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Depois da Batalha – O cinema político em Cannes 2012

Flavia Guerra

17 de maio de 2012 | 11h08

Filme egípcio, primeiro da competição oficial, retrata a Primavera Árabe e traz as tensões no Oriente Médio para o centro das discussões do festival

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Flavia Guerra/Cannes

O egípcio After the Battle (Depois da Batalha), de Yousry Nasrallah, que integra a mostra competi viva do 65o Festival de Cannes, não é exatamente o tipo de filme que se espera encontrar na seleção do festival. O longa conta a história de Rim (Meena Chalaby), uma jovem moderna, laica e revolucionária que se envolve com uma família humilde cujo pai (Mahmoud, vivido por Bassem Samra) é um dos cavaleiros da Praça Tahir, que foram contra a Revolução que, em fevereiro de 2011 derrubou o governo de Muhammad Hosni Said Mubarak. Mahmoud e seus companheiros  acabaram sendo atacados pelos protestantes e o vídeo acaba sendo divulgado e exibido à exaustão no You Tube. Humilhad, sem trabalho e sem dinheiro (já que os turistas oque ele costumava guiar pelas pirâmides desapareceram com a crise) e com a dignidade em risco, Mahmoud se envolve com Rim, que passa a frequentar a casa da família e a tentar convencê-los de que a única mudança, e evolução possível, é a revolução.

Detalhe: Mahmoud vive em Nazlet, bairro vizinho ao complexo Pirâmides + Esfinge. Ganha a vida conduzindo turistas pelas relíquias históricas, as quais ironicamanete não consegue enxergar de sua casa, poi há um ‘muro de segurança’ que os separa. Revoltados com o isolamento, ele e seus companheiros acabam sendo convencidos por representantes do governo que, se forem contra a revolução, o muro seria derrubado pelo então soberano Mubarak.

Dramaturgia novelesca, personagens estereotipados e pouca sutileza. No entanto, depois de conversar com diretor e elenco, e de analisar a importância política da empreitada de se rodar um longa sobre a Revolução Egípcia quase em tempo real, é possível compreender porque a comissão de seleção decidiu incluir After the Battle na competição.

 

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Cannes tem fama de ser pouco político, ao contrário, por exemplo, de seu ‘maior concorrente’ no circuito dos grandes festival, a Berlinale. A julgar pela lista de filmes em competição, After the Battle deve ser mesmo o longa que mais debate suscitará durante o festival. Pelo menos, no que diz respeito a questões políticas do Oriente Médio.

Para se ter uma ideia, o primeiro embate entre personagens do filme não é necessariamente político, mas é a ponta do iceberg de uma sociedade que tem anos pela frente antes de poder afirmar que de fato ‘mudou’: “Molestar uma mulher porque ela não se comportou como uma muçulmana deve se comportar não é certo mas é normal!”, diz uma personagem. “E isso ocorre em outros países. Não só no Egito. Não espere que as pessoas mudem em nove dias, já diz a mesma personagem”, comentou o diretor. E sobre a compreensão (e apreciação) do público ocidental das nuances que o filme traz? “Acho que não é preciso viver a realidade do Oriente Médio para entender.  A não ser que as pessoas ocidentais sejam absolutamente estúpidas, elas entenderão”, declarou o diretor, que teve de ‘disfarçar’ o nome do filme para poder rodar com tranquilidade sua história.  “Nosso filme tinha um nome de comedia romântica. Mas sempre soubemos que era um filme político. Havia sempre gente por perto ‘fiscalizando’. A primeira coisa que me perguntaram era se eu tinha permissão para filmar na praça. E o segurança ainda tinha na cabeça a mentalidade de que era preciso de permissão para filmar… A mentalidade do governo de Mubarak. Conversamos com ele e acabamos todos rindo desta situação no final. Sinal de mudança!”

Sobre a condição de seu personagem, que vive em uma espécie de apartheid em sua própria cidade, o diretor explicou que há de fato um muro que separa a comunidade vizinha às Pirâmides. “Este muro foi construído como forma de ‘proteger’ as relíquias históricas. E nos últimos dez anos há uma grande campanha para expulsar a comunidade do lado das pirâmides. Isso para proteger os turistas… É fácil entender o porquê disso. Ali é uma terra muito valorizada, perfeita para construir hotéis”, declarou xcxc.

Para diretor e equipe, After the Battle é sobre um homem que quer recuperar sua dignidade. E sobre uma mulher que quer encontrar seu lugar em uma sociedade que esta se transformando. “Assim como a sociedade, o cinema egípcio está se transformando e ficando mais livre para que possamos tratar de temas assim. O problema hoje é que, por conta dos problemas, o mercado diminuiu muito. Mas cada vez mais o cinema está tentando quebrar os tabus. E é só assim que se muda algo. Você não vai ver um filme que faz você se sentir preso. E este é o grande ponto de mudança do cinema do Oriente médio. Sobre a expectativa da equipe para o futuro político e social do Egito, a atriz Menna Chalaby foi categórica: “Há muitos egípcios que ainda não estão acostumados com a democracia. O que esperar do novo presidente? “Não podemos esperar nada de presidente nenhum. A gente espera que ele deixe as pessoas viverem, que todas as classes, A , B, C, possam viver bem e em paz.”.

 

 

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