Uma dica cultural de um amigo meu

Estadão

09 de abril de 2010 | 14h00

Meu amigo Luiz Antonio me ligou para dar uma dica cultural para o fim de semana. Perguntei: ‘por que você não me manda um e-mail para eu ver o que é?’ Ele fez melhor: se ofereceu para escrever um texto. Como sei que ele tem ótimo gosto e ainda escreve super bem, compartilho aqui com você.

Grande Luiz! Nos vemos na peça. Qual é o melhor dia?

Abs, F.

Cabaré da Rrrraça: Spike Lee teria inveja
Luiz Antonio

A discussão sobre ‘arte engajada’ só acontece em um tipo de situacão: quando o objeto artístico é fraco e só o que sustenta sua existência é um discurso. Aí, sim, críticos aparecem aos montes dizendo que a arte deve ser livre, que não precisa passar mensagens e todas essas outras coisas a que estamos acostumados. Quando alguém observa a Guernica, de Pablo Picasso, não usa esses argumentos. Quando lê ‘As Vinhas da Ira’, de Steinbeck, também não. Quando ouve ‘Strange Fruit’ na voz de Bilie Holiday muito menos. E o mesmo acontece quando alguém assiste a uma peça do Bando de Teatro Olodum.

Em primeiro lugar, temos que lembrar que estamos falando de teatro. O teatro é o lugar para as pessoas pensarem. Mais que o cinema, muito mais que a televisão. Nos palcos, os questionamentos surgem de todas as formas. A política está lá, os relacionamentos, as ideologias. A grande maioria dos textos teatrais tratam de assuntos polêmicos de forma incisiva, cortante. E a questão do negro no Brasil é um desses temas tabus que o teatro deve tratar.

O Bando de Teatro Olodum é uma das principais companhias teatrais brasileiras. Como está fora do eixo Rio-São Paulo, não é tão badalada por aqui. É um grupo talentosíssimo, formado por uma equipe de dar inveja a quaquer companhia teatral. Já montaram mais de 20 peças, entre elas uma versão maravilhosa de ‘Sonho de uma noite de verão’, de Shakespeare, que ganhou o Prêmio Braskem em 2006. O Bando nasceu do Grupo Cultural Olodum em 1990, tendo à frente os mais que competentes diretores Marcio Meirelles e Chica Carelli.
Os atores e atrizes são espetaculares. Atores, com A maiúsculo- não modelinhos para enfeitar a novelinha juvenil. São todos negros e isso não é um detalhe. A música dos espetáculos é sempre forte e bem colocada. E as coreografias estão a cargo de ninguém menos do que Zebrinha, um dos maiores bailarinos e coreógrafos do nosso país (só para o leitor ter uma ideia, Zebrinha lecionou danças na Stadeliyk Conservatoriam en dans Academie te Arnhem, na Academie Internationale de Paris na França, no Project Studio em Munich e na Federatie Friy Tiyed na Bélgica e dividiu o palco com os maiores dançarinos do mundo).

Essa turma, ou melhor, esse Bando estará em São Paulo, no SESC Vila Mariana a partir deste final de semana. Oportunidade rara para ver seus espetáculos na terra da garôa.

A programação começa com Cabaré da Rrrrraça. Espetáculo inteligente e bem-humorado que trata a questão do negro no Brasil como poucas vezes se viu. Todos os estereótipos, todas as situações constrangedoras, está tudo lá. A peça tem cenas hilárias e faz pensar, dando porrada em todo mundo. Se Spike Lee vivesse nossa realidade e entendesse português, ia morrer de inveja. Ah, você acha que não existe racismo no Brasil? Garanto: você é quem mais deve ir.

Na próxima semana, tem ‘Ó paí, ó’, o sucesso “comercial” do Bando. Virou filme, série de televisão. Divertido, sem perder a crítica social, vale a pena nem que seja para você ver a ‘peça que deu origem à série’. Nas telas, ‘Ó paí, ó’ conta com Lázaro Ramos, um dos maiores atores brasileiros da atualidade. Ator que surgiu adivinhem onde? No Bando de Teatro Olodum.

Junto com ‘Ó paí, ó’, temos uma surpresa a mais. Será um final de semana especial, com a linda peça Áfricas. Uma simples peça infantil? As coreografias, o figurino, as músicas, os atores. A direção segura. Não, não é uma ‘pecinha’ infantil, não. Essa viagem pelo nosso passado, pela nossa herança africana e pelos vários países, reinos e diferenças culturais existentes na África é para crianças e adultos de todas as cores.
O Brasil esconde até hoje nossa herança negra e nossos heróis negros. Aqui em São Paulo temos a Avenida Rebouças, a Rua Teodoro Sampaio- e ninguém sabe que eles eram negros. O negro só pode ser destaque nos locais ‘reservados’ a ele: no carnaval, no samba, no futebol, na capoeira. O Teatro Experimental do Negro e Abdias do Nascimento tentaram mudar isso na década de 40 (mas você também provavelmente nunca ouviu falar deles). O Bando de Teatro Olodum está aqui em São Paulo e é hora de você conhecê-los.
Mas espere um segundo. De acordo com o raciocínio do meu primeiro parágrafo, nada disso que escrevi aqui valeria seu ingresso se as peças fossem fracas. E eu garanto: elas são absolutamente fantásticas. Vai lá, negão.

Bando do Teatro Olodum no SESC VILA MARIANA
Rua Pelotas, 141. Ingressos à venda em todas as unidades do SESC.
‘Cabaré da Rrrraça’: dias 9, 10 e 11 de abril
‘Ó paí, ó’: 16, 17 e 18 de abril
‘Áfricas’: 17 e 18 de abril

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