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Lições de Domingos de Oliveira

Flavia Guerra

05 de julho de 2013 | 17h28

Aos 76 anos, diretor e autor vai a Gramado com novo filme, roda dois novos longas e dá curso em que ensina arte com liberdade

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Flavia Guerra
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Quando, aos 76 anos, Domingos de Oliveira, um dos mais profícuos autores do teatro e do cinema brasileiro, viu-se diante de uma banca examinadora, que decidiria se seu novo projeto de longa mereceria ser aprovado no concurso do Fundo Setorial Audiovisual, pensou em uma única forma de convencê-los. “Falei: ‘Se estou aqui, com esta idade, dando este duro, que é enfrentar vocês, que vão me avaliar, é por que tenho algo a dizer, não?’”
Em fevereiro, Domingos foi um dos premiados do Fundo e em breve vai dizer muito em Barata Ribeiro, 716, longa que roda em breve. Antes, em agosto, leva seu mais recente filme, O Primeiro Dia de um Ano Qualquer, ao Festival de Gramado e filma um outro longa em setembro, adaptação de sua mais célebre peça, Assunto de Família (Do fundo do lago escuro), com Fernanda Montenegro. Além disso, Domingos, que recebeu em 2012 o Prêmio Leon Cakoff da Mostra de São Paulo, chega à cidade na próxima semana para ministrar o curso Lições de Liberdade, no Centro Cultural b_arco, de 12 a 14 de julho.
No curso Domingos vai, aí sim, mostrar muito o que tem a dizer. “Não dou curso há bastante tempo. Sou velhinho. Dar aula é muito cansativo, mas adoro. Há um tempo de aprender e um tempo de ensinar. E já tenho ideias bastante originais, que fui criando durante a vida, sobre o teatro, o cinema. Está na hora de transmiti-las”, disse o diretor de uma das melhores comédias da história do cinema nacional: Todas as Mulheres do Mundo (seu primeiro filme, de 1966). Sobre os novos filmes, festivais, produção, lições, cultural e arte, Domingos falou ao Estado, por telefone.
Sobre o que é O Primeiro Dia?
É sobre o primeiro dia do ano, numa casa de campo do Rio, do amanhecer ao último raio de sol. Todos os personagens estão em crise, e acabam chegando a uma conclusão desalentadora: o mundo não vai acabar. É sobre espectativas.
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De onde surgiu o nome, e a ideia, de batizar seu curso de Lições de Liberdade?
É uma coisa Nietzschniana e Sartriana. Nietzsche dizia ‘quem for meu discípulo que não me siga’. Não me acho em condições de ser seguido. Dou lições, mas também impressões. Falo muito do conceito humano da arte. O teatro sempre foi feito em qualquer canto, uma arte em que o ‘humano’, o trabalho dos atores, valia mais. Esta ideia me atrai muito. Hoje não é mais possível fazer teatro assim.
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Ficou muito caro fazer teatro no Brasil?
Cinema precisa de mais estrutura, mas o teatro não necessariamente. O problema é que hoje, para dar algum dinheiro, teatro precisa de dinheiro investido. O público ficou tão acostumado com os espetáculos mais caros, que são produzidos dos patrocínios por meio das leis, que produz fica difícil. Cinema já é insuportável. Virou um negócio. Outro dia disse a um distribuidor: ‘Dizem que meus filmes são ‘cabeça’. A vida toda fui chamado do oposto.’
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Como viabiliza seus filmes?
Tenho seis roteiros prontos. Os dois últimos (O Primeiro Dia e Paixão e Acaso) rodei no primeiro semestre de 2012. Mas confesso que adoro baixo orçamento. Adoro telefonar para o fotógrafo e dizer: ‘O que você vai fazer semana que vem?” Adoro fazer filmes como Godard e Truffaut faziam. Sou de uma geração que descende da Nouvelle Vague, de Rosselini… A nova geração descende da publicidade.Adoro filme inventivo, de uma escola que ‘não faz mal sair de foco’…
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E O Primeiro Dia?
Foi rodado com a verba da venda da primeira exibição do longa no Canal Brasil. A Maitê Proença emprestou a casa dela. Apareceram pessoas incríveis que têm vontade de trabalhar comigo. Não improviso nada, mas adoro a interferência do real. Adoro o caldo que sobra do embate com a realidade, o que resta da mistura da nossa fantasia com o real.
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E para o próximo filme?
Vou rodar em setembro. É a adaptação para o cinema de Assunto de Família (Do fundo do lago escuro). É minha peça mais consagrada, montada pela primeira vez em 1980, com Fernando Torres e Fernanda Montenegro, que fazia o papel da minha mãe, com direção do Paulo José. E há dois anos eu, que nunca tinha dirigido, montei e dirigi. E não encontrava nenhum ator que me excitassem para fazer figuras tão importantes da minha infância, como a minha vó. E acabei eu mesmo interpretando Dona Mocinha. Foi estranho, mas enriquecedor.
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E agora leva ao cinema?
Sim. A Fernanda vai fazer agora Dona Mocinha no filme. Conseguiu negociar 15 dias de folga na Globo para poder filmar. Conseguimos levantar os R$1,7milhão necessários para rodar. Só não vai se chamar Do Fundo do Lago Escuro porque este nome parece uma coisa deprimente. Tem ‘fundo’, tem ‘escuro’. Estas palavras proibidas pelo pessoal do marketing. Então, a partir disso, vai ter a tradução direta do filme do Fellini: Eu me recordo.
É o teu Amarcord?
Sim. É minha infância. É muito interessante porque é teatro mesmo, com a possibilidade do tempo. Sempre dizem que eu faço teatro filmado. Me rebelei e tentei combater isso. E transformar a peça em um roteiro de cinema de verdade.
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Conseguiu? Descobriu?
