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A morte pede passagem. E pede flores, cigarros e dinheiro queimado.

Flavia Guerra

29 de dezembro de 2011 | 14h56

Vietnã – Província de Dang Dinh

 

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Então, ontem também foi dia de filmar na província de Dang Dinh. Mais precisamente na Estrada do Cemitério da pequena província a leste de Hanoi. Mais precisamente  ainda, não era exatamente um cemitério. Só algumas poucas tumbas espalhadas em meio aos arrozais.  E a pequena Mai Vy, atriz do nosso pequeno-grande filme, que, aos 10 anos fala melhor inglês que muito marmanjo, me pergunta: “Vocês também têm isso no seu país?”

Tem o que, Vi? Arroz? “Não. Isso!”.  Isso o que? Plantações? “Não…Isso?” Isso o que? Tumbas? “É! Estas casas em que moram as pessoas que estão dormindo para sempre.”

Sim, Vi. A gente tem isso no Brasil também. Em todos os lugares as pessoas morrem. E a gente enterra, crema… Só não faz no meio da plantação… Mas a morte está em todo lugar.

A diferença é que aqui, e em toda Ásia, os mortos (que dormem neste mundo para acordar em outro), ganham mais presentes do que os vivos. Em toda casa, há um pequeno altar aos antepassados. Cultuados com carinho, ganham seus quitutes favoritos, frutas, bolinhos de arroz, incenso, e até cigarro. Mas melhor mesmo é que ganham dinheiro. É tradição das mais sérias por aqui literalmente queimar dinheiro (falto, claro) para os mortos fazerem bom uso dele lá do outro lado. E para que nunca falte aos deste lado aqui.

Diferente é também como se celebra (sim, deve-se celebrar sempre!) a partida de alguém. Hoje, enquanto filmávamos cenas do nosso caminhão (não por acaso, o filme se chama O Caminhão, que no próximo post explico mais), um funeral passou pela plantação, pelo cemitério e seguiu. O silêncio era quebrado por uma barulhenta harmonia que anunciava a passagem do cortejo. Em vez de preto, muita cor. De acordo com o grau de parentesco do morto, usa-se uma faixa colorida na cabeça. Os netos usam amarelo. Os amigos, branco.

E o ser que hoje virou antepassado era veterano de guerra. Os netos abriam o cortejo. Os amigos, todos devidamente fardados e lindos em sua nobreza, fechavam o desfile.

É… a vida e a morte são denomidores comuns. Mas cada um dá a ela a cor e o som de acordo. E fica de fato a sensação de que o que se leva desta vida é de fato a vida que a gente leva. Incluindo o funeral.

Amem!

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