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LEA T. – Nome de Mulher

Flavia Guerra

23 de janeiro de 2011 | 23h35

Prólogo:

Retomando as atividades deste blog que há tempos hibernava, resolvi postar aqui a íntegra da entrevista que Lea T. me concedeu na última sexta-feira. Aliás, nós duas, após longas duas horas de conversa, que passaram voando!, chegamos à conclusão: não foi uma entrevista ‘tecnicamente’ falando, mas foi um bete-papo muito bom, daqueles que fazem com que a gente se relembre porque adora ser jornalista.

É pena que o jornal impresso (Lea foi capa do  Caderno 2 do Estadão: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110124/not_imp670193,0.php#noticia) tenha a limitação do papel. Por conta disso, temos sempre que lembrar que ‘escrever é cortar palavras’ e enxugar, enxugar, enxugar.

Mas, como o online nos permite maravilhas como ‘poder dizer tudo sem ter de pensar nos caracteres’ (contanto que os pobres leitores consigam ler tudo até o fim), segue a íntegra do bate-papo, no qual falamos de tudo, inclusive de moda.

 

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LEA T. – Nome de Mulher

Vale lembrar que Lea foi convidada para ser entrevistada por Oprah Winfrey e que a entrevista deve ir ao ar em fevereiro. Durante nossa conversa, quando contava o caso de um operário transexual que, após sofrer constantes humilhações, tentou chamar atenção para sua situação e se cortou (e quase morreu), em plena linha de montagem de uma fábrica na Itália, Lea disse: “São pessoas como ele, que sofrem este extremo de violência, que devem ser entrevistados pela Oprah.”

Entendo. Mas discordo. Acho que Lea tem muito a dizer.

A ver:

 

Sua vida mudou muito neste último ano?
Depende. Em questão de trabalho, está uma loucura. Não paro um segundo. Não estou acostumada a tanta correria. É ótimo, mas exaustivo. Mas, ao mesmo tempo, sou a mesma Lea e continuo enfrentando os mesmo preconceitos na rua. Até quando eu vou comprar um leite no supermercado sou alvo de preconceito.

 

Mesmo depois de uma capa na Vanity Fair, da entrevista para a Oprah, da Vogue?
Mesmo. Mudar a cabeça das pessoas leva tempo. Hipocrisia é algo que se arraiga e é duro de tirar. O mundo da moda já se abriu muito, mas o dia a dia é outra história. Na semana passada, em pleno metrô de Milão, um cara começou a gritar comigo e a falar os maiores absurdos para mim só porque viu que eu sou transexual. Disse que gente como eu tem tudo que morrer. Desliguei o telefone e fiquei ouvindo, quieta, porque aprendi a não revidar, apesar de sempre me sentir fragilizada nestes momentos. O que mais me surpreendeu é que, além de niguém ter me defendido, depois que ele saiu do trem, ninguém veio perguntar se eu estava bem. Depois disso, não consigo mais andar de metrô.

 

O que na moda mudou e o que ainda é igual?
O que mudou é que o Riccardo ajudou a mim e a tantos outros transexuais (mulheres também) a calar a boca de muita gente. A nos por no mapa da alta moda. O que continua o mesmo é que, mesmo tendo um agente incrível (Piero Piaccell, que já representou Carla Bruni, Kate Moss, Naomi Campbell) ainda há muitos trabalhos que não consigo, castings que nem chego a fazer porque são ‘só para mulheres’.

 

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   Lea ganhou perfil na Vanity Fair Itália.

Nunca foi modelo masculino?
Fui! Mas eu chegava nos testes e me diziam: este casting é só para homem! E sempre fui magrinho, de cabelão. Fazia o tipo índio hippie anos 70, sabe? As roupas ficavam grandes para mim… Aí, decidi cortar o cabelo para ficar mais masculino. Piorou. Fiquei com cara de mocinha Jackson Five.

