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O Sertão, e a Perifa, estão em toda parte

Flavia Guerra

28 de setembro de 2010 | 19h39

Assim, eu não imaginava que um simplório post sobre Itaquera e a Zelê fosse render tanto.
Não por falsa modéstia. E muito menos por achar que a ZL, o Fielzão, a Copa, Itaquera enfim não fossem render assunto.
Mas sim porque já não andava mais esperando reações em relação ao tema ‘ser da perifa’.
Mas, como diz o chavão (aqui adaptado), “você pode sair da Perifa, mas a Perifa nunca sai de você.”
E nunca sai de pauta também.
E não é um orgulho suburbano de auto-afirmação que me move neste blog. Nem é para passar uma visão ‘da Perifa e do excluído social e geograficamente’ que este blog se presta.
A visão aqui é sempre periférica, como o post inicial diz. Mas posso falar desde a Paris Fashion Week à USP Leste Fashion Week (sim, porque lá no campus leste tem muita gente que adora moda e estuda isso lá).

A Perifa está em toda parte.

então, vamos lá:

O leitor José Carlos deu uma lição de ZL explicando que a formação da Zona Leste é igual a de todo o Brasil. Pois bem. Mais um motivo para que Itaquera seja uma bela metonímia de um País onde a pobreza diminui, mas a diferença entre os ricos e os pobres, curiosamente, não muda. Veramente um enigma isso.

Ensina-me também que tem classe A e B e que estão no Tatuapé… Anália Franco… Eu, como ex-aluna do Agostiano Mendel do Tatuapé, vi o bairro deixar de ser a simpática reunião de casinhas operárias italianadas para se tornar um emaranhado de prédios de condomínios caros (mais de R$ 9mil o metro quadrado?) e de onde os moradores não necessitam “nem sair do bairro para nada.”

Desculpe, José, mas discordo. É por achar que não precisamos dar um rolê no fundão (ou no Centrão, ou na Zona Sul, Norte, Oeste), e vice-versa, que piadas como as que ouvi e ainda ouço se perpetuam. Assim como a formação da minha querida ZL é ‘tudo junto e misturado’, o mundo também devia o ser.

É esta mistura que me faz de fato ter orgulho, muito, de ter nascido na Bela Vista, ter família italianada no Itaim Bibi, na Zona Norte, em Interlagos e até no Rio, ter crescido na Ponte Rasa (desculpem decepcionar, mas não sou de Itaquera), morado no Paraíso, em Londres (aliás, no East End, a zelê com cara de Baixo Augusta londrina) e voltado para a Ponte Rasa por ora.

Aliás, a ponte é Rasa, mas o povo é de uma sabedoria darwiniana profunda. Foi na ZL que vi uma família mezzo italiana – mezzo japonesa (a minha) misturar seu sangue ao de uma família baiana e render um fruto muito brasileirinho de olhos puxados e verdes chamado Felipe, que tem cara de que algum Holandês andou brincando no quintal da avó de sangue africano e português, e que, como aprendeu com a tia Flavia ‘carcamana’ solta um ‘cáspita’ a cada cinco minutos.

Foi na ZL que fiz amigos libaneses, turcos, judeus, cearenses, pernambucanos, portugueses, italianos, espanhóis, japoneses, paraibanos, e agora, vejam só, vejo crianças bolivianas e peruanas correrem pelas ruas vindas ‘de não sei onde’.

Seus pais sei que voltam em geral dos galpões do Bom Retiro com o dinheiro para pagar o aluguel de alguma uma casa que algum imigrante humilde italiano deixou quando merecidamente prosperou e se mudou para o Tatuapé… Anália Franco… e passou a prestar atenção nas tendências da Fashion Week que as vitrines do Shopping Anália Franco propagam. Vitrines estas que devem exibir peças produzidas nos galpões do Bonra, comandados por chineses e coreanos que contratam os ‘zelenses’ bolivianos…

Eu, sem falso moralismo, ainda gosto de pensar na frase de um tal de Ghandi que dizia “seja você a mudança que você que ver no mundo.” Mude-se para onde for, mas leve a ZL consigo e faça sempre por melhorá-la.

Portanto, acredito, não é o preço do metro quadrado de onde se mora que define quem se é, mas sim saber que assim como o Sertão, a ZL está em toda parte.

Amigo, José, como brincam meus amigos da ‘zona sul, quando tiver mais opinião da boa como a sua para dar, venha, que eu sou da Penha!

PS: Na contramão, e na perifa, da tendência dos blogs, não, eu não sei fazer posts hai-kai de dois parágrados. Mas vou me exercitar e um dia chego ao poder da síntese!

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