Luz no fim do Tube
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Luz no fim do Tube

Flavia Guerra

20 de novembro de 2009 | 20h11

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Sheffield

Prólogo

Sobre o PITCHING

Uma das atrações principais de qualquer festival de cinema é o Pitching. Pelo menos, para quem vive ‘dentro do sistema’, ou seja, escreve sobre, trabalha com, ‘meche com’, quer trabalhar, quer fazer ou faz filmes. O Pitching, que vem do pitch palavra que tem dezenas de usos e definições, mas que neste caso, nada mais é que uma apresentação de um projeto, idéia, produto diante de uma platéia de especialistas que julgam se tal projeto deve ou não ser escolhido para ganhar apoio, patrocínio, investimento etc.

De como vencer um Pitching em um festival de documentários

Em Sheffield, o maior festival de documentários da Inglaterra, que foi realizado há duas semanas, o Pitching do Channel 4 (o canal ‘alternativo’ e badalado cujo carro-chefe por anos foi a produção de documentários e que hoje ganha mais publicidade quando exibe o famigerado X Factor) não poderia ser mais concorrido.
A correria para ver quem se atira na cova dos leões do mercado de documentários ingleses inclui de tudo um pouco. Gente na platéia para tentar entender como vender seu peixe. Gente no palco tentando gritar mais alto que seu peixe é mais gostoso. Ou mais polêmico. Ou mais urgente. Ou mais dramático.
Drama é a palavra de ordem na atual produção de documentários mundial. Não basta ser interessante. Não basta informar. Não basta revelar algo. Tem de fazer tudo isso e ter um drama. Um herói, uma trajetória do herói (ou anti-herói) a ser percorrida. Tem de ter história.

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De como as pessoas se matam no London Tube e de como as pessoas querem saber quem se mata no London Tube

Pois bem… Lá estavam os projetos. Cada um apresentado por um jovem e talentoso documentarista inglês. Um sobre quem enxerga embaçado… Outro sobre terapia de regressão a vidas passadas… Outro sobre quem se mata se jogando nas linhas do metrô.
Ah, este último de drama e de urgência, e de curioso, tem muito.

É fato que a diretora estava bem preparada. Personagem já escolhido. Cenas já filmadas e exibidas no telão. Um drama daqueles. Um motorista (ou maquinista?) do metrô londrino que sofre de stress pós-traumático e não consegue voltar ao trabalho depois de ter atropelado uma mulher que escolheu uma das tantas linhas do London Tube para dar cabo de sua vida.

Tudo isso somado aos milhões de minutos e libras que a cidade perde todos os anos tentando retomar a ordem no sistema metroviário toda vez que mais um usuário resolve dar uma de boi na linha. E temos um drama documental perfeito.

Nome o filme já tem. ‘Down Under’… Lá em baixo… Muito escondida mesmo está a verdade por trás de quem são estas centenas de pessoas que não pensam no maquinista, nem nos milhões de usuários de um dos mais antigos metrôs do mundo.

Assunto não falta. Praticamente todos os meses há algum dia em que o sistema entra quase em colapso e os trens são detidos nas estações “por conta de usuário na linha”. E o recado é dado assim. Como se uma bolsa, um guarda-chuva, ou um usuário, estivessem atrapalhando o tráfego. Resta saber quem são estas centenas de pessoas que morrem na contramão do ritmo frenético da capital londrina.

Com muito drama, a carreira de Down Under promete.

Fica a dúvida. Qual será o número de suicidas nas linhas dos metrôs do Brasil todos os anos. Isso bem que daria um documentário…

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