Londres: Vim. Vi. Venci. Ou quase
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Londres: Vim. Vi. Venci. Ou quase

Flavia Guerra

08 de janeiro de 2010 | 22h50

Londres e São Paulo

snn
Enquanto a chuva cai em São Paulo e cobre a cidade de caos, a neve cobre Londres de branco e caos também. Mas semelhanças e diferenças não param por aí…

O BLOG DA VANESSA

A estudante brasileira Vanessa tem um blog em que escreve sobre Londres:
http://2anosemlondres.blogspot.com/

Nele, assim como eu, não consegue evitar a comparação entre as duas terras. Ela escreve muito mais que eu. Mas, assim como eu, tem um tom espontâneo, despreocupado e até mesmo naïf e descuidado de narrar o que vê, pensa e sente. Seja como for, o que importa é que seu texto é autêntico. Cara-de-pau na melhor acepção da palavra, revela muito bem como pensam e o que sentem os tantos imigrantes da nossa working class brasileira em Londres.

Este recente post dela mostra bem o que sentem tantos que vão e que vem…

vvv
Vanessa Santos, brasileira e blogueira

2 anos em Londres

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Capítulo 28 – Refletindo sobre a volta ao Brasil

Foi vendo as fotos da viagem de uma amiga que foi a Sao Paulo que eu percebi que vai ser muito difícil minha adaptação no Brasil. Porém, também vi que vai ser muito importante ver tudo com outros olhos e que na verdade, apesar do medo, eu não vejo a hora. É uma mistura de sentimento engraçada.

A primeira foto que vi foi uma foto da avenida paulista onde eu pude ler uma placa que dizia “Bela Vista, Vila Mariana”, ao redor muitos prédios e carros seguindo pela avenida.

Meu primeiro pensamento foi: “nossa, é totalmente diferente daqui!”. É, eu vou sentir bem a diferença quando chegar lá. Poque é muito diferente! Eu já fiz um capítulo falando das diferenças de comportamento, certo, mas existem também as diferenças de estrutura.

Na Inglaterra também tem varios prédios no centro, mas é diferente. Em Londres tem menos prédio do que em São Paulo e os que tem são prédios antigos, mas muito bonitos, não pense que é igual os da praça da sé. São de tijolos vermelhos, como as casas, e não são tão altos. Os ingleses se sentem o máximo de falar que trabalham em um prédio de 7 andares. Para eles é muito alto. Mas fica mais bonito prédios de tijolinhos baixos do que um monte de prédio altão, quadradão e cobrindo a paisagem.

E como São Paulo tem gente ein. As avenidas são larguíssimas e mesmo assim ainda tem congestionamento. Eu jurei para mim mesma que quando chegar no Brasil NÃO vou comprar um carro. E pensar que em Londres eles reclamam que tem muita gente e muito trânsito. Eles não viram São Paulo ainda.

Estão vendo, vai ser difícil para mim. Mas vai ser bom. Na verdade não vejo a hora de chegar em São Paulo e ver tudo com olhos diferentes.

E até que São Paulo é chic não é? Cheio de prédios com janelas de vidro, shoppings maravilhosos, algumas avenidas arborizadas. O problema vai ser quando eu ver os mendigos, as criancas de rua…Aí vai ser complicado…

E até que São Paulo é bem atualizada culturalmente também. Podemos encontrar muita cultura! Tem o Fnac, enfim, vários lugares para adquirir cultura da mais atual. O único problema é que essa cultura toda é cara! Na Inglaterra, um livro custa em média 8 libras, enquanto que no brasil custa em torno de 30 reais. Mas tudo bem, certo? Porque eu vou ter um booom salário, eu espero.

A próxima foto foi uma foto da cidade litorânea, Peruibe. Eu sabia que era Peruibe mesmo antes de ler a legenda porque reconheci o morinho no horizonte e também o prédio branco redondo lá atrás. Dois tios meus tem apartamento e casa em Peruibe e além disso meu melhor amigo da época da adolescencia também tinha casa lá. Então Peruibe fez parte, digamos, da minha adolescencia praieira.

Foi legal ver a foto, mas eu já vi que vou me decepcionar com as praias de São Paulo. Começando com uma coisa que pode parecer besta, mas não é: as praias na Inglaterra tem sempre um Pier a beira mar. O Pier nada mais é do que um pilar de ponte que vai até consideravelmente em cima do mar que eu acredito que antigamente servia de embarcadouro, mas que hoje em dia virou centro de atrações.

