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‘Sete Caixas’, o autêntico, e imperdível, cinema paraguaio

Flavia Guerra

30 de maio de 2014 | 20h49

Responda rápida e sinceramente. Quantos filmes paraguaios você já assistiu? Provavelmente, nenhum. Ou talvez, se você for dos cinéfilos mais fervorosos, talvez tenha visto o ótimo Hamaca Paraguaia, de  Paz Encina.  E quantos filmes paraguaios de ação você já viu?
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Pois a chance de assistir ao primeiro surge agora, com a estreia em circuito de Sete Caixas Paraguaias. Em cartaz atualmente no Espaço Unibanco de Cinema (Rua Augusta, 1475), Sete Caixas merecia mais. Muito mais. Afinal, não é todo dia que um filme de um país que produziu em toda sua história 25 longas-metragens supera um gigante como Titanic. Explicando melhor. Sete Caixas foi o filme mais visto da história do Paraguai e superou a bilheteria do acachapante Titanic. Aqui, a marca foi batida por Tropa de Elite 2.
No Paraguai, país em que a produção nacional enfrenta a mesma concorrência do cinemão americano que os filmes brasileiros encaram, Sete Caixas estreou apenas no circuito alternativo. Mas a procura foi tamanha que a cada semana a fila só aumentava. E assim, aos poucos, o longa foi ganhando o mundo.
Dirigido pela dupla  Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori, Sete Caixas acerta ao usar os clichês dos filmes de ação para contar uma história muito paraguaia. É com humor e auto-ironia que os diretores transportam as perseguições de carros em sequências labirínticas de perseguição de carrinhos de mão pelas vielas do tradicional Mercado 4 de Assunção.
O local, uma espécie de mercado de rua onde se vende (quase) tudo, é onde trabalha o garoto  Victor (Celso Franco) ganha a vida carregando mercadorias em um típico carrinho de mão.  Enquanto isso, sonha em aparecer na TV e acredita que para isso vai ter de ganhar muito dinheiro.  Mas como? Se nem mesmo TV Victor tem. É então que ele aceita, em troca de US$ 100,00, carregar sete caixas muito suspeitas. Detalhe: como ‘entrada’, ele recebe a metade rasgada da nota de US$ 100,00. A outra metade, só quando a encomenda for entregue.
Obviamente, como nos bons filmes de ação, a tarefa é mais difícil do que parece e Victor entra em uma intrincada rede de perseguições. O diretor Juan Carlos, que esteve esta semana em São Paulo para promover o filme, contou que levou anos para escrever o roteiro e que o fez quase que instintivamente.

 

“Sempre quis fazer cinema, mas, como não havia mercado no Paraguai, ganho a vida como publicitário. Quando decidi escrever esta história, não sabia nada de roteiros para cinema e nem programas de computador para escrevê-los. Então, escrevi tudo em fichar coloridas”, disse ele a este blog. “O detalhe é que um dia meu carro, onde estava a única cópia (física) do roteiro, foi roubado. E com isso, lá se foram quatro anos de trabalho. Tentei recuperá-lo, mas não consegui. Então, tive de reescrever tudo de novo. Dessa vez, já no computador. Ironicamente, até foi bom porque ficou muito melhor”, brincou o diretor.
Quem quiser explorar os limites do circuito tradicional de cinema, que já nos traz bons filmes latinos, com destaque para o argentino e o chileno, não pode perder Sete Caixas.  Quem sabe com a sala cheia, os distribuidores e exibidores se animem para trazer também mais filmes uruguaios, peruanos, equatorianos, bolivianos… Pois há cinema sim na América Latina. E dos bons.

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