Freecycle. Ou ‘Lavou, tá novo!”
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Freecycle. Ou ‘Lavou, tá novo!”

Flavia Guerra

14 de maio de 2009 | 22h30

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Free is good!

Londres

O ditado já diz. De graça, até injeção na testa. Ou quase. Mas, se o presente em questão se tratar de algum artigo oferecido no freecycle, pode acreditar que até uma bela injeção na testa vai ter seu destino.

O sistema é simples. Há quem queira se livrar de algo que já foi útil mas se tornou um elefante branco em plena sala de estar. Há quem esteja precisando desesperadamente de um elefante branco para combinar com a decoração de motivos safari na sala nova.

A oferta de ontem era tentadora: “Ofereço uma caixa cheia de minhocas. Não são lá minhocas campeãs, mas já serviram de bom adubo para minhas azaléias e garanto que reproduzem muito rápido. Só estou me livrando delas porque estou mudando para um apartamento sem jardim.”

Presente de grego? Que nada! Não deu cinco minutos e as minhocas já tinham um novo lar.

Assim é o Freecycle. Uma rede internacional de troca de tudo que se possa imaginar. De minhocas a cestas de frutas estilo ‘Dorothy em o Mágico de Oz’, passando por simplórios sofás, cadeiras, mesas, aspiradores-de-pó, talheres, camas, lençóis, almofadas, secador de cabelo, raquete de tênis, sapatos, livros, revistas, DVDs, berços, roupas…

Os endereços dos que dão e dos que recebem variam, mas o centro nervoso da comunidade é o mesmo sempre: www.freecycle.org. Criado nos Estados Unidos em 2003, hoje já está em centenas de cidades em dezenas de países. Já conta com mais de seis milhões de membros que se dividem por quase cinco mil grupos.

Há semanas, quando se inscreveu, esta que vos escreve exibia orgulhosa o sofá (quase) novo da Laura Ashley barganhado com um produtor musical do East End londrino que precisava de espaço em casa para o novo modelo que havia comprado.

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Um autêntico Laura Ashley ganhou um novo lar

Se em tempos de credit crunch (a famigerada tal da crise), a ordem é reciclar, o freecycle é o case do ano. Em Londres o freecycle já é assunto de mesas de bar (ou seria de pub?), de cabeleireiro e fila de supermercado…

“Não é só pelo fato de ser bacana e contribuir para o meio-ambiente. É mais barato doar as coisas no freecycle que chamar um carreto para levar para o lixo. A prefeitura não recolhe sofás, por exemplo. E está todo mundo querendo economizar. Até no carreto, que é uma fortuna até para quem ganha em libras”, explicou o bem-feitor e ex-dono do meu Laura Ashley.

Já na fila do supermercado, o assunto era o mesmo, mas o tom era outro. “Menina, tá vendo esta saia nova? Peguei no freecycle! A menina estava voltando para a Austrália e resolveu dar todas as roupas no freecycle”, disse uma amiga para outra na fila do Tesco (a cadeia de supermercados mais famosa de Londres, que carinhosamente muitos brasileiros chamam de Tosco tamanha a má qualidade das frutas oferecidas. Mas de o quanto as frutas são artigos raros na Inglaterra é assunto para outro post).

“Jura? Que ótimo. E olha que eu tinha vergonha de aceitar qualquer roupa usada no Brasil. Agora até cadeira no lixo eu ando pegando. Outro dia uma amiga disse que marcou um date (o famoso ‘encontro’) com um cara de quem ela foi buscar uma geladeira”, respondeu a amiga.

“Lixo que nada. É reciclável. É hype reciclar! Tá na moda! Pena que não existe no Brasil”, reclama.

Existe sim. A comunidade ‘internética’ já não é mais ‘uma grande novidade’, mas poucos ainda a conhecem de fato no Brasil. Até pouco tempo, somando Rio, Curitiba e São Paulo, pouco mais de 300 pessoas faziam parte do clube. Para aumentar o quórum da comunidade brasileira, e quem sabe conseguir ganhar, dar ou trocar mais que ‘ótimas minhocas’, é só acessar: www.freecycle.org.

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