Quem não tem Carnaval, vai de Gastro-Pub
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Quem não tem Carnaval, vai de Gastro-Pub

Flavia Guerra

21 de fevereiro de 2009 | 00h03

Capítulo 1 – O Sunday Roast

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O tradicional Sunday Roast: além do Fish&Chips e ‘primo inglês’ do ‘frangão de padaria’

Londres

Um domingo. Não no parque. Porque em tempos de pós-nevasca e pré-primavera, o inverno ainda não inspira muitos londrinos (de sangue e de criação) a dar um passeio no bosque.
E o que há no lugar do Domingo no Parque? Um domingo no Pub.
Então, lá fomos nós e nosso nariz enxerido em busca do verdadeiro English Sunday Roast. E, como manda a tradição, eles são servidos em típicos English Gastro-Pubs.

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O parque, há algumas semanas, num domingo pós-nevasca

O Sunday Roast nada mais é do que o ‘frangão assado’, daqueles de encher os olhos, e a boca, de todo cachorro de porta de padaria que se preze. A pequena diferença é que o frangão inglês é ‘ão’ mesmo. E que um pouco de tempero extra não faz mal a ninguém de paladar tropical. Servido no prato, o Sunday Roast vem acompanhado de brócolis (um ‘must’ britânico), cenoura, cebola, batata, repolho… E de uma cerveja e amigos bons.
O gastro-pub nada mais que um típico bar que serve o tradicional Fish&Chips e algumas das outras poucas iguarias famosas da dita inexistente gastronomia inglesa).
Enquanto a tal da crise mundial faz com que os restaurantes posh (digamos, mais posudos) percam sua clientela a olhos vistos, o cliente da working class (a tal da classe operária, o trabalhador, o funcionário da firma) persiste em sua busca frenética pelo verdadeiro sabor inglês ‘bom, bonito e barato’. Muito por isso, o Old Montague, pub mais que tradicional, daqueles que nos faz entender porque David Lynch existe, era a pedida perfeita.
Em uma esquina entre tantas no sul de Londres, divide sua clientela entre os que param para ver o pianista tocar em um palquinho digno de ficção do Stanley Kubric em plenos anos 80, e os que querem se sentar à mesa e discutir o quanto o `approach` (digamos, ‘jeitinho de chegar junto’) dos latinos, orientais e europeus saxões é diferente (Esta conversa merecerá, em breve, um post exclusivo).

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O Montague é a prova de que David Lynch não ‘viaja’ tanto assim

Ah, o sul. O sul fica longe na capital inglesa. Muito distante do posudo Oeste. Longe do descolado leste. A perder de vista do tradicional norte. O sul é outra Londres. O Montague mistura uma clientela de ‘beberões profissionais’, estudantes descolados das universidades locais, solitários e moradores da região.
Num pub, nada de garçon. A bebida se pega no bar. A bartender, uma lady (que de lady não tem muito) com seus bem mais de 60 anos, escolhe por você: Hoje você vai de sidra. Aceito a sugestão. Nem de longe, nem no sul e nem no norte, alcanço o profissionalismo com que o britânico sabe apreciar o fruto da cevada.
O Sunday Roast se pede na mesa. E não adianta pedir spicy (super temperado).

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Em mesa de bar, cerveja, e sidra, não podem faltar

Tempero e temperamento não se discutem. Principalmente em Londres, cada um tem o seu. A moqueca brasileira, ainda que muito apreciada pelos poucos que já a saborearam, tem gosto de exotismo (talvez porque o coentro seja artigo mais apreciado nas delis indianas). O frangão inglês, ao gosto do freguês latino (isso inclui colombianos, venezuelanos, brasileiros e chilenos), carece de um dedinho de sal.
Mas o tal do melting pot (o caldeirão de sabores e culturas) continua fervendo na capital da atual crise mundial. Enquanto dias melhores não vem, e o Carnaval não faz lá muito barulho em terras britânicas, a torre de Babel conta, em dezenas de idiomas, seus contos. E aumenta alguns pontos.

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