Nem só de derrières se faz um Carnaval
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Nem só de derrières se faz um Carnaval

Flavia Guerra

24 de fevereiro de 2009 | 09h52

Londres

Nem sempre é Carnaval no Brasil. Muito menos em Londres. Mas às vezes….

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De olho no Brasil. Bela foto de Vanderlei de Almeida/AFP

Deu no Guardian!
O Eyewitness (testemunha ocular) do Guardian, está de olho no Carnaval do Brasil. Até aí, nenhuma novidade, não é mesmo? O trio de ouro brasuca quando o assunto é ‘aos olhos alheios’, é sepre a combinação certeira ‘carnaval, futebol e praia’. Com direito a incluir nas entrelinhas, os tufões nos quadris e os derrières generosos das compatriotas foliãs.
Mas, vê lá, na última sexta, enquanto milhares de patrícios curtiam no pub da esquina ou em bailes ‘quase’ carnavalescos da capital londrina, o Guardian olhou por nós para detalhes da nossa folia que quase nunca são destaque nas páginas dos jornais estrangeiros.
Na outra ponta deste novelo cultural, a fotógrafa Erika Tambke desenvolveu uma consistente pesquisa sobre como, e porquê, a brasileira é sempre vista como a ‘passista sempre pronta para dar uma sambadinha’. Seja na frente da Rainha ou do Papa. Erika está no Rio esta semana, clicando mais, e pesquisando mais, para tentar entender este fenômeno nacional. Sua pesquisa rendeu tese para a LSE (London School of Economics) e bela exposição fotográfica.

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Legenda da fogo, que ocupou duas páginas inteiras do mais nobre jornal britânico: Um membro da Acadêmicos do Grande Rio trabalha em um dos destaques do desfile que a escola fará na Cidade do Samba, onde as escolas do grupo de elite do samba se preparam para o Carnaval, que começa hoje.

Poucas coisas são mais poderosamente femininas que ver uma passista passar com sua banda, seus tufões nos quadris e seu chocalho amarrado na canela diante do mundo. Mas poucas coisas são mais desonestas que tirar de contexto uma festa que tem suas raízes profundas fincadas em séculos de história e mistura racial, cultural, e, por que não, sexual. ‘Recortar’ somente as ancas das brasileiras foliãs para ingleses de todas as nacionalidades verem é como encaixar a mocinha inglesa que despenca da escada rolante, de trêbada que está, numa sexta à noite na estação de Piccadilly Circus e colocá-la, sem escalas, diante de uma vitrine do Shopping Iguatemi.
Qualquer frase, foto, e até elogio, fora de seu contexto, pode soar ridículo, demasiado ridículo.
Mas nesta terça de Carnaval, o fato é que foram os Olhos azuis da Grande Rio que mereceram duas páginas do mais nobre (e um dos poucos não sensacionalistas) periódicos ingleses.
Palmas, palmas! Nem só de derrières se faz um Carnaval!

PS: Quem não gosta de Carnaval, pode até ser ruim da cabeça e doente do pé…. E pode ser muito bom sujeito! Mas julgamentos e comparações ‘a grosso modo’ sobre o caráter deste nosso povo que ainda busca se entender e se construir, não são indispensáveis a este blog, que se delicia tanto com o Britt Pop quanto com o Samba de Breque da esquina. Sorry about that, mas esta blogueira anda achando que ainda é mais fácil quebrar um átomo que um pré-conceito.

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