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Cão nosso de cada dia. Ou “Cachorro. Comer ou não comer? Eis a questão.”

Flavia Guerra

03 de janeiro de 2012 | 15h58

 

 

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Feijoada completa e ensopado de cachorro. Qual a real diferença?

 

Vietnã, Hoa Binh Province

Então eis que a linda Ly, atriz e coach dos atores do curta-metragem que estamos rodando no Vietnã, me diz com a maior naturalidade: “Carne de cachorro não é boa pela consistência. Porque é normal. Parece carne de porco e de frango. Mas sim pelos temperos. É tão bem temperada que fica uma delícia.”

Confesso que para uma ocidental que nem mesmo carne de vaca come (apesar de achar a vaca tão ‘humana’ quanto os cachorros), ouvir tal comentário enquanto os criadores de cachorros locais tiravam vários de uma gaiola grande em que são transportados para gaiolas menores (em que são, em geral, transportados em motos) causa, no mínimo, estranheza.

A linda Ly ali, exibindo sua delicada beleza asiática ao mesmo tempo que discorria sobre os temperos usados para deixar um autêntico vira-latas com gostinho da fazenda… Nem mesmo o mais cosmopolita dos ocidentais fica indiferente ao costume asiático (sim, porque na China e na Coreia cachorro também é iguaria muito apreciada) de criar cachorros feito galinhas (quanta crueldade, não?), sem ter ‘vida de bicho sadia’ (qualquer semelhança com o Chester é mera coincidência) e nem mesmo ter o cuidado de não causar ferimentos no transporte.

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No Vietnão, cachorro de rua não vira sabão. Vai para a panela.

Esmilinguidos, raquiticos, com pulgas, conjuntivite, ferimentos e um olhar triste de não ter jeito, os cãezinhos pele e osso me faziam pensar: Mas que bife sai deste ser tão franzinho?

“Bife não sai, mas pata de cachorro é uma delícia… e tem as costelas…” Eis que enquanto Ly comentava as práticas, uivos de dor dos cães que eram retirados da gaiola com um enforcador me sufocavam. Mas o que mais me sufocava mesmo era o olhar melancólico e resignado dos cachorros. Ao contrário dos pets, que são extremamente estimulados, mimados, escovados, valorizados e amados (às vezes, desculpem os que chamam os seus cães de ‘filhinho da mamãe’, até amados demais) os cães criados para serem abatidos são apáticos e tristes. Exibem uma resignãção digna de um louvável bode expiatório. Como se soubesse cumprir com dignidade sua sorte.

O curta O Caminhão do Meu Pai (nome provisório), que estamos filmando aqui, conta justamente a história de uma garotinha, May Vi, cujo pai transporta cachorros. A nossa pequena estrela mirim, uma linda menina de 10 anos cujo inglês fluente e perspicácia faz inveja ao ensino de linguas estrangeiras nas escolas públicas do Brasil, é contra comer cachorro. Disse ela hoje: “Meu pai come, mas eu não. Eu tenho um cão de estimação. Cães são família. Família a gente não come.”

Amanhã, Vi entra no set para filmar numa Dog Farm (a Fazenda de Cachorros) e vai ver pela primeira vez ‘membros da família’ pendurados, já ‘depenados’, prontinhos para defumar. A reação dela, conto também amanhã aqui.

É…. parafraseando Guimarães, cão e cães é questão de opiniães.

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