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Da ZL à Londres, passando pela USP e pela Bolívia, a moda está em toda parte.

Flavia Guerra

20 de fevereiro de 2011 | 13h37

Depois da ‘periférica’ Lea T. ter se tornado ‘main stream’ mundial na semana passada com a entrevista que deu à Oprah Winfrey, ouvi pelos corredores da redação do Estado a cobrança mais que justa: “Mas e Itaquera, Flavia? Você pode passar semanas no mundo fashion, no Festival de Cannes, em Londres, mas não me vai esquecer Itaquera no seu blog, hem!”

Pois bem. Fato. Antes de dar um rolê pelo fundão, lembro que a London Fashion Week está a pleno vapor. E que amanhã desfila a Issa, grife fundada pela ‘da perifa global brasileira de Niterói’ Daniella Helayel e que acabou por ganhar as capas de todas as revistas fashion do mundo no ano passado por criar o vestido de noivado de Kate Middleton. É amanhã que desfila a tradicionalíssima Burberry, que hoje consegue fazer o que há de mais moderno no mundo da ‘fast fashion’ e ainda manter sua tradição tão secular quanto a realeza e vender quase em tempo real via internet as mesmas peças que desfilou há pouco na passarela.

É a Burberry que em breve irá abrir uma loja no Brasil e trazer oficialmente para este mercado, que até pouco tempo era perifa no mundo da moda, seus indefectíveis xadrezes. Quem nunca viu um autêntico guarda-chuva sendo vendido na porta do metrô, ou no farol, ‘igualzinho ao da Burberry’ deve ter passado o último século com medo da chuva e não saiu de casa.

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Naomi Campbell e moda na ZL

Enquanto isso, no meu rolê pela Zona Leste neste fim de semana, qual não foi minha surpresa em descobrir que meus sonhos de uma perifa mais engajada estão se tornando realidade! Para começar, a ZL já tem curso de moda! Quer dizer, indústria têxtil e moda na USP Leste. Eu mesma já fui a uma palestra da ‘famigerada’ Naomi Campbell no Campus Leste. Para quem um dia já gastou duas horas para ir e outras três para voltar da ECA – USP, uma USP Leste é algo assim indescritível.

Naomi tinha ido ao campus conversar com os alunos sobre o quanto moda é uma indústria que gera milhões de empregos no mundo todo ano, sobre o quanto a cadeia fashion no mundo está conectada. Sobre como quando uma jovem chinesa produz a preços módicos (para não dizer outra coisa) uma blusinha que vai parar na Oxford Street de Londres ela está, na verdade, contribuindo para a revolução da cadeia produtiva da moda de todo o mundo.

MADE IN BOM RETIRO/ BOLíVIA

Será que os bolivianos que têm cada vez mais mudado a cara da ZL teriam gostado de assistir à palestra da Naomi? Será que, quando eles costuram peças a preços e salários módicos (para não dizer outra coisa) nas fábricas do Bom Retiro lembram que muitas vezes estas roupas são ‘inspiradas’ nas que Naomi já desfilou na London Fashion Week? E quem compra as ‘roupas genéricas’ lembra que muitas destas fábricas são hoje administradas pelos chineses? Será que quem gasta muito na Oxford Street, na Zé Paulino ou na Oscar Freire se lembra de olhar a etiqueta e comprovar que Bangladesh, China e Bolívia estão mudando toda a ‘cadeia alimentar da moda globalizada’?

Disso não sei. Tem gente que acha que moda é fútil. Tem gente que sabe que moda é indústria. Cultural, comportamental, social e, principalmente, econômica.
O que sei é que os bolivianos da ZL ganharam uma página inteira no Jornal da Comunidade de Ermelino Matarazzo. Opa, jornal o que? É….. Eu, nos meus tempos de EastEnd (A ZL descolada londrina) queria morrer de inveja quando o Eastend News aparecia embaixo da porta do meu Council Flat. Um jornal feito pela e para a comunidade, que tratava de temas ‘simplórios’ como a criação de um centro recreativo, mais creches para as mães e crianças londrinas, mais seguranças, cursos profissionalizantes, mais investimentos para a Whitechappel University e, pasmen!, mais investimentos para a Fashion Street.

A Fashion Street de fashion (no sentido shopping Iguatemi do termo) não tem nada. Está mais para uma mistura de 25 de março com São Caetano dos tecidos ultra-brilhosos que as indianas e paquistanesas adoram usar. Mas para um estilista jovem de carreira que sabe que a alma do negócio é transformar, reciclar, reinventar, a Fashion Street é uma Disneylândia.

O quéchua é tendência

Bom, por falar em parque de diversões, a vida não anda divertida para a comunidade boliviana de São Paulo. Na página do Voz da Comunidade, eles, em espanhol! (igualzinho aos paquistaneses do EastEnd) pediam menos discriminação, mais direitos para as crianças bolivianas. Crianças estas que muitas vezes eles têm de levar para os galpões do Bonra porque não têm creche onde deixar. Em contrapartida, prometem que vão criar o Centro Hispano, com aulas de português (vai ter muito paulistano que vai mesmo precisar), espanhol (idem), quéchua (esta eu vou me inscrever!), orientação para documentação, artesanato, encontros culturais. Tudo grátis.

QUER UMA UNIVERSIDADE FEDERAL DA ZL? Que tenha curso de moda? Liga para o Kassab djá!

Enquanto isso, dia 26 de Fevereiro tem encontro na Igreja São Francisco de Assis em Ermelino pra reivindicar a UNIVERSIDADE FEDERAL DA ZONA LESTE. E diz: “Ligue para o prefeito Kassab pedindo que compre o terreno para a Universidade. O fone do prefeito é 3113.8000”

Ah, meus amigos leitores, para quem há não muitos posts reivindicou uma postura mais ativa e altiva dos ‘zelenses de todo o Brasil’, minha alma fashion periférica se delicia com o Voz da Comunidade.

Vou acompanhar mais as notícias da Voz da Comunidade. E vos digo: O sertão, a Perifa, e a moda, estão em toda parte!

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