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O amor em 360º. Ou Fernando Meirelles fala de seu mais novo filme.

Flavia Guerra

01 de agosto de 2011 | 00h02

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Jude Law e Rachel Weisz em cena de 360
O Amor cabe em 360
“QUANTO DA VIDA É DE FATO FRUTO RACIONAL DE NOSSAS ESCOLHAS? E QUANTO É FRUTO DE UM MOSAICO EM QUE AS PEÇAS ESTÃO CONECTADAS?”
Quanto da vida cabe em um filme de pouco mais de uma hora e meia? Filme este que consumiu três anos da vida do diretor Fernando Meirelles e de outras dezenas de pessoas da equipe de 360, seu mais novo filme, que tem pré-estreia mundial em setembro, no Festival de Toronto.
Quanto de uma bela entrevista cabe em uma página de jornal? A limitação ‘física’ do formato impresso sempre nos obriga a cortar (e na maioria das vezes melhorar) um texto. Mas quando o assunto é 360, é o filme-táxi que o sempre atencioso Meirelles está acabando e que, aos 45 min do segundo tempo, mostrará pela primeira vez em Toronto, a ‘ilimitação’ do online se justifica.
Outro dia uma leitora escreveu que eu escrevo ‘meio mal’, que eu não sou concisa, que meus temas não são ‘novos’ e que enfim… Bem ou mal. Pão e pães é questão de opiniães, já dizia Guimarães. E de fato não sou concisa. De fato meus temas não reinventam o mundo. Mas, honestamente, há temas que prescindem da concisão. E os temas que ainda giram o mundo em 360, como bem diz Meirelles na entrevista abaixo, são os mesmos desde os tempos dos Visigodos. “Ainda somos Visigodos, só que com Iphones.”
Enfim, para tentar ser menos prolixa,paropor aqui. Segue a íntegra da entrevista que Meirelles me concedeu. Nela, falou de cinema, da vida, do tempo e de um ‘grande mal’ que o acomete: O entusiasmo!
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Meirelles durante filmagem de 360, seu filme mais global e intimista ao mesmo tempo
ANTES. UM APARTE IMPORTANTE:
Que os jornalistas e críticos de cinema assistem aos filmes antes deles chegarem aos cinemas, nas chamadas cabines, quase todo mundo já sabe. O que não sabíamos é que Meirelles planeja lançar 360 SEM fazer nenhuma cabine para jornalistas. Por quê?
Por isso:
“Vou propor ao distribuidor no Brasil, Paris Filmes, que não faça cabine do filme para os críticos antes do lançamento. Nada contra os críticos, leio regularmente muitos deles quando escrevem sobre outros filmes que não os meus, mas é que lembro que anos atrás um filme estreava num final de semana e a crítica só saia no final de semana seguinte. Com esta obsessão que os jornais têm por furar o concorrente hoje em dia, antes da estreia, o filme já foi carimbado com as tais estrelinhas. Seria bom conseguir ao menos uma semana em que o público pudesse avaliar por si mesmo o que viu antes de ler a opinião de especialistas. Acho que voltarmos a fazer como era feito antes é melhor para os produtores e diretores, para o público e para os críticos, que poderão ser mais honestos sem ficarem com receio de serem duros antes do filme estreiar. É isso! Vou começar a tentar convencer meus amigos diretores e produtores a fazerem o mesmo. Morte às cabines! Pronto, um novo desafio para minha vida. Já me entusiasmei com a idéia.”
A VER!!!

