Uma iraniana rebelde e genial

Estadão

04 de janeiro de 2008 | 16h46

Marjane Satrapi

Já devidamente recuperado dos excessos de fim de ano (será?), até cogitei dar sequência ao post anterior e publicar outra foto de mulher seminua, mas desencanei. Sei que é verão, e tudo mais, mas agora é hora de falar de uma mulher mais bonita por dentro do que por fora.

Seu nome é Marjane Satrapi. E ela é genial.

Se você não acredita em mim, compre/leia ‘Persépolis’, a história em quadrinhos mais genial que já vi até hoje (bem, não foram muitas, não sou muito fã de HQs).

Eu já havia lido 2 dos 4 livros que compõem o HQ ‘iran-noir’ de Marjane Satrapi, mas agora a Cia. das Letras fez o favor de lançá-los todos juntos em uma única e bela edição. Aproveitei para devorá-los na praia, no fim de ano. O quê? Alguém lendo um HQ iraniano em preto e branco debaixo do sol de 40 graus do litoral norte de São Paulo? Pois é, tem louco pra tudo.

Repito: vale a pena ler as duas décadas de aventuras que essa iraniana narra nessa autobiografia bastante inusitada, principalmente em termos de formato. A trama traz uma espécie de fábula persa, numa linguagem simples e sofisticada ao mesmo tempo. Enfim, é algo que só dá para entender com o livro nas mãos.

A vida de Marjane é fascinante. Ela nasceu em Rasht, no Irã, em 1969, e viveu diversas fases da história do país. Como seus pais eram intelectuais de esquerda, estudou francês e aprendeu a combinar o amor pela cultura persa e o respeito pelos valores de liberdade ocidentais. Aos poucos, ela se rebela contra os exageros cada vez maiores de opressão do governo iraniano contra a população. Se alguém tem dúvidas quanto ao mal que um governo radical islâmico pode fazer ao seu povo, é só ler o livro de Marjane. E por favor não me venha dizer que ela é quem está errada. Marjane É iraniana; acho que deve saber um pouquinho mais que qualquer um de nós por aqui, que conhecemos esses regimes teocráticos somente das páginas dos jornais.

Em 1979, ela assistiu à derrubada do Xá, viu uma revolução popular que virou ditadura islâmica, viveu a guerra Irã X Iraque, fugiu para estudar na Áustria, virou punk, virou moradora de rua, voltou ao Irã, casou-se, separou-se, virou professora de aeróbica, aluna da faculdade de artes plásticas, se exilou na França. Além da incrível história de vida, Marjane tem um traço maravilhoso, que mistura uma espécie de expressionismo alemão/persa… numa história em quadrinhos convencional! É muito, muito legal.

O HQ virou animação no cinema, e passou no Festival de Cannes e aqui na Mostra de SP. Infelizmente, não consegui assistir até agora. Mas acho que estréia no início de fevereiro, então estarei lá. Será que Marjane vem para o lançamento? Adoraria conhecê-la, deve ser uma mulher interessantíssima. Imagina sentar para um bate-papo com ela regado a um bom caviar iraniano? Uau.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.