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Rio? Pra lá de Marrakesh

Flavia Guerra

08 de dezembro de 2010 | 17h19

Assim, este post já deveria estar velho, haja vista que a ‘euforia’ em torno dos últimos acontecimentos no Rio já esfriou um pouco e outras manchetes ganharam o ‘alto da primeira página’ dos jornais nacionais e mundiais nestes últimos dias.

Mas, no entanto, conversa que acaba de acontecer entre esta repórter e blogueira relapsa (e prolixa que não sabe fazer posts pequenos) que vos fala me trouxe de volta um comentário que fiz na página da querida Luciana Coelho, repórter da Folha e correspondente das melhores: http://rabbitchowder.blogspot.com/2010/11/dia-116-noticias-de-guerra.html

Lu perguntava “Quando é que passamos a nos resignar, e comemorar, que a bala “só pegou de raspão”? Ou que o assalto “foi só um assalto”, o sequestro “só um sequestro”, que “por sorte ninguém enconstou em mim”, “foi só o susto”?”

Eu respondi com o texto que vai logo aqui abaixo.

Mas, na verdade, o que me fez querer postar o comentário/resposta à Luciana foi o comentário de um belga que cresceu em Nova York e está em Marrakesh (onde estou também agora). Na antesala da entrevista com Susan Sarandon que eu faria (e ele também), o belga me disse: “É incrível o que o Brasil está fazendo. Nunca vi nada assim. Polícia e população unidas contra o crime, policiais indo às escolas mostrar para as crianças que não é bom negócio ser um ‘bad guy’ e que ser policial é bom. Acho que o Brasil tem muito a ensinar ao mundo. E acho que a Copa e as Olimpíadas serão incríveis.”

Eu, como comentou a Luciana, que ficou ‘confusa’ quando viu tudo que ocorria no Rio de longe, lá dos States onde está morando neste seu ano sabático, também fiquei confusa. O que responder ao gringo? “Claro! Claro! Está tudo indo muito bem.” Não seria verdade.  Ou dizer: “Olha, não é bem assim.. Não está tão bem…”. Também não seria verdade porque a nossa verdade tropical tem tantos pontos de vistas e arestas. Vontade de dar um caleidoscópio para o colega gringo olhar para o Brasil. Seria muito mais útil que um binóculo.

Mas, enfim, entre entrevistas com Coppola (que está aqui e veio direto do Brasil e fez comentários ótimos que posto no post a seguir), Susan Sarandon e Harvey Keitel, aqui vai a resposta que dei à Luciana. E que queria ter dado ao gringo:

“olha, Mlle. Lapin querida, eu subi faz pouco tempo o Dona Marta para ver como estava tudo depois do ‘advento’ da UPP no Rio. Eu achei a coisa mais feliz uma paulistana como eu, que entende muito bem da perifa da Paulicéia, mas que é crua crua nas quebradas cariocas, poder subir tranquila. Sentar num barzinho e tomar uma cerveja observando a vista mais linda que tem de lá de cima.

Mas, ao mesmo tempo, vi que a entrada das UPPs e a ‘saída do crime’ do morro  não levava junto o lixo absurdo que se acumulava embaixo das casas construídas sobre pilares talvez tão frágeis quanto a sensação de segurança que eu tinha naquele momento.

As marcas de bala nas paredes não tinham nada de ‘que’ de Cidade de Deus e me faziam pensar que ‘Gaza é aqui’. A agressividade latente, que podia se sentir na pele dos jovens do morro era algo que me dizia que havia uma violência ali batendo à porta para sair como um grito de ‘Não, não está tudo tão bem assim.’

Ao ver a polícia descer as escadinhas do morro de ‘mão na arma’, aquela mão que a Polícia sempre tem de posicionar no revólver por segurança e por prontidão, dava arrepios de que a arma podia a qualquer momento ‘sair do bolso’. Estavam atrás de não sei quem que brigou com não sei quem.

E o povo, gente boa demais o povo daquele morro, assistia a tudo ‘resignado, amudado, cnfuso e pequeno no meio daquilo tudo.”

Assim como também assistiam ao futebol na TV. Era Corinthians que passava porque a TV não passa jogo do Flamengo em pleno domingo porque enfim…

O meu olhar de ‘gringa paulista’, como queridos cariocas gostam de me chamar, não se convencia. Havia algo ali. Pelo menos não tinha o tráfico, nem bala perdida sendo trocada. E era só passar um reboco novo que as marcas de bala iam sumir da parede. Da parede, talvez. Da lama e da história do Brasil, jamais.

De fato estava menos mau o Dona Marta. Mas não estava tão ‘mais bom’.

O meu olhar perdido pensando em tudo aquilo, fez com que meu amigo que me acompanhava desafiasse: Tá com medo, paulista?

Não. Eu não estava com medo. Estava confusa e pequena ali no meio.

E disse a ele o que sempre digo. Que somos tão pacíficos de certo modo que nos tornamos passivos. Que somos tão felizes com pouco que o pouco às vezes é demais!

E a verdade é que eu acho, quando também tive tempo de olhar tudo de fora e de longe (e acho que vou fazer assim pra sempre pq simplesmente não consigo mais ‘enxergar só de dentro a terra brasilis) é que há uma imensa carga de preguiça sim, de indolência sim e de embriaguez sócio-política neste povo que consegue se articular lindamente para pintar as ruas para a Copa do Mundo,  para parar o país para ver a seminifinal desta Copa e a final da novela, que quase corta a cabeça do presidente do Corinthians, do Flamengo, do Palmeiras, do Inter se os times são rebaixados, mas não consegue se articular para outros fins da mesma forma. uma pena. Porque o brasileiro sabe viver como nenhum outro povo. Mas cada país tem o que se acha merecedor. o dia em que o brasileiro (e não os de classe media, mas os que moram ali na Penha) entenderem e  aprenderem lutar para que tenham o que merecem, e que merecem muito, mas muito mais. A começar por educação que lhe abra os olhos e não a programação da TV no domingão, nem só uma gelada e uma pelada. Aí sim, aí pelo menos o serviço de coleta de lixo vai ser bom na região. Já será, então, um começo. Será então menos mau. Quem sabe um dia , quem sabe muito logo, fique bom!”

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