Na terra da Rainha, quem tem um pound é rei
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Na terra da Rainha, quem tem um pound é rei

Flavia Guerra

20 de abril de 2009 | 16h00

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O tube (metrô) londrino e suas linhas que ligam os West End Boys às East End Girls. E vice-versa!

Prólogo
Este post é também uma carta aberta ao leitor Antonio Neves

Londres
West-East Side Story

A vizinhança do Carter House parece estar se esforçando para ser amigável com as novas housemates. Os vizinhos que trabalham nos bancos da região passam apressados, mas andam dizendo bom dia. As vizinhas de véus escuros e olhos vívidos andam sorrindo e dando boa noite.

Enquanto isso, Londres continua sendo um terreno em que os mundos se chocam e se encaixam o tempo todo. Talvez esteja exatamente aí, neste clash cultural e temporal, que esteja a beleza de uma cidade que, como todas as grandes metrópoles atuais, tenta encontrar o seu espaço na aldeia global.

Interessante como a simples menção das palavras Londres e Europa ainda são suficientes para fazer brilhar os olhos de milhões e milhões de brasileiros. Infelizmente, na terra da Rainha, nem tudo que reluz é ouro. Mas, já que em terra de cego, quem tem um olho é rei (ou rainha), o brilho no olhar se faz entender.
Um exemplo? A brasileira Adriana Plut está, assim como esta que vos escreve, dirigindo um documentário como projeto final do Mestrado em Direção de Documentários para a Goldsmiths University. O tema dela? Os brasileiros que vivem em Londres.
Não os que vivem em flats trendy em bairros como Chelsea, Notting Hill (que já foi bem ‘caído’, aliás), Mayfair… Mas os que se espremem em ‘Little Brazils’ como Willesden Junction. Os mesmos que se espremem em quartos com cinco, seis, dez outros companheiros de imigração.
Não há um só ‘working class’ brasileiro que não diga que no Brasil todos acham que eles estão ganhando rios de dinheiro, tomando pontualmente os seus chás-das-cinco e gastando seus pounds na Oxford Street.

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Um lugar chamado Willesden Junction. Ou seria Little Brazil?

Mas, o fato é que estes brasileiros são, na imensa maioria ilegais, trabalham tanto e desempenham funções e jornadas tão duras que, no pouco tempo livre, em vez de se estirarem nos gramados do Hyde Park, preferem se jogar na cama e assistir ao Caminho das Índias (já que a soap opera local é difícil de entender. Não pelo roteiro fraco, mas porque esta grande comunidade não tirou nota A no exame de proficiência em inglês).

Pode-se perceber nitidamente em cada um destes brasileiros que eles se esforçam para provar o tempo todo que são pobres, mas não miserable. E percebe-se nitidamente em cada um dos brasileiros ‘não-pobres’ (os que podem pagar um mestrado da Saint Martins, da Chelsea School of Arts, da Goldsmiths, da London School of Economics) que eles se esforçam o tempo todos para provar que são diferentes dos ‘pobres’.

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Próxima Parada: Little Brazil Willesden Junction

Mas há vários denominadores comuns que unem as pontas deste Brasil expatriado. Rico ou pobre, todos têm de pendurar suas meias no heating (aquecedor, que serve muitas vezes de varal) ou no varal de armar (geralmente armado no meio da sala).
Em terra em que área de serviço é bem de luxo e TV de plasma é tão barata quanto comida, roupa suja não se lava em casa. Simplesmente porque não há tanque. Já roupa suja há muita. Mas esta é lavada na máquina de lavar ou na pia do banheiro mesmo.
Pobre ou rico, todos os imigrantes e ingleses têm de engolir às vezes o fish&chips da esquina, beber a água calcária da torneira e desentupir uma pia de vez em quando. Simplesmente porque o famigerado ‘Quilo da esquina’ não existe. Filtro é artigo raro. E canos são velhos. Quase tão velhos quanto a monarquia.

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Brick Lane, o centro nervoso do East Side, que já foi reduto de Jack, o Estripador e hoje abriga feiras, restaurantes e casas noturnas

E os vizinhos (sejam eles bengali, paquistaneses, ingleses, poloneses, italianos, escoceses, japoneses), em áreas misturadas como o East Side podem não entender, a priori, que nem toda pimenta é chilly. Que nem todo molho é curry. Que nem toda mulher usa ou véu ou cabelo roxo na cabeça. Que nem todo inquilino acha normal um cano vazando, um carpete alagado, buracos na parede e cebolas voadoras. Se estes vizinhos entendem de mestiçagem, então, é melhor nem comentar.

“Um brasileiro pode até sair do Brasil. Mas o Brasil nunca sai de dentro do brasileiro”, disse uma das entrevistadas de Adriana Plut.

Pois bem. Diante deste chavão tão óbvio quanto sábio, esta que vos escreve poderia passar horas contando quantas horas já perdeu na vida tomando os trens que ligam Corinthians-Itaquera aos outros lados dos rios. Do quão proletário é preciso ser para se galgar uma bolsa de estudos do British Council e cursar um mestrado no Reino Unido. Do quanto ‘é preciso make ends meet (o que poderia ser algo como ‘vender o almoço para pagar o jantar’) para atravessar o Canal da Mancha com um degree (diploma) na mão.
Mas este blog reluz. Apesar de não ser de ouro. Melhor encerrar. E deixar claro que ela pensa que o que faz de cada um pobre ou rico não é seu background bancário, mas o modo como cada um enxerga o outro lado do rio. Seja ele o Tâmisa ou o Tietê.