Uma câmera na mão, várias guerras na memória

Estadão

19 de agosto de 2009 | 10h00

Jon Alpert

Jon Alpert é um dos documentaristas mais premiados do mundo. Estou dizendo que ‘eu queria ser esse cara’ apenas retoricamente, porque eu nunca teria coragem para acompanhar guerras e conflitos como ele, de peito aberto e, na maioria das vezes, do lado de lá, ou seja, no mesmo campo de batalha que os inimigos dos Estados Unidos, os ‘bad guys’.

Alpert esteve em São Paulo para ministrar um curso na Academia Internacional de Cinema e para um projeto de documentário em Dourados, no Mato Grosso do Sul(detalhes abaixo). Alpert já ganhou três Primetime Emmy Awards, onze News & Documentary Emmy Awards e um National Emmy. Ele foi o único repórter a ganhar prêmios Emmy também por seu trabalho técnico como câmera e editor. Em 39 anos de carreira, Alpert realizou documentários para o canal PBS (rede pública dos EUA), NBC e HBO. Ele acumula várias ‘medalhas’: foi o primeiro repórter americano a entrar no Camboja depois da Guerra do Vietnã; o primeiro repórter de TV a entrar no Afeganistão; o único não-cubano a entrevistar Fidel Castro quando ‘El Comandante’ discursou na ONU. Da União Soviética, fez as primeiras reportagens sobre a Perestroika e a Glasnost de Gorbachev; estava na China durante o massacre na Praça da Paz Celestial; entre 1993 a 2002, foi o único repórter a entrevistar Saddam Hussein.

A seguir, depoimento que ele me deu durante uma entrevista para a TV Estadão. Se preferir ver o vídeo, clique aqui.

Índios em Dourados: culto suicida ou assassinatos em série?

Há 12 anos eu ouvi falar de um culto suicida de uma tribo indígena em Dourados, no Mato Grosso. Essas pessoas eram tão tristes que estavam cometendo suicídio, se enforcando. Enviei um amigo para investigar o assunto e ele disse: é verdade, os índios estão morrendo, estão enforcados em árvores. Mas não parece suicídio, parece assassinato porque eles estavam se enforcando sentados, pertinho do chão. Parecia que alguém estava matando os índios e simulando os enforcamentos. Na época, passei uma semana na reserva investigando o assunto. Semana passada eu voltei lá, porque ainda não estava claro o que havia acontecido. Não há mais enforcamentos, mas o índice de suicídios e assassinatos ainda é muito alto, há uma grande disputa pela terra entre índios e fazendeiros.

Filmando no campo de batalha

Nos velhos tempos, quando fui a guerras em que os Estados Unidos estavam envolvidos, geralmente eu estava do outro lado e os americanos estavam atirando em mim ou ajudando as pessoas que estavam atirando em mim. Por exemplo, na Nicarágua, eu estava com os Sandinistas, e os americanos estavam ajudando os Contras. Era uma sensação muito estranha, porque as bombas que estavam caindo sobre a minha cabeça haviam sido pagas com o dinheiro dos meus impostos. Na primeira Guerra do Golfo, entrei para a lista negra do governo por causa das minhas reportagens. Quando os bombardeios começaram, fui o único repórter a permanecer em Bagdá e filmei coisas que nem o governo do Iraque nem o governo dos Estados Unidos queriam que eu filmasse. E fiz isso de maneira independente, enquanto as bombas americanas estavam caindo. Na segunda Guerra do Golfo, muitos repórteres começaram a trabalhar com as tropas americanas, e eu nunca havia feito aquilo. Mas fiz um documentário chamado ‘Bagdá E.R.’, filmado dentro de uma sala de emergência de um hospital militar no Iraque. Se você leva um tiro na guerra, eles te levam para esse hospital. Há muitas amputações, muitas cenas fortes. Achei que o exército me impediria de filmar, mas eles foram muito compreensivos, fiquei surpreso. Então, pela minha experiência, é possível fazer um bom trabalho com ou sem o apoio do exército. Os solados respeitam meu trabalho. O problema foi o governo Bush, que tentou impedir a exibição do documentário. Eles chegaram a ligar para a HBO para tentar proibi-lo, mas a emissora rejeitou a pressão e o exibiu mesmo assim.

