Apenas um rockstar da literatura

Estadão

02 de setembro de 2008 | 17h55

Paul Auster

Não estou dizendo que gostaria de ser Paul Auster porque ele é o maior escritor do mundo. Longe disso, aliás. Ele é apenas um escritor médio, na minha modesta opinião. Mas isso não me impede de querer ser Paul Auster. Afinal, Paul Auster é um rockstar da literatura.

Acabo de ler ‘Homem no Escuro’, que saiu por aqui pela Cia. das Letras. É um livro que tem bons momentos, mas no geral é mais uma prova de que Paul Auster é um dos escritores mais superestimados da atualidade.

Embora as histórias corram de maneira, digamos, paralela, dá para dizer que há duas tramas em ‘Homem no Escuro’. O livro começa bem, com uma idéia que até me lembrou Borges e seus eternos labirintos formados por palavras.

Um homem (crítico literário, pra variar, já que os personagens de Auster são sempre ligados à literatura) não consegue dormir de jeito nenhum. Em vez de contar carneirinhos, ele começa então a imaginar histórias e personagens.

Daí, naquele velho clichê da metalinguagem, caímos dentro da trama que esse cara está imaginando. É a história de Owen Brick, um americano comum que, de uma hora para outra, acorda preso a um universo paralelo bem diferente da realidade: em vez de envolvidos na guerra do Iraque, os Estados Unidos estão em guerra civil; as cidades americanas têm outros nomes, casas e edifícios estão destruídos, etc. Para acabar com a guerra, o tal Brick tem que matar o criador desse caos, ou seja, justamente o crítico que está sonhando a tal história.

Supermanjado (Borges fez algo parecido mas muito melhor em ‘Ruínas Circulares’, um dos textos que mais amo na vida), mas até que passaria numa boa se o texto fosse mais bem escrito. O problema é que essa história paralela, do tal Owen Brick, tem um estilo quase infantil, primário e superprevisível. E termina de forma repentina, sem pé nem cabeça; parece que o Paul Auster ficou com preguiça de pensar uma maneira melhor de resolver a trama.

A segunda parte, a que trata da vida do próprio crítico, é um pouco mais interessante. Quer dizer, o personagem August Brill é um cara meio revoltado devido a um acidente que o colocou numa cadeira de rodas; sua mulher Flora, por quem ele era quase obcecado, morreu; sua filha Miriam foi abandonada pelo marido e está deprê; sua neta Katya teve o namorado morto no Iraque, e por aí vai. Pelo menos é uma história mais humana, embora o excesso de referências pós-11/9 já tenha virado carne de vaca na recente literatura americana.

Apesar de tudo, volto a dizer que gostaria de ser Paul Auster. Ele goza de uma reputação de ‘respeitado intelectual americano’, é metido a cineasta, escreve roteiros, faz sucesso com garotinhas em festivais como a Flip… enfim, é um rockstar da literatura, mas não um rockstar como Bono ou Mick Jagger. Se fosse na vida real, Paul Auster seria no máximo o Bon Jovi.

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