Nos “piers” tem brinquedos estilo de parque de diversão, várias separações onde comerciantes vendem maça do amor, donouts, que eles amam aqui, creques, todo tipo de coisa doce que você imaginar, e claro, inclusive sorvete. Além disso tem aquelas casas de jogos, tipo de video game, maquinhinha de dança e de tentar pegar ursinho. E tem também pubs onde você pode beber uma cerveja e comer um fish & chips olhando o mar de cima.

E em Peruibe, só tem uns quiosquinhos feios. Nada contra. Na minha adolescencia eu achava Peruibe o máximo. Quando marcava de descer para Peruibe eu ficava contando os dias e não dormia pensando nisso. Na verdade, basicamente, Peruibe também tem umas casinhas de jogos, lugares onde você pode comprar docinhos gostosos, só que não é tudo junto em um Pier acima do mar. E também, pelo que me lembro, não é tão bonito.

Além disso, nas praias inglesas a areia é limpa e o mar também. Até a praia mais suja deles, que eu acho que é Brighton, a nossa equivalente Santos, ainda é muito mais limpa do que qualquer praia do litoral de São Paulo. Algumas praias na Inglaterra tem até museu marímito, navios antigos a exposição ou fortes que antigamente foram usado para guerra e a estrutura está lá até hoje para ser admirada. Se for ver, é tudo melhor!

Mas tem uma coisa que a praia brasileira tem que a praia inglesa não tem. E nisso o Brasil ganha de mil a zero. Nas praias brasileiras, faz calor. O máximo de calor que eu peguei na Inglaterra foi 25 graus! E se tratando de férias na práia, calor é muito importante. Principalmente porque sem ele simplismente não dá para entrar no mar. Então na verdade o que adianta eles terem uma praia toda cheia de atrações se o mar é frio, certo? Para ver atração eu fico em Londres mesmo. Se eu vou à praia é para entrar no mar.

Nossa. Mas foi incrível como vi que verei as coisas com olhos diferentes quando vi uma foto que mostrou uma brasileira bem de perto. Era uma moça normal para os padrões brasileiros, só que eu achei tão estranhinho o jeito que ela estava vestida. Como já disse, não era nada demais. É só que certas coisas não se fazem na Inglaterra, em relação a moda, e eu acabei que agora acho feio também.

Por exemplo, que nem a moça da foto que usava um brinco com uma estrela, que para a mulher brasileira não é nada demais, mas para a Vanessa pós Londres pareceu um exagero. Sem falar na regatinha super justa, estrangulando a mulher, com estampa de bichinho e ainda ela tinha cabelo fuá e fazia um rabão de cavalo bem cheio. Eu sei, pareceu maldade. Mas não é, vários caras brasileiros devem achar mulher assim bonita, é só que para os padrões europeus está feio.

Mas uma coisa eu tenho que reconhecer que essa moça da foto tinha bonito e que a maioria de nós brasileiras tem: a cor da pele. A pele das europeias é tudo cheio de ruga e seca. As peles das brasileiras, por mais que a mulher não se cuide e não passe creme constantemente, ela está sempre bonita. Claro, tem umas inglesas que tentam copiar fazendo bronzeamento artificial, mas não fica o mesmo.

Mas com certeza verei meus colegas de faculdade com outros olhos. Minhas primas, meus pais, meus tios, enfim, todo mundo. Porque agora eu enxergo que todos nós fazemos parte de uma coisa muito maior, entende? No brasil nós nos prendemos muito a fazer grupinhos, a falar mal dos outros etc. Quando na verdade nós todos fazemos parte de um mesmo grupo.

No fundo, não somos tão diferentes assim. Devemos amar uns aos outros! Cada um do jeito que é. E procurar ver as pessoas por dentro. Conhece-las não para dizer que tem muitos amigos, mas realmente para conhece-la. Para ve-la por dentro. Para amá-la!

O povo brasileiro tem fama de ser o mais amigável, mas, na verdade, isso não significa que um brasileiro se importa com o outro. Isso só significa que quando está tudo bem eles se reunem e fazem festa. Mas ninguem realmente quer saber de conhecer o outro, de saber se o outro está realmente vivendo feliz.

Essa minha residência de 2 anos em Londres foi essencial para ver isso. Só à distância para enxergar certas coisas. E agora, quando eu voltar, em março de 2010, eu não serei mais a mesma Vanessa que deixou o Brasil em março de 2008. A adolescente virou adulta. E eu tenho que confessar que sinto muito orgulho de mim 🙂

E quer saber, acho que no final eu vou acostumar rapidinho. Afinal, morei toda minha vida lá. Nao vai ser 2 anos em Londres que vai ter modificado tudo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.