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AGORA
ENTREVISTA: FERNANDO MEIRELLES

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Meirelles e o ator Jamel Debouze
Foto de Barrie McCulloch, assistente de direção de “360”
(foto do blog de 360: http://blog360ofilme.blogspot.com)
A 360 por hora
Menos é Mais. Mais difícil. Mais desafiador. Mais intimista. Mais introspectivo… Ao menos quanto se trata de 360, o novo filme de Fernando Meirelles que tem pré-estreia mundial no Festival de Toronto. Apesar de sugerir, e ser, uma volta ao mundo (ainda que metafórica), 360 é o filme mais simples do diretor que já filmou a guerra do tráfico no Rio, calamidade mundial, conspirações internacionais… Com roteiro do premiado Peter Morgan (de A Rainha, Frost/Nixon e Além da vida, inspirado na polêmica obra do austríaco Arthur Schnitzler, Der Reigen (Ronda), escrita em 1897. A trama da peça gira em torno dos encontros e desencontros de casais de diferentes classes sociais e origens culturais, raciais, religiosas. A cada ‘ato’, um personagem do ‘ato’ anterior se repete, e assim sucessivamente.

Quando Schnitzler, que era médico, publicou a obra, foi acusado de imoralidade por seu marcado erotismo. Ronda ganhou adaptações para o teatro e o cinema, como Conflitos de Amor (1950), do alemão Max Ophüls, indicado ao Oscar de melhor roteiro. Porém, Meirelles nega que haverá muitas semelhanças entre as tramas. “Peter se inspirou principalmente nos elos que unem as pessoas, sem que elas mesmas saibam. E sem que possam interferir nas escolhas que acabam sendo feitas e que as afetam. Quanto de fato é fruto racional de nossas escolhas? Quanto é fruto de um mosaico em que todas as peças estão conectadas?”
Assim como as contradições humanas que fazem de 360 uma história tão rica, a contradição entre o fato de ser, como Meirelles define, um filme pequeno, despretensioso e íntimo, o longa exigiu uma estrutura de produção complexa, com equipes na Inglaterra, França, Áustria, EUA e Eslováquia. 360 é, como o próprio Meirelles define, um filme-táxi, em que os passageiros/ personagens/atores sobem e descem de seu táxi todo o tempo. E ele, mesmo sem itinerário definido, acaba conduzindo todos a um destino comum. Os passageiros deste táxi vão desde a brasileira Maria Flor ao astro Anthony Hopkins, passando por Rachel Weisz, Jude Law, Juliano Casarré, Jamel Debouze e Ben Foster.
Além do desafio de conduzir sua trupe em cenas que não contavam com a saída fácil da parafernália de grandes tomadas aéreas, Meirelles pela primeira vez dirigiu atores em línguas que não compreende, como alemão, eslovaco… Sem contar que teve de se adaptar a variações de clima, cama, comida…
Orçado em US$ 15 milhões, o filme é uma co-produção Inglaterra, França, Áustria e Brasil, “mas a Ancine não o considera brasileiro por não preencher todos os requisitos técnicos necessários para isso, ou seja, não estamos usando dinheiro brasileiro mas isso não faz com que o filme deixe de ser brasileiro, já que além do diretor, montador e dois atores, a montagem e pós-produção estão sendo feitas na O2 Filmes, em São Paulo”, explicou o diretor ao Estado.
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Set internacional, com locações na Inglaterra, França, Áustria, EUA e Eslováquia
Lançar 360 em Toronto foi desde sempre uma estratégia?
Os produtores falaram em Veneza ou Berlim mas não teríamos tempo para terminá-lo para Veneza e Berlim está muito distante. Quero lançar o filme ainda este ano para começar 2012 com uma nova claquete. Estamos correndo para pegar Toronto, vamos acabar aos 45 do segundo tempo. Para o mercado norte-americano, Toronto é hoje o principal festival de cinema. O mercado está se igualando a Cannes em volume de negócios e a cada ano cresce mais. Esta será minha quarta vez em Toronto, onde estive com Domésticas, CDD e Cegueira.

 

Assim como em Ensaio Sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel, 360 tem locações, em vários países, com equipes e culturas diferentes trabalhando juntos. O que foi parecido, o que você trouxe do aprendizado anterior?

Desta vez rodei em alguns países diferente, mas o envolvimento da equipe e o processo todo foram parecidos com o Ensaio, tranquilo e agradável. Mais uma vez fiz muitos amigos de infância que sei que levarei pela vida.

