Violência nem um pouco gratuita

Estadão

23 de setembro de 2008 | 19h40

Michael Haneke

Meu primeiro contato com a obra do cineasta austríaco Michael Haneke foi traumática. Li uma bela matéria numa revista americana sobre ‘Funny Games’ (1997) e fiquei interessado em conhecer seu trabalho. Eu sabia que seu estilo era difícil, mas a matéria ressaltava o lado psicológico e violento do filme, e aquilo me chamou a atenção.

Pois bem, um dia entro numa locadora e vejo o DVD de ‘Funny Games’ à venda por um preço bom, algo em torno de R$ 15. Pensei: ‘é quase o preço da locação…’ Levei o filme para casa, arrumei um saco de pipocas e comecei a assisti-lo.

Fiquei revoltado. Odiei. A história, basicamente, era a seguinte: dois jovens bonitões e bem educados passam o filme inteiro torturando uma família sem nenhuma razão. Parecia um filme de terror com o roteiro escrito pelo Kafka. Perto do final, uma coisa me chamou a atenção: um dos torturadores olha para a câmera: ‘está bom para você ou devo continuar?’, ele pergunta.

Essa sutil meta-crítica aos filmes violentos dentro de um filme ultra-violento ficou na minha cabeça. Quando o filme terminou, de volta à realidade, fiquei revoltado. Voltei na locadora na mesma hora e pedi o dinheiro de volta. Disse que o filme era horrível, podre, nojento, péssimo. Eu queria o dinheiro de volta e pronto. Eles disseram que não podiam me devolver o dinheiro, mas que eu poderia trocar ‘Funny Games’ por outro DVD do mesmo valor. Peguei ‘Scarface’ na prateleira e fui embora.

No dia seguinte, não parei de pensar no filme. Fiquei lembrando de detalhes – não em razão do sadismo dos personagens, mas da complexidade da mensagem que o filme passava em várias cenas. Voltei na locadora e comprei o DVD novamente. A vendedora achou que eu era louco – talvez ela esteja certa.

Virei, claro, fã do Michael Haneke, um dos diretores mais inteligentes do cinema mundial atualmente. Não perdi mais seus filmes, e alguns cheguei a ver várias vezes: ‘Código Desconhecido’ (2000), ‘A Professora de Piano’ (2001), ‘Le Temps du Loup’ (2003), ‘Cachê’ (2005) e, agora, a versão americana de ‘Funny Games’ (US).

O filme é estranho porque é um remake feito exatamente pelo mesmo diretor. (Gus Van Sant fez isso com ‘Psicose’, mas aí era uma homenagem ao Hitchcock). ‘Funny Games US’ tem até as mesmas tomadas de câmera de ‘Funny Games’ (1997), com a diferença de que esta versão tem atores famosos (Tim Roth, Naomi Watts, Michael Pitt) e é falado em inglês. De qualquer maneira, não é um filme para qualquer um. Se você quiser se divertir no cinema, por favor não vá ver ‘Funny Games’. Agora, se você quiser um filme forte, que vai continuar na sua cabeça depois que terminar, aí pode ver esse ou alugar qualquer um do Michael Haneke. Não será uma experiência fácil – se quiser um filme fácil, há várias comédias românticas em cartaz.

(Parênteses: Fiquei com pena dos casaizinhos que vi no cinema, acho que eles devem ter comprado ingresso achando que era um filme de terror convencional. Não sou sádico, mas confesso que dei risada do rosto de terror deles quando as luzes se acenderam.)

Só mais uma coisa: em português o filme se chama ‘Violência Gratuita’, o que eu acho um absurdo. O filme não mostra violência gratuita; há uma razão para a violência do filme. E é óbvio que o diretor batizou o filme de maneira irônica (‘Funny Games’ = Jogos Divertidos), portanto eu acho que os tradutores deveriam respeitar esse desejo. Chamar ‘Funny Games’ de ‘Violência Gratuita’ é uma violência gratuita contra a intenção do diretor.

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