Carta aberta a Ugo Giorgetti. Ou ‘Filmes de (e sobre) futebol’ são bons ou não?
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Carta aberta a Ugo Giorgetti. Ou ‘Filmes de (e sobre) futebol’ são bons ou não?

Flavia Guerra

12 de novembro de 2010 | 23h51

Preleção:

Então. O querido Ugo Giorgetti escreveu em sua última crônica de domingo do caderno de Esportes do Estadão uma espécie de carta aberta à declaração de um certo Mr. Parker a um jornalista, na qual dizia, durante um almoço com William (o capitão do Corinthians), que filme de (e sobre) futebol em geral não é bom. “Porque futebol funciona ao vivo e na TV.”

Bola em Jogo e Ataque

E Ugo, bom diretor de ótimos filmes de (e sobre) futebol, Boleiros 1 e 2, respondeu: “Filme de futebol é bom sim, Mr. Parker.”
O tal do Mr. Parker era o Alan Parker, responsável por filmes que marcaram gerações. Não fui adolescente nos anos 70, mas assisti a The Wall umas 20 vezes e, como todo bom fã de Pink Floyd, sei todos os diálogos de cor e salteado.
O jornalista em questão era eu. A entrevista era para mim. E, como Ugo bem o diz, entrevistas são coisas rápidas, não há muito tempo para pensar. Tem-se que dizer tudo rápido. E só uma situação assim justificaria uma resposta tão equivocada de Parker.

Defesa

Ugo tem razão. Filme de futebol é bom sim porque futebol não se resume ao campo. Que o diga eu, que assisto Corinthians-Itaquera ficar cada dia mais solar diante da Copa que está por vir, com ou sem irregularidade no tal do terreno, aquele terreno devia ser da grande nação corintiana que não perde a fé nem diante de burocracias infinitas.

Mas, ao mesmo tempo, Parker também tem razão. Futebol é jogo orgânico, em que tudo acontece ali, na arena, num corner, no passe do goleiro. “Como cortar do kick off do goleiro para o atacante, dar uma panorâmica do campo e voltar pra o close de um gol?”, perguntou-me Parker comparando o jogo que seus compatriotas britânicos inventaram e que os brasileiros, sem falsa modestia, melhoraram? “Baseball funcina no cinema. Porque as jogadas são bem marcadas, perfeitas para a montagem. Boxe é como um palco, há o plano, o contra-plano, o close-up… Já o futebol é tão mais ‘o todo’, em grandes proporções. A adrenalina de um jogo jamais será montada do mesmo jeito em que se pode ver ao vivo ou na TV, quando tudo é simultâneo.”
Matando a jogada

Mas aí é que está. Eu, no meio do campo, adoraria promover outro almoço entre Ugo e Parker e passar mais duas horas conversando sobre isso. Aliás, esta seria uma ótima mesa de discussões para a próxima Mostra de São Paulo. Eu seria a primeira a fazer minha lista de filmes que não têm, como diz o Ugo, o pitch (como os ingleses chamam o campo) mas sim ‘o mundo do futebol, a vida do jogador” como principal foco.

O que dizer, por exemplo, de Linha de Passe, de Walter Salles? A maneira como Walter filma a peneira no campinho do Aricanduva (terreno e terra arrasada por qual passei tantas vezes na infância) comoveu a plateia crítica de jornalistas do Festival de Cannes, que acordou cedo para ver, às 8h da matina, um garoto ver bater na trave a única chance de ascensão, e inclusão social, em um País chamado Brasil.

A cidade era São Paulo. E poucas vezes senti a sensação tão nítida de que “alguém estava espiando a bagunça da minha casa pelo buraco da fechadura.” Ah… as peneiras da vida.

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