Boa vizinhança à inglesa
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Boa vizinhança à inglesa

Flavia Guerra

12 de abril de 2009 | 19h39

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Londres

Passados os G20, a saraivada de críticas que o prefeito Boris Johnson recebeu por ‘gastar dinheiro demais para receber um bando de bagunceiros e de políticos’, a capital inglesa parece ter voltado a seu ritmo normal. Ou quase. Em pleno feriado prolongado (além da Good Friday – a Sexta-feira Santa –, segunda-feira também é feriado. Feriado bancário, aliás), Londres se parece mais cenário de 28 Dias (filme de Danny Boyle em que a Inglaterra é tomada por uma peste e se torna um grande deserto habitado por zumbis).

Os que não voltaram para seus países natais, tentaram formar suas famílias postiças e organizar a bacalhoada (com bacalhau fresco, o Cod Fish). Em Londres, o bacalhau não vem com sal, mas a cabeça… a cabeça continua sendo um mistério. Mais difícil que encontrar uma cabeça de cod fish, parece ser entender como funciona a lei da boa vizinhança Londrina.
Pois bem, voltemos ao Carter House. Depois de conseguir negociar com o landlord 50%/50% do novo carpete, de, heroicamente convencer o mesmo a pregar uma maçaneta na porta do quarto (afinal, para que portas precisam de maçaneta?) e de conseguir um sofá (quase) novinho em folha no freecycle (aliás, esta maravilha da vida ‘internética’ que merecerá um post exclusivo em breve), a casa parece estar em paz, certo? Errado.
Estranhas pilhas voadoras que se atiram contra as janelas double-glazed (ou seja, com vidro duplo, para evitar arrombamentos), cebolas, pedaços de Madeira… Oferendas de boas-vindas do adolescentes Bengali que habitam as outras dezenas de pingeonholes (os buracos-de-pombo) do council building.
Clash cultural ou falta do que fazer? As desperate housemates do Carter House respiraram fundo e fingiram não ligar. Tudo em paz até que uma estaca de Madeira entra, sem querer, pelo letterbox (buraco das cartas) e lá fica. Um metro e vinte da mais pura boa vizinhança entalada na porta e na garganta da brasileira acostumada a receber bolo-de-cenoura como presente de boas vindas. “Vocês querem, por acaso, oferecer flores, mas não sabem como?”, pergunta a vizinha.

Entre reclamar com a polícia ou com o Bispo, a vizinha preferiu respirar fundo e esperar até o dia seguinte. De manhã, em vez de botar a raiva, resolveu botar o lixo para fora. “Vocês fizeram uma festa ontem?”, perguntou o vizinho. “Não. Não houve festa nenhuma, mas minha porta quase foi abaixo”, respondeu ela, enquanto tentava entender a lógica do lixo reciclável. Papelão pode. Saco de plástico, não. Enfim, o vizinho se adianta: “Nós sabemos, nós sabemos. E isso não vai acontecer mais. Esta é uma vizinhança amigável. Vocês podem ficar tranquilas.”
“Se este é o lado amigável da vizinhança, não me fale do lado não amigável.”
O vizinho promete que falaria com os garotos. “Você entende… Eles são crianças ainda. Vocês são novidade…”
Neste momento, a única lembrança que uma das ‘vizinhas novas no pedaço’ tem é a do avô dizendo: “Com 14 anos, eu trabalhava na roça e sustentava uma casa.”
Com 14 anos, os vizinhos do East End, perguntam se as vizinhas fumam, bebem e se querem comprar alguma mercadoria ‘no paralelo’.
“Thanks, but no thanks.”
Por ora, depois da ‘conversa’ com os ‘meninos’, não choveu mais ‘cats and dogs’ nem pilhas, cebolas e estacas de Madeira. Por ora, a paz reina no Carter House.
Falta só resolver ainda o vazamento da máquina de lavar e pagar a TV Licence (sim, na Inglaterra, paga-se imposto para ver TV).

To be continued…