O que foi novo?
Nunca havia dirigido atores em línguas que não falo. Em 360 há cenas em russo, eslovaco, árabe e algumas falas em alemão, além do português, inglês e francês. Mesmo quando não se entende o que um ator fala, é possível saber se um ator está bem ou não. Mas ser capaz de entender todas as palavras é bem mais confortável. Com um dos atores, Vladimir Vdovinchenko, eu falava sempre por meio de uma intérprete.
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Maria Flor e Anthony Hopkins em cena de 360
Rodar um filme em uma só locação já é exaustivo. Rodar com o circo todo por tanto tempo, ao mesmo tempo em que é mais difícil, é também material dramático. Este deslocamento ajudou? O’drama real’ de se adaptar a cada locação, clima, culturas ‘imprimiu’ no ‘drama na tela’?
O trabalho num set é bem globalizado. Em todos os lugares as equipes se comportam mais ou menos da mesma maneira. Então a adaptação é fácil. A equipe principal de 360 era basicamente inglesa. E foi sempre a mesma nas nove semanas. Creio que anos de violência contra outros povos, pirataria e todo tipo de atrocidades que os britânicos praticaram ao longo da sua longa história no final lhes deram uma espessa camada de civilidade. São educados, cultos, divertidos, extremamente bons para se ter como parceiros. ( Curioso é que, apesar de tão civilizados, são hoje os maiores vendedores de armas do mundo).
Diante de um novo projeto, daqueles que parecem que não têm solução à primeira vista, você diz que vê a bola de neve descendo… e tem de se virar para correr ou encará-la. Quando entrou no projeto de 360, não sabia exatamente que filme ia fazer. E isso já é adrenalina e tanto. Não seria todo diretor um ‘viciado em adrenalina’?
No meu caso acho que não é tanto o vício na adrenalina, meu problema é que sofro de entusiasmo. De acordo com o dicionário a palavra vem do grego en + theos (em Deus), ou possuído por uma força divina. Não sou religioso então Deus está fora da minha equação, mas percebo quando sou arrebatado por uma alegria que me dá vontade de avançar sem medir obstáculos. Quando a onda passa, já estou comprometido e aí às vezes vem o arrependimento. Mas tenho que seguir em frente. Nunca ‘cherei’ na vida mas imagino que o efeito do pó tenha alguma relação com esta onda que me arrebata. Com a idade, aprendi a controlar isso um pouco e já sei que, mesmo quando vem a baixa, uma hora vou pegar a onda novamente. Se num momento me entusiasmei é porque alguma coisa ali falou com alguma parte dentro de mim então vale a pena ser investigada.
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Esta foi a primeira vez em que Meirelles dirigiu atores em línguas que não entende
Depois de seu instinto ter te ajudado a solucionar os imprevistos de filmagem, de edição, você já pode responder, honestamente, que, além do impulso (e da intuição), por que entrou para o projeto de 360?
Porque gostei ou me identifiquei com um aspecto que está presente em quase todos os personagens do filme. São pessoas boas que tentam agir da melhor maneira possível mas nem sempre conseguem. Como todos nós, lutam contra seus desejos e pulsões. Às vezes ganham, às vezes perdem. Um sentimento muito humano e reconhecível mesmo para quem não tenha feito análise ou não costuma pensar nisso. O texto do Peter Morgan também é como pudim de leite, você vai devorando e não consegue parar.
Tratar de uma (ou várias) história que investiga as profundezas do desejo humano, das relações amorosas e sexuais que não ‘enxergam’ diferenças de classe social, cultura, língua etc já é um ‘motivador’ e tanto, não?
A semelhança deste filme com La Ronde do A. Schnitzler ficou praticamente reduzida a golpe de marketing. As histórias são muito diferentes e a estrutura, que na peça do austríaco é absolutamente circular, inovadora na época mas previsível hoje, em 360 está mais para uma circunferência desenhada pelo Braque, meio cubista.
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Antes de filmar ‘de fato’ em Londres, equipe fimou ‘o frio’ em Minneapolis, nos EUA
Mas esta ciranda humana, este táxi de situações, é uma metáfora para os dias de Globalização em que vivemos? Quando Schnitzler escreveu as histórias, o ‘mundo era menor’. Há esta adaptação ‘de tempo e espaço’ no roteiro de Peter Morgan, não? O mundo hoje é maior, mas os dramas humanos continuam tão pequeninos quanto antes.
Fato. Ha uma coisa em nós que nem toda esta parafernália de internet e vida virtual mudará, como querem crer alguns. No fundo ainda somos como os Visigodos mas agora com IPhones. É por isso que ao ler Shakespeare, por exemplo, parece que conhecemos cada um daqueles personagens. Quando se toca neste núcleo duro, que é o que somos, uma obra tem mais chances de durar.
Ronda foi ‘proibido’, condenado enfim, na época de seu ‘lançamento no teatro’. Você acha que ainda há algo que choque (em questão ‘moral’) o espectador? Há muita cena de sexo? É mais difícil filmar ‘o sexo’ ou ‘a intimidade’?
Chocar é muito fácil e igualmente tolo. Filmar sexo explícito também não deve ser nada complicado, basta ter estômago. Já conseguir um clima de intimidade e verdade é bem mais complicado. Colocar os atores numa mesma sintonia, deixá-los à vontade, ser técnico mas manter um frescor. Acho que neste 360 há uma cena muito íntima entre a Rachel Weisz e o Juliano Cazarré em que chegamos em algum lugar. Não ha muitas cenas sexo no filme, aliás e as que estão lá acho que são elegantes ou tem humor.
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Rachel e Law em cena
Você, no processo de Cegueira, já ouviu muito sobre isso. Mas algo de novo deve ter havido no processo de trabalhar com esta Babel de pessoas novamente. Em específico com os atores, como foi trabalhar com o germânico Moritz Blerteu na mesma cena com Jude Law, com Juliano contracenando com Rachel?
Trabalhar com bons atores é sempre uma alegria. Você pede 4, eles entregam 25. Basta não ser uma anta e deixar eles fazerem o trabalho deles, que conhecem melhor do que você, que a cena sai boa. Às vezes acho que o momento de escolher o elenco é mais importante para o resultado do que o trabalho com os atores no set. Um diretor dificilmente salva um mal ator mas um mal diretor pode derrubar um grande ator. Com Neymar e Ganso em campo, o técnico tem que dar espaço. É mesma coisa no cinema.

