Mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raymond…
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Mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raymond…

Flavia Guerra

02 de outubro de 2008 | 16h59

Robert Downey Jr., Guy Ritchie e equipe apresentam o novo Sherlock Holmes, que começa a ser rodado na próxima semana na capital londrina

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Cena 1:

Freemason Hall – Central London

Ante-sala do lançamento do projeto do novo Sherlock Holmes. A nova aventura cinematográfica do mais famoso, e londrino, dos detetives, terá um americano, com sotaque de New Jersey e tudo mais, no papel principal. A falta do ‘english accent’ de Robert Downey Jr., que já viveu outro londrino ilustre no cinema, Charlie Chaplin, irritou alguns jornalistas britânicos que esperavam a hora de falar com a trupe de Sherlock Holmes, que terá direção de Guy Ritchie (que muitos c onhecem mais como Mrs. Madonna).

A jornalista do Metro (um dos três periódicos distribuidos diariamente, e exaustivamente, nas estações de metrô da cidade), alfineta para os coleguinhas:

– Mas ele vai dizer o quê no lugar de ‘rubbish’? Bullshit?

A mexicana não se segura e diz:

– Melhor que Frida Kahlo falar ‘how you’re doing’ do que ‘como estás’, que já aconteceu no cinema. Eu achava que só francês tinha esta ‘mala educación’ com os estrangeiros, mas estou vendo que os ingleses não ficam tão atrás.

A colega chilena sai em defesa dos bretões:

– Te enganas! Os franceses são uns grossos, rudes! Passei dois meses e Paris e me sentia um nada. Aqui em Londres eu me sinto muito mais relaxada. Há gente de todos os lugares do mundo!

Cena 2

Coleguinhas jornalistas conversam antes da apresentaçäo de Sherlock Holmes

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A brasileira, que estava mais interessada no café (em uma missäo para descobrir um bom café que näo custe mais de 2 libras, quase R$ 7 reais!) escutava a conversa, lembra do desabafo que ouviu da manicure (que na verdade é professora de artesanato) no dia anterior:

– Olha, minha filha, eu nunca fui tão infeliz. Aqui a gente não é gente. Londres embrutece as pessoas. E os brasileiros que chegam aqui, em vez de melhorar isso, acabam se embrutecendo também. Eu morava em Portugal. Era tão feliz. Ganhava um salário honesto, tinha uma vida boa. Aqui, eu moro em cubículos, divido quarto com mais dois, três, o que ganho não dá para nada. Estou pensando em voltar para Portugal. Se não der mais certo lá, volto para o Brasil.

A cliente, feliz em pagar ‘míseras’ 25 libras para ‘pé e mão’ em uma cidade onde ‘só o pé’ em um saläo de beleza näo sai por menos de 40 libras (cerca de R$ 130), rebate:

– Mas você veio para cá por quê entâo?

– Boa pergunta. Mas a empresa, em que eu trabalhava, de um brasileiro e um portuguës, faliu. A gente dava aula de artesanato nas cidades. Portugal é um país pequeno. Quando acabamos de rodar o país, acabou a clientela.

– E por que você não dá estas aulas aqui em Londres?

– Porque não falo inglês. Só sobra faxina para fazer.

Corta para a ante-sala de Sherlock Holmes novamente. E o que se ouver é um português ‘brincando’ com um ‘vizinho de idioma’:

– Bom fazem os brasileiros, que vão para Portugal. Lá, além da gente falar a mesma língua, nós, portugueses adoramos os brasileiros. Ninguém faz uma faxina como vocês.

E o belga, que abocanhava uma fatia do mais autêntico ‘mud brownie’ (pense em um apetitoso brownie tão denso que remete a uma singela poça de lama negra), pára no meio do caminho e setencia:

– Os brasileiros têm de fazer faxina na casa dos portugueses porque todos os faxineiros portugueses foram para a Bélgica. Lá quem não larga do espanador são seus patrícios.

Os coleguinhas engolem seco o brownie e o xenofobismo sarcástico de momento ao ouvir um autêntico “times is over! here comes Sherlock Holmes’.

Elementar, meu caro Watson, diria Holmes. Já Drummond resumiria melhor…. Mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raymond, isso (não) seria uma rima. Seria uma solução. Mundo, vasto mundo, mais Raimundo é meu coração.

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