A COR DO DESEJO – ou Colour Conundrum
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A COR DO DESEJO – ou Colour Conundrum

Flavia Guerra

06 de novembro de 2008 | 23h34

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Deu no The London Paper: Colour Conundrum

Conundrum: Uma questão difícil e complicada que só possui um resposta conjuntural

Londres

Color Conundrum. A notícia movimentou os jornais ingleses no mesmo dia em que o primeiro afro-americano foi eleito presidente dos Estados Unidos da América.

Filho de pai negro e mãe branca, Barack Obama mostra ao mundo que “yes, we can” misturar raças para formar de fato um mundo globalizado e multicultural. Ou não?

Colour Conundrum. Assim o The London Love, a seção de “Assuntos do Coração” do The London Paper, o jornal distribuído no metrô de Londres que todos amam odiar, resumia o resultado de recente pesquisa feita por um outro jornal, The Observer, este sim o jornal ‘para inglês culto ler’.
A pesquisa: O quão multiracial e plural é Londres quando o assunto são os lençóis?

O resultado: Pouco, muito pouco. Cerca de quatro em cada dez moradores de Londres nunca mantiveram relações sexuais com alguém de outra cor. 43% dos entrevistados afirmou “que tal idéia jamais passou por suas cabeças.”

Ou seja, uma das cidades mais multi-étnicas do mundo quando o assunto é a divisão das calçadas é uma das mais segregacionistas quando o assunto é a divisão do mesmo edredom.

Os jornais ingleses querem saber: É racismo sexual ou só as leis da atração em funcionamento?

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Lewis Hamilton e a namorada ‘Pussycat Doll’ Nicole Scherzinger

Pergunte a Lewis Hamilton, o jovem inglês que virou herói de uma Inglaterra que ultimamente anda tão melancólica quanto as tardes de outono. Primeiro negro a se tornar campeão da Fórmula 1, um dos mais amados esportes da Brittania, Hamilon virou assunto de mesa de bar com a mesma desenvoltura que a queda-da-bolsa e os jogos do Chelsea. “É muito emblemático ter um negro vencendo o campeonato de um esporte que sempre foi tão elitista. É para mostrar ao mundo que a Inglaterra é um país multi-étnico”, analisava o designer gráfico de Brighton no vagão da linha Central do metrô na segunda-feira.

Em tempos em que mais vale um bom marketing na mão que as ações da bolsa despencando, a igualdade é verde e carrega a insígnia “In God we Trust’.

De volta ao impasse colorido, os especialistas ouvidos tentaram explicar. Mas, pelos menos se é para brasileiro ler, a explicação deixou um gosto de ‘contra outra’ no ar. Para inglês se convencer, a emenda ao soneto de incompatibilidade foi:

“Nós somos atraídos por aqueles que são como nós, que têm nosso biotipo, características, até mesmo por alguém que usa nossas cores preferidas. Portanto, não é de se surpreender que sempre nos atraímos por pessoas da mesma origem étnica que a nossa”, afirmou a ‘especilista em relacionamentos’ Louise Van Der Velde.

Talvez Louise não conheça muito bem a árvore genealógica de Obama. Talvez ela nunca tenha ouvido falar da tão apregoada mestiçagem brasileira. Mas o fato é que a explicação encontra eco nos corações e mentes de muitos ingleses. “Eu até tenho amigos de outras raças, mas para namorar quero alguém com minha cultura e meus valores”, afirmou uma leitora inglesa.

A ‘autora aqui’ quer saber: Desde quando ‘valores para namorar’ são a mesma coisa que ‘regras da atração’? “Desde que relacionamentos passaram a ser vistos como investimento e não algo espontâneo. A busca de um parceiro se torna mais desafiadora quando nós olhamos fora do nosso grupo étnico”, contrapôs a psicóloga Donna Dawson.

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O ‘novo presidente’ Obama e seus avós maternos

E a mestiçagem brasileira? Será a exceção que confirma a tal da regra da atração? Será que Dawson e Van Der Velde deveriam dar um passeio por São Paulo e almoçar na casa de uma das tantas famílias mezzo italianas/mezzo japonesas, cujos filhos e netos já estão dando frutos mezzo baianos/mezzo paulistanos?

O Brasil está anos luz de ser o tal do país sem racismo em cujos lares reina a paz racial e a igualdade. Mas há que se admitir. É um país multicolorido muito antes que o mundo se tornasse multifacetado. Por isso, Dawson, que “gostaria que os jovens ingleses se misturassem mais” não desconsidera a possibilidade de ‘dar um rolê pela Bahia”. E descobrir que brasileiro, para o bem e para o mal (e com todo racismo nas entrelinhas que tais eufemismos carregam), pode ser chocolate, pardo, jambo, marrom, marronzinho, café-com-leite, negro, negão, neguinho, negro…

“Acredito que o mundo se tornou um lugar menor em todos os sentidos, onde as raças se encontram e se misturam mais”, conclui Dawson.

Ou não. Fica o conundrum: O que será que Obama acharia disso?

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