Vamos dar um tempo

Estadão

10 de março de 2008 | 19h36

Lembra daquela expressão ‘vamos dar um tempo?’ É mais ou menos da mesma época de ‘amizade colorida’ e ‘chocrível’ (uma mistura ridícula de chocante com incrível que virou moda durante, no máximo, uma semana). Pois para mim, ‘vamos dar um tempo’ hoje em dia teria outro sentido. Não seria mais aquele eufemismo para ‘vamos terminar o namoro’, como era nos longínquos anos 80. ‘Vamos dar um tempo’, hoje, poderia ser usado para dizer algo como ‘eu preciso do meu tempo’.

O tempo é o senhor da razão, dizia uma daquelas camisetas ridículas que o Collor usava. Mas o provérbio português é bom, convenhamos. Administrar o tempo é uma das coisas que nos toma mais tempo (com o perdão do trocadilho) à medida em que crescemos. As semanas passam mais rápido (e os fins de semana também, infelizmente), os meses correm, os anos voam. Nossos relógios biológicos funcionam de uma forma; nossos relógios sociais, de outra.

É por isso que precisamos ‘dar um tempo’ de vez em quando.. Não é nada contra nossas mulheres, elas nem sempre são as culpadas. Só às vezes. Mas geralmente é alguma coisa no trabalho, ou até mesmo uma exigência biológica do nosso organismo. O importante é ter um tempo para si, seja para ouvir um disco, ler um livro ou assistir a um jogo de futebol. Só isso. A solidão é um remédio duro, que só deve ser tomado em pequenas pílulas.

No mundo moderno, não são só os homens-bomba do Oriente Médio que explodem. Qualquer um pode perder a razão e surtar de vez em quando. Isso acontece porque às vezes sentimos que o mundo é uma ampulheta e nós estamos na parte de baixo, com a areia na altura do pescoço, quase soterrados. Precisamos de um minutinho para respirar fundo, levantar a ampulheta, virá-la ao contrário… e ver o processo começar, tudo de novo. Renascer, enfim.

Esse ‘tempo próprio’ não é nossa exclusividade, claro. As mulheres também merecem o seu, seja para conversar com as amigas ou para fazer sei lá o quê que as mulheres precisam fazer. Que o tempo é relativo, como dizia Einstein, já sabemos. O que falta é tempo para definirmos a nossa relação com ele.

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