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Metrô e dinheiro no bolso nunca é demais. Ou não.

Flavia Guerra

12 de maio de 2011 | 18h03

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London Tube, não é o metrô dos meus sonhos, mas é ótima base de comparação

São Paulo

Prólogo: Notícia publicada hoje no Estadão online afirma:

Polêmica. Hoje, o Ministério Público de São Paulo informou que solicitou ao Metrô e à Secretaria de Transportes Metropolitanos informações sobre as mudanças na Linha 6-Laranja. “Se a decisão for realmente técnica, o processo será arquivado. Mas se a decisão foi feita por pressão de um grupo de moradores, iremos discutir as razões”, afirmou o promotor Antônio Ribeiro Lopes.

A Companhia do Metropolitano de São Paulo nega que a recusa dos moradores de Higienópolis tenha influenciado a obra. “A Companhia está reavaliando a localização da futura Estação Angélica em razão de ela estar a apenas 610 m da futura Estação Higienópolis-Mackenzie e a 1.500m da futura Estação PUC-Cardoso de Almeida”, informou ontem o Metrô em nota.

Em entrevista ao Estadão.com.br, o presidente da associação Defenda Higienópolis, o empresário Pedro Ivanow, comemorou a decisão. “Um dos pontos que a associação levantou era a pouca distância entre uma estação e outra. Higienópolis não é contra o metrô, mas queria entender isso. Foi um movimento de esclarecimento”, destacou. Para ele, as piadas e os protestos organizados na internet são “parte da democracia.”

a íntegra segue aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,mobilizacao-para-churrasco-em-higienopolis-ganha-forca-na-internet,718391,0.htm

ENTÃO, a ‘pouca distância’ do metrô, diante do fato de que São Paulo possui de fato menos linhas e estações do que necessita, é um motivo compreensível para se deslocar uma estação para um local onde não há nenhuma outra estação vizinha.

Aqui, justifica-se.

Interessante é que, como comentei ontem, em volta do Palácio de Buckingham há CINCO estações de metrô e, segundo apurei no site do London Tube (

), nenhum morador do palácio, muito menos a Rainha, nem morador das redondezas protestou e pediu o deslocamento de nenhuma destas estações. Interessante.

Lembro que só estou comparando a situação brasileira com a inglesa porque o metrô de Londres é o mais antigo do mundo e detentor de uma das maiores redes ferroviárias também. Aqui não entra nenhuma noção de complexo de vira-lata tupiniquim de minha parte. Não acho que os ingleses estão mais certos, mais errados, são melhores, piores etc etc. Entra aqui a base de comparação urbanística e estrutural. Com exceção de possuir uma corte real (ao menos oficial), Londres é uma cidade que tem muitas semelhanças com São Paulo por suas dimensões, ritmo de vida, trânsito caótico, distribuição geográfica, população heterogênea e forte tradição classista.

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Churras no Facebook: Estão todos convidados!

HOUVE TAMBÉM QUEM, como a leitora Ruth,  pontuasse que:

Na verdade trata-se da elite da rica Pacaembú(nada popular com suas mansões) que tinha enorme influencia no governo Kassab(DEM), colocando inclusive integrantes de sua associação em postos chaves de planejamento. definiram 2 estações uma ao lado da outra, para eviter uma estação perto do estadio(próximo as suas mansões). Como este governo, ao se desligar do PSDB, perdeu força junto ao governo do estado;o traçado foi revisto e prevaleceu o bom senso sim, com distancia equidistante entre as estações.
No Pacaembú não há nenhuma estação, ruas são fechadas e em muitas não há nem mesmo calçadas para pedestres: quem se acha sangue azul?”