Você nunca pensou em estudar moda? Aliás, estudou veterinária?
Ah, esta é uma longa história. Eu queria, mas nunca estudei veterinária. Na verdade, quando saí de Gênova, aos 17 anos, fui para Firenze estudar artes. Quando ia entrar na Accademia, desisti e fui para Milão para tentar entrar na Brera (prestigiado colégio de artes e design), mas aí fui me embrenhando pela moda e fiquei. Ainda não sei se vou estudar moda depois que esta fase modelo passar.
Vai passar ?
Ah, claro. Uma porque já estou velha, já tenho 30 anos. Duas porque quero tentar outros projetos. E estou pensando em atuar mais na educação, conscientização, orientação dos travestis e transexuais. Há uma entidade bacana aqui na Itália, sei de outra nos EUA. Quero analisar muito bem para ajudar outras transexuais a usar a cabeça e não só o corpo. A gente tem de ser respeitada como profissionais que podemos ser, médicas, advogadas…
Você conhece alguma transexual com uma carreira assim?
Pouquíssima. A diretora da Lâncome é transexual? Isso sim é um grande avanço! Mas em geral, ser prostituta é a reserva de mercado. Não há oportunidade. Sofri muito quando comecei a querer ser independente da minha família. Se andar na rua já é difícil, imagine arranjar um emprego! Sofri muito. Eu pensava: Meu Deus, o que vai ser de mim, não sou forte o suficiente para fazer programa, sou tímida romântica e ainda por cima acho um desaforo ser prostituta. Ser paga para fazer sexo com alguém que, no fundo, gosta de algo que é um fetiche, um problema para mim, é muita perversão. Quero alguém que goste de mim pelo que sou e não porque sou ‘diferente’.
Já encontrou este alguém? Tem namorado?
Não. Namoro é complicado, né? Que namorado vai me apresentar para a família? Sem contar que é tudo muito cedo ainda. Estou numa fase em que é como se eu estivesse renascendo. Para trocar de sexo, precisei primeiro aceitar quem sou, entender o que está acontecendo com meu corpo, fazer terapia… Não é a hora de me entregar, mas de me concentrar em mim. Quero ficar bonita para mim e não para conquistar os homens.

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Escolhida pelo amigo Riccardo Tisci, diretor criativo da Givenchy,

Lea passa a estrelar as campanhas da grife

Está mesmo decidida a mudar de sexo?
Sim. O processo é longo. A partir do momento em que damos entrada no processo, legalmente, precisamos fazer dois anos de terapia. Durante este tempo, vamos ao endocrinólogo, começamos a tomar hormônios femininos. Depois de dois é que a cirurgia é marcada. Mas no meu caso sempre foi tudo tão óbvio que a minha terapeuta antecipou o processo. Pedi oficialmente para fazer a intervenção cirúrgica no último dia 18. Vou marcá-la em março. E devo fazer a operção ainda neste ano. Depois, finalmente, vou poder trocar de nome. Aí sim tudo ficará mais fácil. Você não imagina o que já sofri nas alfândegas dos aeroportos por parecer mulher, ser brasileira (que para muitos ignorantes no exterior é sinônimo de prostituta) e ter nome de homem.
Já escolheu que nome terá? Lea mesmo?
Ainda não sei. Mudar o nome é a parte mais difícil do processo. A cirurgia, por mais que seja complicada, é mais simples. Mas cortar meu nome sim vai doer muito. Perder o nome com que me descobri como pessoa, com que minha mãe sempre me chamou, é simbólico e dolorido. Talvez me chame Lea, talvez Leandra. Estou pensando ainda.

