Deus está em toda parte. Os imigrantes ilegais e a polícia, também.
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Deus está em toda parte. Os imigrantes ilegais e a polícia, também.

Flavia Guerra

18 de agosto de 2009 | 10h40

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PORTA DA ESPERANÇA: Barricada controla a entrada ao Excel Center durante o encontro dos G20 em abril

Londres

Aconteceu em Londres. Aconteceu nas Docklands, à beira do Tâmisa, em frente ao Excel Center, onde, em abril, os G20 do mundo se reuniram para discutir o futuro do planeta.
Quatro meses depois, o cenário que parecia mais a entrada de um mega show (poderia ser o de Madonna, poderia ser o de Michael Jackson, que seria realizado literalmente ‘do outro lado do rio’ na Arena O2) era pura calmaria e tranquilidade.
Em uma cidade que tem muitos parques, tantas igrejas, outras tantas mesquitas, e quase nenhuma colina, estar perto de Deus é algo de fato subjetivo. O brasileiro Paulo achava que estar perto de Deus era estar perto da água. E foi para as docas à beira do Tâmisa, na porta do Excel, falar com Deus.
Paulo acabara de se converter ao Evangelho. Tinha acabado de chegar da Itália, onde era mais um no imenso exército de ‘viados’ que servem nas ruas de cidades como Milão, Roma, Bolonha… ‘Viado’ é a forma como os italianos aprenderam a chamar os travestis brasileiros. ‘Eles todos se tratam por viados, a gente acabou aprendendo também”, me explicou um dia um taxista romano que me perguntou também “por que tinha tanto viado brasileiro”. Lembro que me detive a contra-perguntar: “Por que tem tanto cliente italiano?”

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Se eu quiser falar com Deus, vou para as Docklands…

De volta às docas, o Paulo havia deixado os clientes na Itália, trocado os cílios postiços e as unhas de porcelana por camisas de algodão barato comprados na Fashion Street do East London, que de ‘fashion’ (no sentido que Vivienne Westwood dá ao fashion style) não tem muito e mais parece uma filial indiana (ou bengali…ou paquistanesa, e muçulmana) da paulistana Rua São Caetano.
Vestido de novo homem, Paulo, segundo amigos de culto de domingo da Igreja Batista de Plaistow (bairro do far far East London, muito longe de Notting Hill e muito perto do Excel Center), ainda desmunhecava um pouco. “Mas ele tava progredindo. É força do hábito, né?”, explicou um ‘irmão’ da igreja.

Já que o hábito faz o monge, ou o evangélico, Paulo pegou o hábito de botar sua bíblia na mochila e ir orar na beira do Tâmisa, em frente ao Excel.
Na semana passada, estava um dia bonito e o Paulo foi orar de novo. Agradecer pela nova vida e pedir um emprego, já que seu antigo ofício tinha já entrado para a história e para as estatísticas dos motoristas de táxi italianos.
Pense em um cenário dos novos tempos. O Excel Center, alvo das atenções dos ativistas de todo o mundo em abril. Pense no medo deixado pelos anarquistas italianos que bagunçaram o coreto durante as passeatas anti-G20 e quebravam várias fachadas na City (o coração financeiro londrino), pense na policia inglesa que até hoje está tentando se explicar sobre o assassinato de Jean Charles há anos, sobre a morte súbita de um inglês em plena passeata anti-G20 em abril. Pense no mês do Ramadan, que está para começar no próximo dia 21. Pense no medo. Medo de bagunça, medo de terrorismo, medo do outro.
Agora pense em um brasileiro, de mochila nas costas, lendo a bíblia, ajoelhado em frente ao Excel Center, emocionado com sua nova vida. De longe, o Paulo poderia parecer mais um Mohammed lendo o Alcorão e se preparando para o mês do jejum. Em se, vez do Alcorão, ele tivesse uma bomba na mochila? Bom, foi assim que os oficiais ingleses que faziam a ronda nas docas pensaram. E foram tirar a prova.
Paulo levou um ‘guenta’ da polícia. ‘Guenta’ no bom sentido porque a polícia inglesa não chega batendo, obviamente. Muito bem preparados, perguntam primeiro. Mão na cabeça não tem, mas os documentos…. Os documentos… Como milhares de imigrantes brasileiros (a maior comunidade latina de Londres é brasileira), o passaporte de Paulo estava com o visto mais do que vencido. E, como a grande maioria de seus patrícios, o Paulo mal fala inglês.

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Policiais e ‘protestantes’ em frente ao Banco da Inglaterra durante o encontro dos G20 em abril

Com o pouco que aprendeu na igreja, pediu para ligar para a missionária inglesa da igreja, que veio em seu socorro. Em tempos de crise, como explicar que o Paulo merecia uma segunda chance, que havia encontrado Jesus e agora estava tentando encontrar também trabalho em Londres.
Seja em inglês, italiano ou português, há coisas que não se explica. E a polícia, muito educadamente mandou o Paulo para o Home Office. E o Home Office, muito compreensivelmente, mandou o Paulo se retirar da terra da Rainha e cair na real. Quer dizer, voltar para o Brasil. Sabe-se lá o que o Paulo vai encontrar agora do lado debaixo do Equador. Mas os irmãos dizem que ele está até feliz de voltar para casa. Um amigo dos cultos de domingo ponderou: “Deus sabe o que faz. E o Brasil está melhorando. O País está crescendo na crise e agora, pelo menos, quando for rezar na beira do rio, vai ser, no máximo, confundido com algum maconheiro.”
Amem!

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As Docklands, e o Excel, em dia de G20

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