Uma entrevista com Branford Marsalis, um gênio do jazz

Estadão

19 de novembro de 2008 | 13h09

EFE/Leszek Szymanski

Assim como todo Beatlemaníaco tem seu Beatle favorito, todo fã de jazz tem o seu Marsalis favorito. Os mais puristas preferem o trumpetista Wynton, líder da sensacional Lincoln Center Jazz Orchestra; Os saudosistas lembram com carinho do piano do patriarca Ellis, professor de música de craques como Terence Blanchard e Harry Connick Jr.; Os fanáticos por estúdios admiram o jovem Delfeayo, engenheiro de som super-requisitado e trombonista que já tocou com Art Blakey e Ray Charles. Já os fãs de um dos saxofonistas mais talentosos da história do jazz gostam mesmo é de Branford. Eu também.

Depois ainda me perguntam se é bom ser jornalista: graças a minha profissão, tive a oportunidade de encontrar um dos meus ídolos para uma entrevista ontem à tarde. Branford Marsalis está no Brasil para uma apresentação gratuita, no Parque da Independência (Museu do Ipiranga), em São Paulo, no domingo, a partir das 15h. Ele divide o palco do Telefônica Open Jazz com a diva do soul Chaka Khan. Depois ainda tem gente que reclama de São Paulo: Em que outra cidade do Brasil teríamos um show desse nível… e ainda de graça?

Confesso que não segurei meu lado fã e levei dois discos para Branford autografar, ‘Eternal’ e ‘Braggtown’. Antes da entrevista, pudemos conversar um pouco e ele revelou ser um cara extremamente gente fina. Mostrou fotos dos três filhos (no celular), reclamou que ainda estava sofrendo com o jet lag e ainda elogiou os três mojitos degustados na noite anterior ao som de música cubana na casa noturna Azucar, no Itaim.

Durante a entrevista, veio a boa notícia: Branford Marsalis faria uma apresentação especial para a Telefônica naquela mesma noite, na Sala São Paulo. Você acha que eu consegui um convite? É lógico que sim.

Branford Marsalis toca com o mesmo grupo há dez anos, período relativamente longo, digamos, para relacionamentos jazzísticos. Ao vê-los ao vivo eu entendi por que Branford não abre mão de seus colegas: seu quarteto é fantástico. As melodias do pianista Joey Calderazzo são contrapontos perfeitos para o sax de Branford; O baixo de Eric Revis é preciso e profundo; o baterista Jeff ‘Tain’ Watts é simplesmente o melhor baterista que já vi tocar na vida. Não foi à toa que Branford o apresentou no palco como ‘o rei dos bateristas’, assim mesmo, em português.

O repertório da apresentação foi super variado, já que eles nem combinam o setlist antes do show. É tudo na hora, no palco, à moda dos tradicionais grupos de jazz dos anos 50 e 60, fruto de inspiração para qualquer Marsalis. Tocaram Thelonious Monk, músicas próprias… mas a minha favorita foi ‘Hope’. Durante a entrevista, disse a Branford que ‘Hope’ era uma das minhas músicas favoritas na vida. E ele começou a contar como ele nasceu: é uma composição do Joey (Calderazzo), foi inspirada na intensidade das baladas de John Coltrane, etc. E daí meu novo melhor amigo de infância me disse algo que me deixou super feliz: “Se você gosta tanto assim dessa música, a gente pode tocá-la hoje à noite”. Não acreditei, claro, porque achei que era apenas promessa para agradar um fã. Mas você acredita que ele tocou mesmo? Depois ainda me perguntam por que Branford é meu Marsalis favorito.

Aqui, o link para a matéria da TV Estadão.

A seguir, a entrevista:

Você já tocou com Sting, gravou o álbum de música clássica ‘Romances for Saxophone’, tem um grupo de jazz rap… você gosta mais da música de ontem, hoje ou amanhã?

Eu adoro tocar música clássica. E adoro tocar com minha banda. Também gosto dos outros projetos, mas é difícil achar tempo para tudo. Eu adoro tocar com o meu grupo de jazz rap Buckshot Le Fonque, temos um disco quase pronto e vamos tentar terminá-lo em breve.

