Uma aula sobre o tempo

Estadão

03 de julho de 2008 | 12h11

Roth

Acabo de ler mais uma aula de literatura apresentada pelo professor Philip Roth: ‘Fantasma Sai de Cena’ conta mais uma vez com o alter-ego do escritor, Nathan Zuckerman. Personagem de nove livros de Roth, ele é mais que um alter-ego, na minha opinião. Quem já leu muitos livros percebe que é praticamente biográfico, o que faz de Roth o autor mais cruel surgido nos últimos tempos – e, detalhe, cruel com ele mesmo, vamos deixar claro.

O Zuckerman de ‘Fantasma Sai de Cena’ sofre de incontinência urinária, é impotente, se apaixona de maneira frustrante por garotas mais jovens. Não é possível afirmar se isso acontece com Roth na vida real, já que muito pouco se sabe sobre o escritor americano. O que sabemos, no entanto, é que Zuckerman é judeu (como Roth), é um escritor profissional e bem sucedido (como Roth) que vive isolado e protegido por seu desprezo pela imprensa (como Roth). O resto são suposições.

‘Fantasma Sai de Cena’ deve ser o último livro ‘estrelado’ por Zuckerman, segundo o próprio Roth. A história traz o protagonista de volta a Nova York depois de onze anos de exílio nas montanhas da Nova Inglaterra, com sutis referências aos ataques de 11 de setembro. É um livro sobre reencontros e decepções provocadas pela inevitabilidade da velhice. Ao voltar à cidade que amava, Zuckerman reencontra a ex-amante do escritor E.I. Lonoff, que foi seu mestre (seria uma referência a Saul Bellow?) – a então bela jovem passou por uma cirurgia delicada e agora é a decadência em pessoa; Zuckerman reencontra a obra desse mesmo escritor ao mesmo tempo em que se depara com um jovem biógrafo que o persegue atrás de informações sobre o velho mestre; e finalmente reencontra uma ex-aluna por quem era atraído e percebe que essa atração se transforma em paixão inatingível. Na verdade, talvez seja a proximidade da morte que o faz confundir atração pela beleza com amor.

“Os velhos detestam os jovens? Eles sentem inveja e ódio dos jovens? E por que não? (…) É como se na presença dessa moça houvesse esperança”, pensa Zuckerman/Roth.

São relações estranhas, sujas pelo tempo, repetições da vida que parecem mais farsas do que verdades absolutas. Mas o interessante é que os personagens (como nós, na verdade) não vemos tais situações como farsas quando estamos ‘dentro’ delas… Elas nos parecem invariavelmente reais e sinceras, ou seja, é preciso um grande escritor para mostrar as coisas como são/não são. E Roth conta isso de maneira tão lógica, tão cerebral e, novamente, tão bela e cruel, que não nos resta nada a não ser fechar o livro, respirar fundo e bater palmas. O maior escritor vivo acertou mais uma vez sua flecha… Pena que o alvo é, mais uma vez, a nossa própria existência.

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