O passado é uma terra estrangeira
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O passado é uma terra estrangeira

Flavia Guerra

27 de outubro de 2008 | 23h18

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Em marcha de protesto, estudantes italianos são barrados pela polícia ao tentar entrar no auditório principal do Festival de Cinema de Roma

Roma

O passado è uma terra estrangeira.
Este é o nome de um dos filmes italianos mais comentados do Festival de Cinema de Roma, que começou há uma semana e que neste ano homenageira o cinema, e a cultura, brasileira.
Em tempos em que a Itália, e o mundo, passa por tempos turbulentos, relembrar o passado é, como bem diz o clichê, uma forma de não deixar que os erros de outrora se repitam no futuro. Ou não.
O filme, dirigido por Daniele Vicari, fala da busca descontrolada de muitos jovens hoje por dinheiro fácil. “É a história de dois amigos. Um é um advogado, sempre foi estudante modelo. O outro ganha a vida em jogatina. Por uma combinação de fatores e falência das instituições e princípios em que acreditavam, os dois acabam se perdendo por caminhos que não têm volta. E esta idéia do filme nasceu da minha observação. Toda hora vejo notícias de jovens de classe alta que se envolvem em crimes e jogos em busca do dinheiro fácil. E ele não existe”, explicou o diretor.

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Correndo em paralelo no festival, Sangue dei Vinti (Sangue dos Vencidos) fala de uma outra juventude. Um tanto distante já, mas não menos responsável pelo universo em desencanto em que se encontra o tal “mundo pós-moderno’. Baseado no romance famoso de Giampaolo Pansa, o filme joga luz exatamente no túnel escuro que é a participação italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Polêmico, o longa-metragem dividiu a platéia que lotava a sessão do filme no domingo. Pudera. O Sangue dos Vencidos revela com lente de aumento a vida de uma família que, no fim da Segunda Guerra, vê o campo de batalha se instalar em sua sala de jantar. O filho é Partigiano. A filha decide integrar a Repubblica de Saló (maiores explicações se fazem necessárias e virão). Mas não é preciso ter assistido à obra -prima de Pasollini para entender o que significa ter um filho republicano e uma filha fascista dividindo a mesma tavola.

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Cena de Sangue dei Vinti

Enquanto o passado é discutido, os estudantes italianos continuam em ‘greve de estudo’. A polícia, como queria o primeiro-ministro Berlusconi, não ocupou as escolas, mas os liceus e universidades continuam ocupados pelos estudantes que se recusam a aceitar a nova reforma do sistema educacional italiano proposto pela ministra da educação Gelmini.
Em pleno festival, os estudantes da Sapienza (a mais antiga e prestigiada universidade pública de Roma) ocuparam o pavilhão de entrada da ‘città del cinema` (oficialmente o Parco della Musica) durante o festival. Enquanto os astros passavam pelo tapete vermelho, os capacetes azuis dos carabinieri ganhavam as primeiras páginas de todos os jornais do país.

Depois de descobrir que a repórter que vos escreve estava em Roma a serviço do cinema, mas desviou de rota devido a ‘turning points’ (viradas) no roteiro político e social da cidade, um amigo jornalista italiano pergunta:
“Os brasileiros não sabem do que está acontecendo aqui? Os jornais não cobrem isso? Não se fala que a Itália está voltando aos tempos do Mussolini? Se é que um dia deixou de estar.”

O outro amigo, também italiano e também jornalista, pondera: “Calma, também não é para tanto. Muitos italianos (mas, não se esqueça, só metade votou no Berlusconi, há outra metade de um país que não concorda com isso) estão com medo da crise, da constante chegada de mais e mais imigrantes. Italianos, que sempre tiveram tradição de não se abrirem ao estrangeiro e de serem racistas, veêm nos imigrantes a ameaça a seus privilégios e sua segurança.”

Se o clima esquentava na conversa, o sangue fervia nas veias dos policiais e estudantes. “Festival de Cinema: Cassetadas e barreiras”, dizia um exagerado La Repubblica (um dos principais periódicos italianos) no dia seguinte.

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Daqui eles não saem…

Enquanto o país tenta tirar melhores notas, na tela do Festival de Cinema, um documentário chama atenção:
Predappio in Luce, de Marco Bertozzi.
Um raio-X da história de Predappio, a cidade natal de Benito Mussolini. Um filme nostálgico, que investiga porque, em pleno século 21, a pacata cidade italiana é palco de comemorações fascistas e recebe todos os anos levas de turistas e seguidores de Il Duce. Incômodo e necessário, que prova que, queira ou não, o passado não é uma terra estrangeira, não é um imigrante rejeitado e não se pode deportar feito os ‘romans’ que ‘sumiram’ das praças italianas no último ano.
O passado mora ao lado. E, infelizmente, Predappio não é tão longe da Repubblica de Salò.

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Cena de Predappio in Luce

Não é por acaso que Il Divo e Gomorra (duas recentes obras-primas do novíssimo cinema italiano) tenham sido produzidos hoje por jovens diretores. “Se o cinema tenta explicar o mundo em que vivemos”, disse um crítico italiano, “não é por acaso que estejamos vendo estes filmes”. “Assim como não é por acaso que se a Alemanha já produziu (e já foi alvo) de tantos filmes que discutem sua participação na Segunda Guerra e sua responsabilidade, pouco se vê, fala ou filma sobre a participação italiana”, completou.
Como bem diz outro grande clichê, quem não entende os erros do passado, está condenado a repeti-los.

‘Nel mezzo del camin di sua vita’, a Itália, como bem disseram os organizadores do Salva l’Italia (a manifestação que no sábado levou milhares de pessoas ao Circo Massimo em Roma para protestar contra o governo Berlusconi), a Itália (e os italianos) é (e será sempre) melhor do que quem a governa. Estejam estes governantes na margem esquerda, direita, centro, ou na terceira margem do rio.

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