Um simples jogo de par ou ímpar

Estadão

18 de dezembro de 2009 | 16h36

Como a maioria dos homens, só me lembro que existe algo chamado ‘par ou ímpar’ quando estou disputando uma partida de futebol e alguém precisa decidir quem vai dar o pontapé inicial. Confesso que não tenho jogado muita bola (infelizmente), por isso, de uns tempos para cá, descobri que esse tradicional joguinho tem outra aplicação, bem mais abstrata: ele pode ser usado como metáfora do comportamento humano.

Sim, é isso mesmo que você leu. Não estou viajando, mas antes que você me acuse de ser o cara mais ‘cabeça’ do mundo, vou tentar explicar o que isso quer dizer.

Outro dia, só para variar, eu estava com dois amigos tomando uma cerveja na Vila Madalena. Um deles é um solteiro convicto; o outro é recém-separado. É claro que rolou a tradicional discussão sobre casamento, namoradas, etc. E aí o solteiro perguntou ao separado se ele já estava namorando alguém. Meu amigo respondeu que sim. E o solteiro retrucou, com sarcasmo: “Eu sabia, você tem isso no sangue”. Antes de perguntar o que ‘isso’ queria dizer, me veio à cabeça a ideia de que algumas pessoas têm, sim, ‘isso’ no sangue. E outras, não.

Acho que meu amigo solteiro quis dizer que algumas pessoas foram feitas para viver acompanhadas, enquanto outras se dão melhor em um estado de solidão consciente. A partir disso, imaginei que o mundo poderia ser dividido em pessoas ‘par’ e pessoas ‘ímpar’.

Pessoas ‘par’ não conseguem viver sozinhas. Precisam de alguém para se sentirem completas. Mal saem de um relacionamento, engatam outro, automaticamente. Dormir sozinho? Pesadelo na certa. Elas têm ‘isso’ no sangue, uma necessidade incontrolável de viver a dois.

Já as pessoas ‘ímpar’ não precisam de ninguém: elas se bastam. Algumas tentam viver acompanhados, mas desistem. Talvez seja falta de paciência, talvez seja apenas incapacidade de compartilhar a vida. A longo prazo, só aguentam a si mesmas.

Para o bem da humanidade, é bom que exista um número maior de ‘pares’ do que de ‘ímpares’, até porque isso garante a nossa preservação como espécie. Mas na prática temos que respeitar as decisões das pessoas. E eu arriscaria dizer que há uma outra metáfora aí: no par ou ímpar, assim como nos relacionamentos, nunca sabemos como o outro vai jogar.

Ganhar ou perder não depende só de você ou do outro ‘jogador’. E é aí que a metáfora sobre o comportamento humano faz mais sentido: o resultado (no jogo, no relacionamento) depende da soma dos números que os jogadores colocam, certo? Ou seja, não importa se você é par ou ímpar… o jogo só existe quando há dois jogadores.

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