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Na da revista britânica Love, que chega à bancas em fevereiro e que escolheu a

androginia como tema, Lea beija Kate Moss

Sua família está bem com sua decisão?
Sim. Claro que nunca é fácil, mas a gente não escolhe ser assim. Pense que eu tinha todos os bloqueios possíveis à minha frente: filha de jogador de futebol famoso, de uma família mineira e católica, de uma mãe que vai à Igreja todo domingo… Se eu pudesse nascer de novo, nascia homem e hétero. É muito mais fácil! Mas sou o que sou. Minha mãe quando soube, chorou, mas porque não quer me ver sofrer. Meu pai, já falei, foi maravilhoso. Minha irmã disse: Que novidade! Ainda bem que foi agora e não mais tarde. (risos).
O que você diria para famílias que encaram esta questão?
Diria que, aconteça o que acontecer, a família tem de apoiar. Se você vê que seu filho ou filha tem um comportamento diferente dos meninos e meninas, tem de entender, levar ao psicólogo, discutir a questão. Não adianta falar: Vai passar. Não vai.

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Você chegou a achar que com você ‘ia passar’?
Olha, diria que escondi de mim mesmo a minha sexualidade por muito tempo. Jamais passou pela minha cabeça que eu era homossexual. Ninguém tem culpa. A gente nasce assim. E comete uma grande violência contra si próprio cada vez que tenta se negar. Houve épocas em que eu aceitava ser homem. Andava com meus amigos, mas nunca me senti um deles. Eu vivia do lado das mulheres. Todo mundo via isso. Inclusive meu pai, que dizia que eu era feminino.

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O que você tem de feminino?
Tenho a sensibilidade. A gente nasce com a feminilidade. Tenho a vaidade, claro. Adoro me cuidar, comprar roupa, adoro por um vestido e me sentir sexy.
E que você tem de masculino?
De físico, tenho a ossatura grande, as mãos e os pés grandes, que não dá para disfarça, né? Sou alta, tenho 1,80m. Chamo mesmo atenção. De personalidade, tenho o lado moleque. Quando estou com amigos heteros, viro um menino, faço as brincadeiras mais toscas e masculinas possíveis. E quando perco a paciência também. Meus amigos brincam: Taí. É homem! (risos)

Seu lado masculino não odeia fazer depilação?
Claro! Odeio depilar, mas, como não posso ficar toda peluda, crio coragem e vou na sessão de depilação a laser. Odeio usar salto alto, não gosto de me maquiar, não gosto de fazer pé e mão. Mas tenho que fazer, né? Nesta semana fui ao salão de beleza depois de um ano! Liguei para contar para todos meus amigos. (risos). E odeio como os hormônios femininos fazem oscilar meu corpo e meu humor. Para ser mulher a gente tem que ser forte, né?
 

E você está se tornando uma mulher feliz?
Não vou mentir. Não sou feliz. Mas vou sempre tentar ser.

 

O que você gosta, e o que não gosta, na moda?
Gosto da criatividade, da ousadia. Não gosto arrogância. Muitas vezes tudo fica muito superficial e o interesse pelo ser humano é zero. Muita gente de moda se esquece que, no fim das contas, o que está fazendo é só uma roupa, que vai cobrir o corpo. Não se pode perder o senso da realidade.

  

 

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Lea em ensaio (aqui a foto entra editada) na Vogue francesa

Quais são seus estilistas favoritos?
Adoro a moda japonesa. Sou louca por Come des Garçons, Yamamoto, Watanabe.. E os belgas também. Magella, Mlsfl Ralph Seamkm. Dos franceses, adoro a Allaya, que tudo que faz, te faz sentir sexy.

O que você gosta de vestir?
Bom, não é preciso nem dizer que faço o estilo andrógino. Adoro blazer de homem, calça larga, bota redonda, formas desestruturadas, cortes absurdos. Espero que esta tendência andrógina da moda, que ganhou muita força graças à ousadia do Riccardo, não seja só ‘aparência’ nem só ‘modinha’. É a chance que temos de ir além, de discutir questões, de abrir espaço para outros. Se daqui a alguns anos, houver três, quatro tops transexuais no mercado, já vou me dar por satisfeita.

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