ENTÃO É ISSO?! É mais do que justificável e compreensível que moradores (seja de que bairro for) não queiram vândalos membros de torcidas organizadas fazendo algazarra em suas calçadas e fachadas. Acontece que nem só os torcedores que vão aos jogos no Pacaembu serão (ou seriam) servidos pela estação. Acontece que nem todo torcedor e/ou membro de torcidas organizadas é vândalo. E os torcedores chegam de qualquer forma. Aliás, chegam de ônibus, a pé, de carro, de lotação… Quem sabe com a estação de metrô a vida de todos em dias de jogos e evento não melhore muito?

E, vejam só, sabem o estádio do Chelsea? Em Londres? Aliás, no West London que (bem diferente do East proletário, claro) é posh (assim bacana, classe média, média alta), bem quase um Higienópolis. Então, o Estádio do Chelsea está localizado na verdade no bairro de Fulham. E a somente dois quarteirões da estação de metrô de Fulham Broadway. O Chelsea é folcloricamente considerado algo como o São Paulo inglês. Time de bem nascidos. Mas, como o São Paulo, tem muitos torcedores diferenciados de regiões periféricas e moradores de zonas 3, 4, 5, 6 (as mais distantes, menos bem nascidas). E estes torcedores chegam como ao Chelsea Stadium? De metrô, claro.

Então. Nem todo torcedor é civilizado e preserva calçadas, fachadas e a paz da vizinhança dos estádios. Tampouco nem todo torcedor é mal educado, vândalo enfim.

Talvez em São Paulo não faça ainda sentido haver duas estações tão próximas umas das outras. Talvez os torcedores mal educados não sejam ainda passíveis de serem fiscalizados e controlados. Talvez esta discussão que, a priori, parecia meramente ‘logística’, tenha sido detonadora de uma luta de classes que há muito estava recalcada nos corações e mentes de diferenciados e não diferenciados.

O fato é que o buraco (não só o do Metrô) é mais embaixo. Tem boi na linha. E caroço neste angu. E fortes indícios de que o churrasco da amizade e da igualdade social paulistana e brasileira seja de carne de gato. Um não quer o metrô porque uma estação está muito perto da outra. Outro não quer abrir mão do mercado da esquina. Outro não quer perder o sossego do bairro para legiões de torcedores e fãs de shows de rock e diferenciados afins. Outro acha que acesso ao metrô é fato de inclusão social, de que quem tem de decidir isso é ‘o governo’. Outro diz que a decisão da mudança foi antes da associação de moradores de Higienópolis se manifestar oficialmente. Outro acha que a solução é criar uma entrada de serviço e outra social para o bairro. Alguém tem a ideia de usar o gancho para promover o churrasco dos diferenciados e descontentes com as diferenças sociais, a luta de classe, o preconceito, o racismo, o elitismo enfim. Acende-se a churrasqueira, os ânimos, a fogueira das vaidades.  E  é assim que começam as guerras. De torcida. Dos vizinhos. Civis.

Particularmente, acho a ideia do churrasco, se for pacífica e não danificar nada e ninguém (além do silêncio que vai ser devidamente quebrado), muito melhor que o tipo de protesto que vi em Londres há pouco, quando estudantes britânicos destruíram várias estações de metrô por conta dos cortes que o governo inglês promoveu na educação.

Quem sabe o churrasquinho e o jeitinho brasileiro sejam mais produtivos a longo prazo. E discutindo, e não brigando nem agredindo, mas sim tentando entender os dois lados (sim, inclusive o dos moradores de Higienópolis que não querem abrir mão de um supermercado, que não julgam necessário ter uma estação tão próxima de outra, que têm também o direito de se manifestar) que se vencem as guerras de classe.

Para terminar, um amigo inglês, que mora no Rio (no Arpoador) e nunca entendeu porque certos moradores de Ipanema não queriam metrô no bairro, disse hoje: “Este tipo de reclamação nunca houve em Londres, que eu me lembre. A sociedade inglesa é mais classista que a brasileira. Mas não faz diferença. Metrô não é questão de classe. É infraestrutura. O País tem de se desenvolver.”

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