Documentários: O estilo ‘Michael Moore’

Acho que há espaço para documentários de todos os estilos, e esse é o estilo dele. É muito eficiente porque Michael Moore sabe como misturar entretenimento e propaganda. Seus filmes são perfeitos para pessoas que já tem uma ideia prévia sobre determinado assunto. Eu faço documentários para minha mãe, para gente que quer criar uma opinião a partir do zero. Tenho um estilo mais linear, não gosto de revelar ao público o que estou pensando. Quando fizemos o documentário sobre o Iraque, as pessoas não sabiam o que eu estava querendo dizer. Mas no final do filme o público entende como essa guerra é sangrenta, como é alto o preço que estamos pagando para estar lá. Bush escondeu tudo isso. Enfim, há vários estilos de documentários, cada um tem que descobrir o seu. Michael Moore só ganha mais dinheiro, só isso.

Iraque e Afeganistão: novos Vietnãs?

Essas guerras têm semelhanças e diferenças. Vietnã foi uma guerra de independência. Eles queriam ser livres da França, dos Estados Unidos. Iraque é um pouco diferente, mas uma coisa é igual: por que o exército mais poderoso do mundo foi vencido pelo Vietnã? Os americanos não gostam de admitir, mas nós perdemos aquela guerra. Fui o primeiro repórter de TV a visitar o Vietnã depois da guerra. Eu estava filmando em um campo de arroz, havia várias mulheres trabalhando. Para conseguir uma boa tomada, arregacei as calças e entrei na água. Logo depois, várias sanguessugas começaram a subir pela minha perna. Eu fiquei louco! Mas aquelas mulheres estavam tranqüilas, no meio do rio, como se nada estivesse acontecendo. Foi aí que percebi que elas estavam em casa, acostumadas com aquilo, e eu tinha vindo, sei lá, de Marte. Não era a minha casa. Eles estavam defendendo a terra deles, por isso eles nos venceram. O Afeganistão é um país que ninguém nunca dominou até hoje, desde o Alexandre, o Grande. Vieram os britânicos, os russos, e agora nós estamos lá. Se alguém quisesse ter uma bandeira para lutar essa guerra, deveria ser a defesa dos direitos universais das mulheres. Enquanto o Talibã estiver no poder, as mulheres nunca terão nenhum direito.

Fidel Castro: ‘Atencioso com a imprensa’
Fidel foi muito interessante, era um líder muito atencioso com a imprensa. Se você pedisse para ver o quarto dele, era permitido. Se você quisesse tomar uma cerveja com ele, tudo bem. Ele faria qualquer coisa para ser simpático. Gostei muito de ter essas experiências com ele.

China: Praça da Paz (e Guerra) Celestial

Quando todo mundo estava na praça da paz celestial, nós estávamos no sul da China, em Guantxô, Shanghai. Éramos as únicas câmeras nesses lugares. Em Shanghai, as pessoas dominaram totalmente a cidade. Vimos o governo lutando para retomar o controle, era possível ver as pessoas sendo agredidas e assassinadas nas ruas. Durante pelo menos uma semana, o futuro da China ficou por um fio: poderia tanto ir para o lado do governo quanto o dos manifestantes, foi muito impressionante.


União Soviética desunida

Foi uma época muito interessante porque era possível sentir a mudança no ar. Um sistema que estava em vigor há 60 anos ficou de cabeça para baixo em pouquíssimo tempo. As pessoas estavam muito empolgadas, pensavam que a vida teria novas oportunidades. Hoje é uma situação diferente, há um controle de novo, agora exercido por Putin. Na época, me lembrava os Estados Unidos dos anos 60, quando os jovens achavam que era possível mudar o mundo.

O início em Nova York

Criamos a DCTV em 1972 e tínhamos apenas uma câmera. Queríamos apenas melhorar a vida no nosso bairro. Tínhamos problemas com escolas, hospitais, desemprego. Começamos a fazer documentários sobre esses assuntos para chamar a atenção das pessoas e tentar resolvê-los. Isso era antes da TV a cabo, da internet… Então você imagina que faz um bom tempo. Eu tinha um caminhão com dois monitores de TV do lado de fora e ficava exibindo os nossos filmes. As pessoas começaram a discutir esses temas, a conversar, então usamos isso como forma de organizar a sociedade. Hoje nem sei quantas câmeras temos. A equipe tem cerca de 40 pessoas, mais 250 alunos no programa de estudantes. Também temos estágios, se alguém quiser vir a Nova York para trabalhar conosco na DCTV. Temos sete alunos de São Paulo. Basicamente, ainda fazemos a mesma coisa, mas numa escala um pouco maior.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.