Sim. Já levei várias peças para o cinema. Separações, Amores… Mas eram peças que já nasceram quase como roteiros prontos. No teatro, a palavra é soberana, sagrada. Já no cinema, o ator, sem falar, diz muito. A câmera diz muito. E quando a cena está chata, a gente pode filmar a paisagem. É preciso dizer muito menos. Eu era muito verbal. Tentei transpor para esta linguagem. E a outra coisa é o que eu chamo de tempo.
O cinema é o mestre do tempo. O teatro talvez seja uma arte até maior. Aliás, são diferentes, e maravilhosas. Mas o cinema é mais artesanal. No teatro, há o fato de um ator poder chegar para a plateia e dizer: ‘Estamos em Marte.’ E estamos. Sem gastar um tostão. Já o cinema tem a arte de dominar o tempo. Já se filma com a ideia do corte. Há a câmera lenta, que eu chamo de ‘A atenção dos deuses’, que enxerga o que sempre estava lá, mas a gente não via. O quadro quase parado, que revela o instante eterno. Adoro cinema.
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Cinema ou teatro?
A aventura maior é a do autor de teatro. Ele faz algo muito sofisticado que, se explicarmos para um marciano ele não vai entender nada. Investiga a fundo a natureza humana e, depois disso, é preciso inventar uma forma teatral de tornar tudo aquilo em uma expressão artística. Sem contar a aventura de enfrentar a plateia. Quem nunca fez teatro não sabe o que é isso.
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Vai passar isso em seu curso?
O Castanheda dizia que todos os caminhos são iguais. São para entrar ou para sair do mato. Minha filosofia é a que emana e se expressa. Dividi o curso em três encontros, com foco na dramaturgia.
Você é um grande dramaturgo. Concorda quando dizem que faltam roteiristas no Brasil?
Concordo. Precisamos formar mais gente. Dirigir e atuar, se você tiver talento, ainda é possível fazer no intuitivo. Mas para escrever é preciso estudar. É preciso subir no ombro dos gigantes. A dramaturgia é linda. E muitos a consideram uma caretice. Muitos jovens autores até a rejeitam. Mas teatro sem drama não é teatro. Dramaturgia é a ciência que tenta entender o que há de comum em todas as peças que você adorou.
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E o que há de comum entre elas?
Primeiro encontro falo quem sou eu e o que acho é o teatro e mostro o curta Moby Dick. No segundo, falo da dramaturgia como origem de tudo, ensino algumas técnicas dramatúrgicas e falo do meu método pessoal. No terceiro encontro, tento fazer uma escaleta , que vamos escrever juntos baseados em assuntos do jornal do dia.
Transmito minhas ideias. E tenho uma ideia muito clara sobre qual é a função social da arte. Vivi lutando por isso. Tem até um documento. Vivem dizendo que temos ministérios demais no Brasil, mas eu criaria mais um: o Ministério da Arte, que cuidasse desta coisa quase indefinível que é a arte. O artista sabe o que é, mas não sabe explicar. Arte não é cultura. A cultura pode estar indo muito bem, mas a arte estar péssima. E o que faz o mundo é a arte. É a coisa mais importante do homem.
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A função social da arte é fazer pensar, educar?
A arte tem um bisturi que alcança lugares que nada mais alcança. Estes lugares são o amor, a beleza, a solidariedade. A arte vai lá. Ensina o que é a vida. Costumo dizer que, quando olho um girassol no jardim, não entendo bem o que é aquela coisa amarela, escandalosa. Mas quando olho os girassóis do Van Gogh, entendo perfeitamente o que é a alma de um girassol.
Você disse que o autor é um mágico, posto que coloca no mundo alguma coisa que antes não estava lá!
É a vocação humana. Criar. Hoje estamos indo para o caminho oposto. Tudo virou um grande negócio. Não tenho nada contra. Mas devíamos cuidar mais desta outra parte que não é o lucro, porque é um desperdício não cuidar da arte.
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A transformação da arte em bem de consumo final é um fenômeno de nosso tempo?
As pessoas não veem que o problema não é econômico. É um problema espiritual, cultural, das pessoas. A arte é tudo que nos lembra os bons valores. É construtiva.
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Você está animado com o atual cenário do cinema brasileiro?
Não. Está muito difícil levantar verba para filmar. Cada vez se tem mais paixão pelas horríveis comédias que tem sido feitas. São filmes que não têm a menor intenção de desvendar o mistério da vida, de melhorar a vida de quem vê, que é a função social da arte. Arte é coisa de autoajuda. Se o filme me faz bem, gosto do filme. Mesmo que eu sofra.
Tenho seis roteiros na gaveta. Escrevo muito. Os filmes de baixo orçamento que eu adoro, não adianta fazer. O Primeiro dia não é mal. Quero mostrar A Paixão e o Acaso em São Paulo, mas Barata Ribeiro, 716. Crônica dos meus tempos de alta boemia, do Rio de Janeiro, que acaba em 1964. É a visão da Revolução através de quem não estava nela e não queria saber disso. Já consegui a verba de R$ 1,4 milhão para filmar. Falta a outra parte.
É dificílimo conseguir verba. Este eu não sei como consegui o pessoal do pitching do Fundo Setorial do Audiovisual , dizendo: Do tempo do álcool, em que maconha praticamente não existia no Rio. E cocaína a gente nem tinha ouvido falar. E a turma inteligente bebia industrialmente. O álcool é a droga das grandes paixões, discussões, brigas. Era muito bonito sob certo aspecto. E é disso que este filme trata.
Festival é ótimo. Dá prestígio, mas não a fazer público. Separações, que acho até melhor que Todas as Mulheres do Mundo, ganhou todos os festivais, mas não fez bilheteria.

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