Um plano para a sua vida

Estadão

08 de setembro de 2008 | 11h30

Ni hao! Foi um prazer de participar da cobertura da Olimpíada, um trabalho intenso e muito interessante, principalmente pelas enormes diferenças culturais entre China e Brasil. O idioma, no entanto, foi uma barreira quase sempre tão intransponível quanto a Grande Muralha. Digo ‘quase sempre’ porque nossa equipe contou com o apoio informal de uma jornalista brasileira que mora em Pequim há pouco mais de um ano.

Quando se encontra um brasileiro em um lugar tão distante, a pergunta ‘como você veio parar aqui?’ é praticamente inevitável – ainda mais para um curioso profissional como eu.

Ela me contou que o pai é biólogo e que sua família morou no Japão quando ela era criança. Eles voltaram logo depois para o Brasil, mas a experiência foi tão marcante que ela passou a se interessar por assuntos ligados ao oriente e à cultura asiática.

Há um ano, a jornalista disse que ‘apareceu’ uma oportunidade para morar e trabalhar na China. E ela aceitou. Coloquei a palavra ‘apareceu’ entre aspas porque acho que seria um desrespeito com o destino acreditar que tudo isso aconteceu na vida dela por acaso.

Cada um desenha o seu próprio plano de vida numa prancheta imaginária. O acaso, a sorte e as outras variáveis fora do nosso alcance podem até interferir, mas acho que isoladamente elas não têm tanto poder assim.
No caso da jornalista brasileira-chinesa, acho mais provável acreditar que sua viagem foi um sonho que ela foi buscar depois de acordada, uma memória que nunca saiu da sua cabeça, um sentimento infantil que ela queria visitar novamente com o coração de adulta.

Isso acontece com todos nós, mas nem sempre com tanta clareza. Quem tem vocação para cuidar dos outros acaba virando médico; o cara apaixonado por esportes se torna atleta ou comentarista esportivo. Só que esse tipo de chamado não acontece apenas na carreira profissional: a vida constantemente também nos chama a agir de determinada maneira, a viajar para algum lugar, a sair e conhecer alguém.

Para as pessoas de sorte, esse aviso acontece de maneira cristalina, quase como uma carta escrita a mão pelos deuses da felicidade. Para os outros, a mensagem vem truncada, difícil de ler como um ideograma chinês. Mas temos a obrigação de tentar decifrar o que a vida está tentando nos dizer. Aí, então, podemos escolher o melhor plano e colocá-lo em prática. A nossa vida vai atrás da gente, mas a gente também tem que ir atrás da nossa vida.

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