. Para um relacionamento funcionar é preciso muito mais que só amor”, continuou o ator, que, para comprovar o que eu sempre achara vendo seus filmes, tinha uma forma carinhosa e, ao mesmo tempo, fugidia de falar, como que se escondesse sua timidez e até mesmo sua ternura.

Sem a preocupação de seguir à risca o media trainning que muitos astros de Hollywood recebem para falar sempre bem com a imprensa, ele estava mais preocupado em construir um diálogo entre iguais. Ele não estava dando uma entrevista, mas sim conversando. Algo tão raro hoje. Ele falava francamente, ainda que com certo distanciamento, como se tudo fosse muito natural nas frases filosóficas que proferia sobre o amor. E eram naturais, não?

Mas sob a análise de um ator como Hoffman, tudo ganhava contornos mais nobres. Impossível não entristecer com sua partida tão prematura. Mas fica a lembrança de termos tido a sorte de ver um dos maiores e melhores de sua geração viver personagens inesquecíveis. Como ele mesmo disse sobre Vejo Você no Próximo Verão, o que mais gostava no filme era o fato de ser uma história de amor não convencional sobre “pessoas convencionais”. Assim era Hoffman. Capaz de criar personagens extraordinários a partir de realidades ordinárias. Era ele, sim, extraordinário.

Leia a entrevista com o ator e diretor neste endereço. 

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