 

Como foi, na prática, deixar temas como os de Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel, Cegueira para adentrar em temas mais introspectivos? Além da luz, que surge granulada para sugerir ao espectador em vez de ‘entregar de bandeja’, há outras descobertas e soluções que você e a equipe foram encontrando?
Este filme, mais do que os outros que rodei, foi sendo encontrado pelo caminho. Estava meio tenso antes de começar a rodá-lo pois gostava daqueles personagens mas não sabia exatamente sobre o que era 360.Numa tarde sentei com o Peter Morgan, roteirista, confessei que não entendia muito o que estávamos dizendo e pedi para ele ser claro e me explicar o que tinha na cabeça quando escreveu o roteiro. Para minha surpresa ele respondeu tranquilo: ‘Não sei, mas uma hora vamos saber ou então vamos quebrar a cara.” Por causa desta imprecisão na largada eu estava especialmente permeável à contribuição dos atores e de todos ao redor.

 

Valeu a pena?
O processo foi uma maravilha, foram dias muito felizes. Já o resultado não sei dizer, perdi a noção depois de ver o filme tantas vezes. Agora é esperar para ver se alguém paga o ingresso para assistir e esperar também que a turma que têm espaço nos jornais assistam e carimbem o filme com seus bonequinhos e estrelinhas informando a seus leitores se o último ano da minha vida foi de algum proveito ou se foi puro equívoco e perda de tempo.

 

 

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