Como surgiu a parceria e seu disco novo com o cantor Harry Connick Jr.?

Ele é um pouco mais jovem que eu e aprendeu piano com meu pai quando era criança, então conheço Harry desde que ele tinha 9 anos. Temos bastante contato porque ele lança seus discos pela minha gravadora. A idéia de fazer um disco juntos surgiu quando o baterista se machucou e ele não quis gravar nada novo sem a banda completa. Então Harry chegou para mim e disse: ‘e aí, vamos gravar um disco juntos?’ Eu disse OK.

Como nasceu o projeto ‘Musician’s Village’, que ajuda músicos em Nova Orleans?

A realidade é provavelmente parecida aqui no Brasil, porque vocês também têm muitos músicos. A natureza do nosso trabalho é difícil, por isso foi complicado para os músicos de Nova Orleans conseguir ajuda financeira para comprar casas depois que o furacão Katrina destruiu a cidade.

Como surgiu a idéia da turnê ‘Brasilianos’, em que você toca Villa-Lobos com a orquestra Philarmonia Brasileira?

Meu empresário chegou e disse ‘o que vc acha de tocar Villa-Lobos com músicos brasileiros?’ E eu disse: ótimo! Aprendi as músicas sozinho e só fui me encontrar com a orquestra Philarmonia Brasileira um dia antes do primeiro show. Ensaiamos durante sete horas e tocamos logo no dia seguinte. A turnê pelos Estados Unidos durou 6 semanas e foi uma temporada musical incrível. O maestro Gil Jardim disse ‘temos que fazer isso no Brasil’. Então é possível que a turnê venha para cá no ano que vem.

Quem são seus heróis no jazz?

Lester Young, Charlie Parker, Coleman Hawkins, John Coltrane, Stan Getz… A lista é longa.

A família Marsalis tem planos de tocar juntos novamente em breve?

Fizemos um disco em 2005 e uma turnê americana. Foi divertido, mas Wynton tem muitas obrigações como compositor e ainda tem que tomar conta da orquestra do Lincoln Center, eu tenho minha banda e minha gravadora, enfim, todo mundo está tocando outros projetos. Podemos nos reunir, mas agora não há nada planejado.

Qual será o estilo do seu próximo disco?

Eu nunca consigo definir o estilo dos meus álbuns. O próximo, que sai em março, deve ser o mais diferente que já fizemos porque ninguém sabe direito para onde a banda está indo. Batizei o disco de ‘Metamorphosen’, porque é um disco de transição. Quando ouvimos as músicas, percebemos que estamos numa fase de transição. Na verdade, não sabemos para onde ir porque estamos ouvindo muitas coisas diferentes.

Você foi corajoso ao regravar um clássico como ‘A Love Supreme’, de John Coltrane…

Não é bem assim… qual é a pior coisa que podia acontecer? Se você cometer um erro, alguém vai dizer que o disco é ruim, mas e daí? A vida continua. Não foi algo corajoso, mas fiquei surpreso com a reação de alguns músicos, que me disseram que regravar ‘A Love Supreme’ era corajoso porque era música sagrada. Eu pensei ‘corajoso?’ Música sagrada tem sido tocada há séculos e nunca ninguém disse nada. Será que essa música é tão sagrada que ninguém nunca mais vai poder tocá-la? Outros músicos já tocaram, mas não fizeram um bom trabalho. Acho que isso aumenta a pressão, quer dizer, a sensação de pressão, já que não existe uma pressão de verdade… por exemplo, se alguém diz ‘se você tocar errado você vai perder a sua casa’, isso é pressão. Eu não me importo com o que ‘eles’ dizem. Tocar a música bem e com o respeito que merece, essa foi a única pressão.

O que é o jazz para Branford Marsalis?

Art Blakey disse há muitos anos numa entrevista: se você tivesse que definir o jazz em uma palavra, qual seria? Ele disse: intensidade, intensidade, intensidade. Até nas baladas. Eu pensei: ‘até nas baladas?’ Depois de tocar ‘A Love Supreme’ eu entendi o que ele quis dizer. Agora, tocamos sempre com intensidade. Até nas baladas.

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