Uma noite de jazz

Estadão

16 Março 2007 | 11h44

terence

Esta é para quem gosta de jazz: o trumpetista Terence Blanchard destruiu o Bourbon Street ontem à noite. Eu sabia que ele já havia tocado no lendário grupo Jazz Messengers (liderado pelo baterista Art Blakey) e que é o ‘trilheiro’ preferido do cineasta Spike Lee, então cheguei ao Bourbon, em Moema, com altas expectativas. Sempre fui um cara do rock, mas de uns tempos para cá comecei a ouvir muito jazz, a ponto de ficar obcecado pelo assunto. Acho que é a idade.

Ao chegar no Bourbon, prestei atenção (como sempre faço) no povo que frequenta shows de jazz. O público se divide em vários perfis: o velho careca de rabo-de-cavalo que fuma cigarrilhas cubanas e cita Rimbaud; a mulher superproduzida que acha que show de jazz é um bom lugar para arranjar marido; o jovem intelectual que devora os álbuns de Dizzy Gillespie e Charlie Parker e arrota arrogância na sala de aula da faculdade; e há, finalmente, os tipos (quase) normais que gostam de jazz e estavam lá para ver um supershow. Não vou nem dizer a qual categoria eu pertencia.

Você vê o grande jazzista pelo nível da banda que ele monta. Terence só convidou feras: o saxofonista Brice Winston (o sax tenor jogou um pouco para a platéia com riffs mais palatáveis e escalas um pouco previsíveis, mas detonou na balada inédita que vai estar no próximo disco do grupo), o baixista Derrick Hodge (brilhou nos momentos em que usava o instrumento de maneira mais percussiva, mas no resto da apresentação ficou um pouco apagado), o baterista Kendrick Scott (gênio, gênio!!!, o melhor em campo, ops, em palco) e o pianista Fábian Almazán (o cubano de mãos pequenas mostrou muito talento, apesar de o piano estar um pouco prejudicado pela house mix, ou seja, com o volume um pouco abaixo do resto da banda).

Terence Blanchard é um músico à parte. Ele sabe que é virtuoso, mas não abusa da velocidade o show inteiro. Detona apenas em alguns trechos, apenas para mostrar quem manda por ali. O bonito de ver um trumpetista genial é que ele expira a música de dentro do corpo, da alma, como alguém que se atira ladeira abaixo e breca no último minuto. Terence é de New Orleans, mas tocou intensamente como se fosse de Nova York. Seu fraseado é original e vibrante, até lembrando ecos dos grandes Miles Davis e Wynton Marsalis. Em alguns trechos, a música atingia níveis tão complexos e loucos que eu me lembrei do caos sonoro de ‘Bitche´s Brew’, obra-prima de Miles do início dos anos 70.

Saí de lá de queixo caído. E a noite ainda continuou numa divertida festa de aniversário no Loveland, cabaré pós-moderno na Vila Olímpia onde os vestidos can-can foram substituídos por jeans Diesel. No pequeno palco, uma banda de jazz com uma cantora interessante (visual pin-up, cheio de tatoos) e uma banda meio desanimada formada por velhos músicos. Eu devia ter ligado para o Terence Blanchard e convidado a fera para dar uma canja.