Próxima parada: Brasil Station
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Próxima parada: Brasil Station

Flavia Guerra

30 de setembro de 2008 | 19h30

Linha de Passe ’em cartaz ‘ na mais tradicional das estaçöes de metrö de Londres, a Baker Street

Linha Fina

Cena 1
Aula de “Representando a Realidade”, curso de Direção de Documentários
Assunto da aula: O que vocë espera de um documentário?

Alguém diz: Näo espero manipulaçäo, mas formas diferentes de representar a realidade.

A professora, como exemplo, exibe para a classe de 12 alunos (destes, uma chilena, duas brasileiras, uma italiana, uma australiana e o restante, ingleses) um trecho de Önibus 174, de José PAdilha.
A cena: O seqüestrador conversa com a vítima e pede a ela para fingir que está realmente com medo de ser assassinada por ele. A vítima atua täo bem que irrita o seqüestrador, que pede para ela parar de chorar. Caso contrário, vai matá-la.
Corta para: Vítima, tempos depois, em depoimento ao diretor, dizendo:

– Eu disse a ele: “Ué, mas vocë näo pediu para eu fingir?

A sala silencia. O vídeo é interrompido. A professora pergunta:

Há algum brasileiro na sala? Se sim, me expliquem: “É comum assim no Brasil que a vítima negocie com o seqüestrador, com o ladräo, com o bandido? Voces, brasileiros, entendem sempre que por trás de um criminoso há sempre uma história de vida que o leva até o ponto em que chega?”

Como responder? “Sim, há uma cultura implicíta, e até explícita, que ensina todos brasileiro a lidar com a criminalidade de uma forma cotidiana.”

A professora, britänica, cujo maior problema com a violéncia se reduz ao fato de que cada vez mais jovens britänicos se matam e se ferem com armas brancas, devolve:

– Como os brasileiros, um dos povos mais gentis, calorosos, afetuosos que já conheci, podem ser ao mesmo tempo täo generosos e pacíficos e täo violentos? De onde vem esta violencia tamanha?

– (Grande pausa) Talvez seja o revés da moeda. Toda moeda tem seus dois lados. Näo há ‘via de mezzo’. Somos um povo de exceção e nao de regularidade. Extremo, demasiado, extremo.

A professora cala. E setencia:

– Nossos maiores defeitos säo sempre nossas maiores qualidades. A quem näo viu, veja. A quem quer ver o outro lado da moeda, veja Linha de Passe.

Central Station

By the way, o filme de Walter Salles está entre as dez maiores bilheterias da Inglaterra desde sua estréia, na semana passada. Havia mais cartazes de Tropa de Elite, que estreou em agosto na capital londrina e fez barulho digno do Rap das Armas, que de Wicked (o musical arrrasa-quarteiräo da Broadway). Hoje, há mais cartazes de Linha de Passe espalhados pela cidade que de RockNRolla, o novo filme de Guy Ritchie (mais conhecido como o marido da Madonna).

O Guardian define Linha de Passe como um “novo mergulho nas favelas brasileiras”. Engana-se. Linha de Passe mergulha no universo ‘entre-linhas’ dos milhöes (e esmagadora maioria) de brasileiros que todos os dias andam sobre o fio da navalha para näo cair de vez na marginalidade que conduz ao ponto-final do Önibus 174.

Enquanto näo embarca socialmente no Double Deck Bus (o tradicional vermelhinho ‘dois andares’ londrino), o brasileiro anda mesmo é pelas linhas da Central do Brasil.